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Sendo tolo como só um otimista pode ser: pensamentos para o ano que se inicia

Por Cristiane Lang (*) | 07/01/2026 08:30

 Há quem diga que otimismo é ingenuidade. Que, diante de um mundo cansado, polarizado, aquecido demais — em todos os sentidos —, projetar esperança para o futuro é coisa de tolo. Pois bem: sejamos tolos. Não por ignorância, mas por escolha. Porque a lucidez sem esperança vira cinismo, e o cinismo não constrói nada.

Entrar em 2026 com boas projeções não é negar os problemas de 2025. É reconhecer que, apesar deles, seguimos em movimento. A história nunca avançou por descrentes sentados à beira do caminho; ela anda porque alguém insiste em acreditar que dá para fazer melhor.

No cenário político, 2026 tende a ser menos sobre rupturas espetaculares e mais sobre cansaço coletivo. O mundo parece exaurizado da gritaria permanente. A polarização extrema — que ainda existe e não desaparecerá por encanto — começa a perder seu brilho. Não porque as diferenças deixaram de existir, mas porque a vida real cobra soluções práticas: emprego, segurança, saúde, educação, previsibilidade. Ideologias muito barulhentas cansam quando não entregam resultados. Há sinais, em diferentes países, de uma busca maior por pragmatismo, por lideranças que saibam negociar, recuar quando necessário e, principalmente, governar.

No Brasil, 2026 também carrega esse desejo silencioso de maturidade política. Não é um ano mágico, nem livre de disputas duras, mas pode ser um período de ajuste de expectativas. Menos salvadores da pátria, mais gestores. Menos discursos inflamados, mais conversas difíceis. A democracia, quando amadurece, deixa de ser espetáculo e passa a ser trabalho — e isso, embora menos empolgante, é profundamente saudável.

Globalmente, o cenário geopolítico segue instável, mas há um aprendizado em curso: conflitos prolongados não produzem vencedores duradouros. A diplomacia, tantas vezes tratada como fraqueza, volta a ser reconhecida como ferramenta de sobrevivência. Não por altruísmo, mas por necessidade. O mundo interdependente já entendeu que ninguém se salva sozinho, ainda que relute em admitir isso em voz alta.

E há o clima — talvez o maior teste de realidade da nossa geração. 2026 não será um ano de milagres ambientais. O planeta não vai “se recuperar” de repente. Eventos extremos continuarão acontecendo, e seria irresponsável fingir o contrário. Mas há um ponto de inflexão importante: o negacionismo climático já não ocupa o centro do debate como antes. Hoje, a discussão não é mais se o problema existe, mas o que fazer com ele — e quem paga a conta.

Avanços tecnológicos, políticas de transição energética e uma pressão social cada vez mais organizada começam a produzir efeitos concretos. Ainda tímidos, ainda insuficientes, mas reais. Empresas são cobradas, governos são vigiados, consumidores mudam hábitos — não por virtude, mas por sobrevivência. O medo, quando bem direcionado, também pode ser motor de mudança.

Talvez 2026 seja o ano em que paremos de romantizar o colapso. Em que entendamos que não há nada de poético em um mundo queimando, nem de revolucionário em destruir sem reconstruir. Cuidar do planeta deixa de ser discurso bonito e passa a ser uma tarefa cotidiana, imperfeita, cheia de contradições — exatamente como tudo que é humano.

No plano individual, o espírito do tempo aponta para um cansaço saudável: menos pressa, menos exibicionismo emocional, menos necessidade de ter opinião sobre tudo. As pessoas começam a valorizar o essencial — vínculos reais, trabalho bem feito, silêncio, limites. Não é um retorno à ingenuidade, mas uma reação ao excesso. Talvez estejamos aprendendo, aos poucos, que maturidade não é endurecer, é escolher melhor onde gastar energia.

Ser otimista, em 2026, não será acreditar que tudo dará certo. Será acreditar que dá para fazer melhor do que antes. Que erros podem ser corrigidos, que diálogos podem ser retomados, que decisões responsáveis — mesmo quando tristes ou impopulares — ainda valem a pena.

Sim, há muito a temer. Mas há, também, muito a construir. E isso exige uma certa dose de “tolice”: a coragem de imaginar um futuro menos caótico mesmo quando o presente insiste em provar o contrário.

Que 2026 nos encontre assim: menos encantados com o desastre, mais comprometidos com o possível. Porque, no fim, é esse tipo de otimismo — consciente, trabalhado, teimoso — que move o mundo para frente.

(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em Oncologia pelo Albert Eisntein, São Paulo.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.