Uma câmera na mão, muitas ideias na cabeça, inúmeros desafios
“As pessoas não entendem uma mulher no papel de liderança.” Quase seis anos após declarada, a afirmação da cineasta e roteirista Anna Muylaert ao programa BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, em julho de 2020, ainda diz muito sobre a representatividade das mulheres no cinema brasileiro. Embora elas estejam cada vez mais presentes em funções de destaque, as assimetrias de gênero ainda são predominantes no setor e contribuem para deslegitimar a atuação das mulheres quando em cargos decisórios.
Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), de 2018 a 2021, elas dirigiram somente 19,2% dos longas-metragens brasileiros exibidos em salas comerciais. Ainda assim, suas produções renderam 44,6% do arrecadado com o cinema brasileiro no período, o que corresponde a R$ 340,1 milhões de um total de R$ 763,3 milhões.
A presença majoritária das mulheres em papeis de liderança ainda se associa a atividades de organização e cuidado, como direção de arte (46,4%) e produção executiva (40,6%), enquanto observa-se menor participação em funções mais técnico-criativas, caso da direção de fotografia (14,3%). Tal tendência pode ser lida como reflexo da reprodução de papéis de gênero, com a reiteração social de atividades destinadas às mulheres e daquelas que devem ser prioritariamente exercidas por homens.
Em termos salariais, a remuneração média mensal das mulheres nas atividades do setor é mais baixa que a dos homens: corresponde a R$ 4.433,44 entre 2011 e 2021, enquanto eles receberam no período R$ 5.592,58. Mulheres negras são as que mais sofrem com as desigualdades salariais: a remuneração média mensal das pardas neste intervalo foi de R$ 3.274; já a das pretas, de R$ 2.830.
Não há como negar os inúmeros desafios para garantir às mulheres mais participação nos espaços decisórios da realização cinematográfica, equivalência nos ganhos e reconhecimento de seus trabalhos e competências. Por outro lado, há que se considerar as conquistas – não sem entraves – alcançadas na última década para inserção delas no segmento.
A exemplo das ações afirmativas de gênero e raça em políticas públicas federais, estaduais e municipais de fomento direto a projetos audiovisuais. Caso de editais como o Carmen Santos, Ruth de Souza, Curta para Mulheres, Curta Afirmativo e Longa Baixo Orçamento Afirmativo. Ou, ainda, de pesquisas da Agência Nacional de Cinema para avaliar este cenário de disparidades e subsidiar ações para seu enfrentamento.
Mesmo insuficientes e estabelecidas como políticas de governo, e não de Estado – sendo suscetíveis à descontinuidade com mudanças de gestão, como alguns dos editais mencionados –, são medidas que, de alguma forma, contribuíram para o acesso a recursos para projetos – de baixo orçamento – liderados por mulheres. Em relação a articulações das profissionais, cito a criação de diversas produtoras independentes encabeçadas por mulheres e de coletivos e associações para apoio às cineastas, como a Katahirine – Rede Audiovisual de Mulheres Indígenas.
O crescimento de mostras de cinema dedicadas à exibição exclusiva de produções com realização feminina também tem contribuído para a circulação de obras que não conseguem ocupar os circuitos comerciais. Idealizada em 2017 por Edileuza Penha de Souza, cineasta e professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, a Mostra Competitiva de Cinema Negro Adélia Sampaio, por exemplo, tem se consolidado nacionalmente como espaço de valorização de filmes de diretoras negras.
Na UnB, outras iniciativas realçam o protagonismo feminino no audiovisual. Com atividades na Faculdade de Comunicação, o CineDelas capacita estudantes para o desenvolvimento de projetos em cinema.
Experiências como essas permitem às mulheres, cada vez mais, sonhar com outros mundos, usar suas câmeras como instrumento de denúncia e luta, e ecoar suas narrativas, estéticas e sensibilidades pelas telas de cinema. Mais do que isso, abrem caminhos para confrontar os apagamentos a tantas mulheres talentosas, criativas e ousadas que desejam ocupar espaço neste mercado ou que já se dedicam a tornar o cinema nacional pulsante, mas são pouco reconhecidas.
Por mais realizadoras como Sueli Maxakali, Viviane Ferreira, Cris Lyra, Anita Rocha Silveira, Everlane Moraes, Renata Martins, Petra Costa, Yasmin Thainá, Renata Pinheiro, ou como as pioneiras Cleo Verbena, Carmen Santos, Vera de Figueiredo, Adélia Sampaio, Julia Katharine e Natuyu Ikpeng. Por um cinema brasileiro das mulheres!
(*) Serena Veloso Gomes é jornalista na Secretaria de Comunicação da UnB. Doutora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UnB, na linha de pesquisa Poder e Processos Comunicacionais.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

