Em 2024, cartório procurou Bernal e encontrou vazio imóvel palco de morte
Alegações de Bernal sobre legítima defesa e posse da casa são contestadas pela acusação

Há dois anos, oficial de cartório de registro de imóveis de Campo Grande procurou o ex-prefeito Alcides Bernal na casa da Rua Antônio Maria Coelho que virou cenário de morte esta semana e encontrou a residência vazia. Certidão expedida por ele atesta “imóvel está desocupado, vazio”.
RESUMO
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O ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, é acusado de matar a tiros o fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini em um imóvel no Jardim dos Estados. O crime ocorreu em uma casa que havia sido retomada pela Caixa Econômica Federal devido à inadimplência de Bernal, e posteriormente vendida à vítima. Documentos cartoriais e testemunhos contradizem a versão de Bernal, que alega legítima defesa e afirma que o local era sua residência. Uma certidão de 2024 comprova que o imóvel estava desocupado, e a empresa de segurança confirmou que o ex-prefeito não morava no local. O caso está sendo investigado pela 1ª Delegacia de Polícia Civil.
Para o advogado Tiago Martinho, que representa a família do fiscal tributário estadual Roberto Carlos Mazzini, morto a tiros disparados por Bernal na terça-feira (24), o documento evidencia que diferente do que alega o investigado, o imóvel não era seu lar e endereço profissional.
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Conforme a certidão, registrada no dia 25 de junho de 2024, o oficial extrajudicial esteve no local do Jardim dos Estados às 8h27. Ele diz que deixou de intimar Alcides Jesus Peralta Bernal “por não ter sido encontrado” e informa que não conseguiu descobrir outro endereço para prosseguir, estando o ex-prefeito “em lugar ignorado, incerto e inacessível”.
Em dezembro daquele mesmo ano, o oficial foi até outro imóvel que está em nome de Bernal, no Jardim Paulista. Lá, ele encontrou Mirian Ely Gonçalves, que se apresentou à Polícia Civil nesta semana como esposa de Bernal, embora no dia 16 de março, tenha dito à oficial de Justiça, numa outra intimação, que era ex-companheira do político.
Para ela, foi feita a leitura da carta de intimação da Caixa Econômica Federal. O conteúdo da citação não está disponível na certidão, mas o documento seria relacionado justamente a inadimplência com o financiamento do imóvel da Antônio Maria Coelho, que acabou tomado de Bernal pelo banco e vendido a Roberto Mazzini.
Além do documento, vizinhos afirmam que nos últimos meses, viram Bernal poucas vezes no local. A empresa contratada para fazer a segurança da casa também informou ao delegado Danilo Mansur, da 1ª Delegacia de Polícia Civil, que o ex-prefeito não morava no endereço.
O ex-prefeito e a defesa dele alegam que a casa era lar e endereço profissional de Bernal, que é advogado, enquanto para a vítima, tratava-se apenas de um negócio. “Conversa fiada, você entra lá e vê que não mora ninguém. A empresa de monitoramento também confirmou que ele não residia lá, então é mais uma versão que não bate com o que a gente apurou”, afirmou Mansur à reportagem mais cedo.
Histórico do imóvel – Nos registros do cartório do 1º ofício, consta que a primeira propriedade era de um engenheiro, em 2001. Em fevereiro de 2002, a descrição aponta que o terreno de 1.440 m² de área total com 678,42 m² de área construída contém garagem para seis carros, guarita, sala para três ambientes, mezanino, lavabo, escritório, quarto de prataria, cozinha, copa, dois quartos de empregada, WC, área de serviço, suíte master com closet, um apartamento, dois quartos, WC social, sala íntima, roupeiro, jardim de inverno, piscina, quiosque com quarto, sauna, banheiro, casa de máquinas, churrasqueira, bar e casa do caseiro com um apartamento, sala, cozinha e lavanderia.
Em abril de 2002, a casa foi comprada por um casal de médicos por R$ 350 mil. Em 2014, passou para um novo proprietário, um pecuarista que fechou negócio por R$ 420 mil.
No dia 16 de agosto de 2016, o imóvel foi comprado pelo casal Alcides Bernal e Mirian Elzy Gonçalves por R$ 1.669.422,87, com entrada de R$ 811.422,87. O casal assinou contrato para financiar R$ 858 mil com a Caixa, que deveriam ser pagos em 352 meses, ou seja, cerca de 29 anos. As parcelas iniciais ficaram em R$ 9.193,34 a partir de junho de 2013 e juros de 8,18% ao ano.
Como garantia, o próprio imóvel foi dado ao banco, avaliado em R$ 1.675.000,00, o que significa que, em caso de falta de pagamento, a propriedade poderia ser retomada pela instituição financeira.
No dia 25 de julho de 2025, o registro indica que o imóvel financiado foi retomado pela Caixa após inadimplência no contrato de alienação fiduciária. Mesmo após notificação formal, os devedores não regularizaram a dívida, o que levou à consolidação da propriedade em nome do banco, conforme a Lei nº 9.514/97. Com isso, a Caixa passou a ser a proprietária do imóvel, levando-o a leilão público para recuperar o valor do financiamento.
No dia 6 de outubro, o imóvel foi a leilão, avaliado em R$ 3.787.057,09, mas não teve comprador. O segundo leilão foi realizado no dia 13 de outubro, com lance mínimo de R$ 2.272.234,25, e também terminou sem interessados. No dia 21 de novembro, houve nova tentativa de venda e, novamente, sem arremate. Neste último, o lance mínimo foi de R$ 2.413.545,64.
A informação apurada pela reportagem é que, além do leilão, a Caixa também disponibiliza o imóvel para venda direta, e essa foi a forma de negociação adotada por Mazzini.
Morte e prisão – Bernal foi preso em flagrante depois de se apresentar na 1ª DP. Em seu depoimento à Polícia Civil, Bernal alegou legítima defesa e disse que, na tarde de terça-feira, ele não estava na casa, mas foi avisado pela empresa de segurança de uma suposta tentativa de invasão e, quando chegou ao local, foi surpreendido por Roberto Carlos e um chaveiro.
“Invadiu minha casa e estava invadindo novamente”, afirmou sobre a vítima. “Eu dei os tiros e não foi para matar, porque ele veio para cima de mim, uma pessoa que eu não conheço, nunca vi”, completou durante o interrogatório. A defesa alega que o cliente atirou por reflexo, com o intuito de se proteger.
O depoimento do chaveiro de 69 anos narra o contrário. Diz que havia acabado de abrir o portão quando o ex-prefeito entrou na casa já apontando a arma em direção a Roberto. O ex-prefeito disse, segundo a testemunha: “O que você está fazendo aqui na minha casa, seu filho da p...”. Relatou ainda que a vítima não teve nem tempo de responder antes de ser atingida pelos dois tiros.
A família da vítima contesta a versão do autor confesso dos tiros. O advogado Tiago Martinho, contratado para acompanhar o inquérito e o processo contra Bernal, afirma que as circunstâncias do crime e as evidências já conhecidas apontam para um homicídio doloso (com a intenção de matar). “O senhor Roberto foi executado pelo acusado, de forma cruel. As imagens mostram que ele já entra na residência disparando”, afirmou.
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