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Viva a Sociedade Educativa. Evoé Paulo Freire

Por Márcia Marques (*) | 14/09/2026 08:18

Instituído há 60 anos, quando a Unesco definiu a leitura e escrita como direitos humanos fundamentais, o Dia Mundial da Alfabetização – em 8 de setembro – tem uma função didática: levar a sociedade à reflexão. No Brasil, pela primeira vez, caiu a menos de 5% a população de analfabetos/as acima de 15 anos, o que representa cerca de 8,4 milhões de pessoas. Em 1900, eram analfabetos/as 65,3% da população de 17,5 milhões de pessoas. Nos anos 1970, 1980 e 1990, houve redução percentual de analfabetos, mas o número continuava a girar em torno de 18 milhões de pessoas. Em 2020, este apagão de leitura e escritura abarcava 11 milhões de pessoas. Baixamos o percentual, mas continuamos com milhões de pessoas excluídas deste direito humano básico.

Não entraram nessa conta nem os analfabetos funcionais, nem os que estão se analfabetizando com o uso intensivo de publicações em áudio e audiovisual nas mídias digitais. O texto escrito está se tornando problema que a IA resolve, basta mandar um prompt, em áudio. As trocas de mensagens, quando escritas, ganham nova linguagem, reduzida a muitas consoantes e algumas vogais, em que KBÇA é imediatamente associada a “cabeça”, excluindo “cobiça” e “cabaça”. O vocabulário também encolhe.

A escrita foi a tecnologia que impactou a organização social da espécie humana. A história não dependia mais, apenas, da reprodução de acontecimentos em versos de métricas para apoiar a memória, para que o feito continuasse ecoando com o passar do tempo. A escrita permitia contar a partir de documentos guardados. Em geral, falar em alfabetização nos remete ao aprendizado da escritura/leitura. Neste sentido, o termo alfabetização nasce como nome do processo de ensinar a ler e escrever, em geral, responsabilidade de instituições formais de ensino. Posteriormente, o período pré-escolar, em que se desenvolvem as habilidades necessárias para os atos de ler e escrever, também passou a ser considerado como processo de alfabetização.

Atualmente há novos nomes ligados a aprendizagens específicas: letramento midiático, competência em informação, alfabetização digital, literacia informacional. Penso que na sociedade digital (como conceitua Castells no livro com este nome, lançado no primeiro semestre deste ano) precisamos de todos estes letramentos, boa parte relacionados com a formação de competências e de habilidades específicas, especialmente nos campos da Comunicação, da Informação e da Computação. Precisamos que estes letramentos se enredem com os aprendizados sobre como funciona o Estado, tomando como base o que determina a constituição em vigor. Todos os aprendizados devem ser críticos, questionadores.

Ao fazer um balanço do projeto de extensão que em 1963 alfabetizou 300 trabalhadores em 40 horas/aula no interior do Rio Grande do Norte, o educador Paulo Freire propõe a promoção de condições para nos estruturarmos como uma Sociedade Educativa. No livro Educação como prática da Liberdade, escrito enquanto estava exilado no Chile, defende que a alfabetização não deve ser apenas formal, restrita às instituições de ensino, pode-se estender a sindicatos e outras organizações, por exemplo. As universidades, por meio de projetos de extensão – com extensionistas orientados a promoverem letramentos também sobre o Estado – tem condição de concentrar fluxos de formação e informação com a sociedade. Esta rede pode se expandir com o treinamento dos estudantes de ensino médio que recebem o “Pé-de-meia”, por exemplo, para atuar nas escolas ou em salas de postos de saúde na orientação e formação de usuários que não compreendem o funcionamento do sistema, ou não tem equipamentos para acesso, onde se encontram pessoas de baixa renda, de baixa escolaridade e idosas.

Voltando ao começo desta conversa, a comemoração quanto aos dados da PNAD é boa, há um esforço hercúleo para reduzir o analfabetismo no Brasil. O desafio, agora, é conseguirmos viralizar a ideia de uma sociedade educativa.

(*) Márcia Marques é professora do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UnB. Integra estudos associados ao GPCI voltados para o campo híbrido de Comunicação, Informação e Computação.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.