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Beba das Crônicas

A nova arca de Noé, trocas e meteoritos

Por André Alvez | 25/05/2022 08:00

Acontece quando chove bastante, como nessa tarde de nada a fazer, na varanda de casa, observando o véu da chuva tentando ofuscar a luz dourada da minha aliança. As lembranças despencam. Então vejo uma oficina, dois senhores das cabeças brancas e das mãos ágeis em torno do mais precioso dos metais.

O brilho do ouro permanece em mim para sempre. Entre eles, lá estava eu, menino inquieto e sonhador, o aprendiz de ourives. Meu mestre principal era o gênio chamado Gilberto Billerbeck. O irmão dele, Raul, também genial, é um daqueles rostos que guardo na memória com enorme carinho.

Apesar do pouco estudo, Gilberto era um excepcional erudito, falava sobre livros, filmes e artistas, citava Charles Chapplin como se fosse um amigo antigo e tinha Clark Gable como rival, porque amava Vivien Leigh como se fosse a eterna namorada. Certa vez, a me ver entortando desajeitado o fio de ouro, disse num tom de voz certeiro: “rapaz, largue esse alicate, você não nasceu para isso, foi feito para o papel”.

E diante de meus olhos surpresos, citou uma frase que até hoje guardo e tenho: ”Tudo na vida é uma questão de trocas”. Era um convite para outra profissão. Demorei um bom tempo para entender aquela máxima. De fato, eu nunca tive jeito para alicates, pinças e martelos.

Escrever era o meu destino, conforme o mestre avisou. Gilberto usava o monóculo preso à testa, ria sozinho dos próprios pensamentos, se divertia enquanto criava, transformando o ouro bruto em peças raras. Tinha o costume de vigiar o céu, já sabia que as estrelas cadentes eram na verdade meteoritos e então cismou na cabeça o grande choque, o fim de tudo. Ou quase tudo.

Pouco antes das trevas invadirem o meu pensamento, aliviava: “Sossegue, estaremos a salvo, só Mato Grosso permanecerá existindo, o resto, o mar engole.” No fim, completava numa certeza comovente: “Mato Grosso é a nova arca de Noé”. Depois ria da própria incongruência, o ateu confesso citando um personagem bíblico.

Era tido como louco, e hoje eu sei que os loucos sempre têm razão. Um dia me pediu para limpar os fundos da oficina, um espaço abarrotado de antigos jornais. Num passar de dedos, abriram-se as páginas dos encantos.

Certamente o trabalho mais prazeroso de toda minha vida. Encontrei naquele lixo a literatura, fui apresentado a Rubem Braga, Drummond, Paulo Mendes Campos, Cony, Adalgisa, Marina, Clarice, Cecília, a crônica, o convite: beba dessa fonte.

Num sopro do vento, olhei para o céu e vi o rastro enorme da fumaça deixado por um avião, a metáfora de um caminho a ser seguido. E logo estava num outro emprego, rodeado de papéis. Muitas vezes, o primeiro corte é o mais profundo. E se o rastro de fumaça do avião fosse na verdade uma rachadura no céu?

A vida caminhou, troquei os sapatos, esmaguei as pedras, calei os calos nas mãos, sobrevivi. Gilberto e Raul são imagens de ternura após a cortina da chuva e às vezes isso dói.   “Talvez tudo seja apenas uma questão de trocas”.

Nesse começo de ano, li essa mesma frase em um livro do Amós Oz e o vento, com sabor de chuva, fez a poeira findar na minha garganta. Percebi, a contragosto, que troquei a mocidade pela quase velhice. Um gole de vinho.

As rugas, elas sempre hão, sem trocas. Outro gole, o estalar do gosto de uvas na boca. Nas férias, fiquei em casa, troquei a beleza do oceano pela calma do meu quarto, as paredes mudas de explosões de um avião e a multidão cega do aeroporto pela maciez da minha cama, o atropelo do restaurante do hotel pelo chuveiro morno e depois o café que eu mesmo fiz.

Troquei gente por leitura, encarnei a ilusão de quatro ou cinco personagens, o real pelo sonho. Num repente, o livro do Gabo aberto numa página qualquer, troquei a admiração pelo encanto. O vinho entre os dentes, a língua morna de uva. Então quis ouvir um rock falando de guerra e acabei ouvindo Wilson Simonal. Troquei o rock pelo swing. A noite cai sobre a terra e me resta trocar o grito pelo silêncio, a confusão por restos de palavras: o vento nunca dorme, está sempre espreitando lá fora, atrás da janela trancada. Mas o que sabe o vento sobre a angústia de envelhecer? Amanhã é mais um dia de trocar de tempo, avançar um pouco mais.

“Mato Grosso é a nova arca de Noé”, ouço a voz do vento, enquanto os meteoritos caem e aquela mesma fumaça de avião de antes prossegue a riscar o céu...


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