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"A mulher não quer cesárea, ela quer o alívio da dor", diz médico sobre polêmica

Campo Grande News ouviu chefes das maternidades da Santa Casa e HU sobre projeto de lei que garante cesárea sem indicação médica

Por Paula Maciulevicius Brasil | 31/10/2020 09:00
Para médicos das maternidades, falta informação às mulheres sobre boas práticas na assistência ao parto. (Foto: Thê Fotografia)
Para médicos das maternidades, falta informação às mulheres sobre boas práticas na assistência ao parto. (Foto: Thê Fotografia)

Polêmico, o projeto de lei apresentado na Assembleia Legislativa nesta semana, que prevê garantir à gestante o direito de optar pela cesariana a partir da 39ª semana de gravidez repercutiu, principalmente porque a justificativa do projeto proposto pelo deputado estadual Marçal Filho (PSDB) não tem respaldo científico nem foi construída a partir de discussões com profissionais da assistência ao parto.

Se aprovada, a lei permitiria às gestantes escolherem a cesárea sem nem ao menos entrarem em trabalho de parto. Hoje, no SUS (Sistema Único de Saúde) não há nenhuma lei que preconize à paciente a escolha da cesárea sem indicação, no entanto, na literatura médica já se discute há alguns anos a questão de autonomia da mulher e o próprio Conselho Federal de Medicina define critérios para a chamada cesariana a pedido.

"Aqui na Santa Casa a paciente pode sim solicitar que seja feito o parto cesariano, só que ela vai passar por uma série de avaliações e é muito importante a gente frisar justamente o que vai contra este projeto de lei, que não é simplesmente a vontade do paciente, até porque a gente não tem só a mulher ali,  tem um bebê", ressalta o supervisor da Ginecologia e Obstetrícia da Santa Casa, William Leite Lemos Junior.

Hoje, no SUS, mulheres podem pedir cesárea desde que estejam já em trabalho de parto. (Foto: Paula Cayres)
Hoje, no SUS, mulheres podem pedir cesárea desde que estejam já em trabalho de parto. (Foto: Paula Cayres)

Na prática, o médico explica que a paciente tem a possibilidade da cesárea, mas precisa estar em trabalho de parto. "Se ela não estiver em trabalho de parto, não tem nem indicação para ser internada. Por este projeto de lei, a paciente que chegou nas 39 semanas, se tiver vontade, pode chegar aqui e pedir a cesariana, o que é um erro, porque ninguém combinou com este bebê a hora dele nascer. Se a gestante não tem nenhum sintoma, nenhuma indicação, porque eu vou expor o feto, a criança a este momento?" questiona o chefe.

Estudos científicos e a própria experiência na Santa Casa provam que bebês que nascem de cesariana eletiva sofrem principalmente na parte pulmonar e respiratória. "As substâncias que são liberadas diante das contrações e durante a passagem do bebê pelo canal vaginal estimulam o desenvolvimento pulmonar desta criança. Então se eu proíbo este bebê de passar por isso realizando uma cesariana eletiva, eu estou sim levando este bebê a ter um desconforto respiratório e até a precisar de suporte ventilatório e com isso ele ter que ficar em uma UTI neonatal".

Esta foi apenas uma das questões levantadas pelo médico que cita ainda se necessários procedimentos no bebê, a criança não terá o contato pele a pele com a mãe logo após o parto e nem a amamentação na primeira hora de vida. "São todas situações onde já existe respaldo na ciência e respaldo robusto de que a ausência destes estímulos iniciais pode prejudicar a vida daquele ser humano a longo prazo", observa.

Como chefe do setor na Santa Casa, William Lemos fala que nem ele nem outros chefes dos serviços de maternidade da Capital foram procurados pelo deputado para a matéria. "Estou na chefia há dois anos, quando chegamos aqui a taxa de cesarianas beirava os 70%, atualmente estamos em 45%, e este sucesso, esta queda sem ter qualquer prejuízo às mães ou aumento de mortalidade só foi conseguido com educação, com capacitação junto aos profissionais e com as pacientes que conversamos desde o pré-natal".

Quando o Campo Grande News publicou a reportagem nas redes sociais, o que mais se viu foram comentários de mulheres apoiando o projeto alegando sofrimento durante o trabalho de parto. "Existem vários métodos para que seja diminuída essa experiência de dor, inclusive se necessária, a medicação analgésica, e aí está uma coisa: por que não fazer um projeto de lei que ofereça analgesia de parto para as gestantes? Por que isso não tem, agora estão querendo colocar um projeto de lei para cesariana? Por que não fazer um projeto de lei em que a analgesia de parto seja massificada no SUS? Por que posso te dizer com propriedade que elas não querem cesariana, elas querem o alívio da dor e eu digo isso para as minhas pacientes, cesariana não é remédio para dor".

Parto normal também favorece o contato pele a pele entre mãe e bebê logo após nascimento. (Foto: Thê Fotografia)
Parto normal também favorece o contato pele a pele entre mãe e bebê logo após nascimento. (Foto: Thê Fotografia)

Chefe do setor materno infantil e da saúde da mulher do Hospital Universitário, Ricardo Gomes fala que o Ministério da Saúde reforça a necessidade da cesariana apenas com indicação médica e que assim como na Santa Casa, a cesárea a pedido quando a mulher está em trabalho de parto já é prática no HU.

"Muitas vezes não é que ela quer cesárea, a mulher está cansada da gravidez", comenta Ricardo. A decisão da equipe de permitir a cesárea a pedido apenas no trabalho de parto fez com que várias gestantes que já chegavam à maternidade em trabalho de parto avançado mudassem de ideia. "E o segundo ponto é ter a certeza de que o bebê está pronto para nascer", ressalta o médico.

Ricardo explica que uma gestação pode levar de 37 a 42 semanas, mas que isso é uma média e tem bebês que precisam de mais tempo. "Para o bebê, o maior risco dele ser tirado antes da hora é ter dificuldade para respirar. A chance de um bebê ter que precisar de uma UTI ou unidade intermediária quando tirado entre 37 e 39 semanas é muito grande", destaca.

Para a mãe, as implicações vão desde infecção na cirurgia até chance de desenvolver dor crônica. "A cesariana é uma cirurgia e isso que as pessoas esquecem, ela tem todos os riscos de uma cirurgia de médio porte, não é algo tão simples assim", pontua.

Um dos pontos mais relevantes na discussão também está relacionado à ultrassom, porque quanto mais tarde o exame é feito, mais chance ele tem de errar. "A ultrassom mede o tamanho e quanto mais tarde é feito o primeiro exame, o tamanho pode variar e é difícil a gente ter essa definição", explica o médico sobre a chegada na 39ª semana.

Sobre os argumentos de dor e sofrimento, o médico explica que na maioria das vezes o trabalho de parto tem dor suportável. "A gente avalia a dor em uma escala de 0 a 10 perguntando para a paciente: como está a sua dor? E temos técnicas para aliviar chamadas técnicas não farmacológicas como agachamento, o acompanhante estar junto com ela dando apoio emocional, a equipe de saúde, a doula, um banho quente por banheira ou chuveiro, ela se movimentar", enumera o especialista.

Quando não são suficientes tais técnicas, o médico fala que aí parte para a anestesia, mas que este é um ponto chave não só no HU como nos principais hospitais. "Não é sempre que a gente consegue anestesista disponível para fazer essa analgesia, tem dia que tem, tem dia que eles estão em tudo quanto é sala em cirurgia. Então, depois que tentou de tudo, se não consigo oferecer analgesia para aquela mulher que está com uma dor muito acima do normal, aí acabamos indicando a cesariana, por conta disso", explica.

Para médicos, boas práticas de assistência ao parto precisam ser mais divulgadas às famílias. (Foto: Paula Cayres)
Para médicos, boas práticas de assistência ao parto precisam ser mais divulgadas às famílias. (Foto: Paula Cayres)

Outro ponto que o médico cita como sendo de relevância na hora da mulher escolher a via de parto é o medo. "As pessoas têm medo do parto normal pela imprevisibilidade de quando isso vai acontecer e a outra coisa é o medo que ela vai sentir da dor sem nem ter passado por aquilo. Tem muitas mulheres que depois dizem 'nem era tudo isso', porque todo mundo bota na cabeça que vai doer", descreve Ricardo.

As mulheres também tem a falsa impressão de que a cesariana não traz dor, no entanto, a recuperação pode ser dolorosa. "Tem paciente que passa um mês andando encurvada, com dor na barriga, não consegue pegar o bebê direito, amamentar e isso não é colocado", fala o chefe do setor no HU.

Na visão do médico Ricardo Gomes, há muitas falhas desde o início do pré-natal que poderiam ser resolvidas com políticas públicas, como a divulgação das boas práticas da assistência ao parto, como deve ser o atendimento adequado e o que paciente e acompanhante devem fazer para se preparar para o trabalho de parto. "Isso não é passado, a gente engatinha muito nisso ainda. A mulher tem que ter o real discernimento das complicações entre o parto normal e a cesárea, as mulheres que têm essa compreensão não escolhem a cesárea", afirma.

O problema para o médico está na justificativa do projeto, carregada de pré-conceitos em cima do parto. Um dos pontos que justifica o projeto coloca "...Questões como "circular de cordão" ou tamanho do bebê, por exemplo, podem ser consideradas suficientes para a indicação da cirurgia."

Mais adiante, o projeto coloca também que "haja vista os riscos que circundam o parto normal, muitos são os casos em que, graças à submissão ao parto normal, o concepto vem a sofrer anóxia (falta de oxigênio), ficando sequelado para o resto da vida, popularmente chamada paralisia cerebral. Nas situações mais graves, a anóxia leva à morte do bebê, seja dentro do ventre materno, seja alguns dias após o nascimento".

"A justificativa que eles dão dá a entender que a mulher não tem capacidade de ter um parto normal, dá a entender que a equipe de saúde não tem capacidade de dar assistência ao parto normal e que por isso é melhor fazer a cesariana. Isso que eles fazem, colocam um medo tão grande sobre o parto normal. O meu maior receio não é o paciente chegar e falar que tem direito à cesárea, meu maior receio é uma mulher pegar aquele texto para ler e dizer: 'parto normal é muito perigoso, não quero'.

Médicos falam que além da mulher, existe um bebê que precisa estar preparado para nascer. (Foto: Paula Cayres)
Médicos falam que além da mulher, existe um bebê que precisa estar preparado para nascer. (Foto: Paula Cayres)

Quanto à criação da matéria, o chefe do HU é crítico ao dizer que "ali só tem homem que nem é da equipe de saúde. Não tem ninguém que tenha gabarito para falar o que estão falando, tinham que chamar mulheres, médicos, enfermeiros. A justificativa que colocaram foi totalmente sem embasamento científico nenhum, foi o que julgaram ser da cabeça deles", dispara.

Por fim, o médico ainda ressalta a questão da superlotação nas maternidades. "Imagina uma paciente que chega aqui com 39 semanas e diz que quer internar para fazer cesariana? Se há superlotação, ela tem que voltar no dia seguinte, e no outro e no outro, porque sem indicação vai ser mandada embora. No final, vai acabar numa cesariana durante o trabalho de parto, qual vai ser o desgaste que essa paciente vai ter e que a própria equipe de saúde não vai ter? Não tem condição de fazer isso", opina.

Santa Casa e HU informaram que estão elaborando uma resposta técnica para rebater os pontos do projeto. O Campo Grande News não conseguiu o posicionamento da direção da Maternidade Cândido Mariano.

Depois das críticas, o deputado Marçal Filho declarou que vai mudar o texto do projeto.

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