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Cidades

Briga entre governo e prefeitura cria confusão no comércio com 'abre-não-abre'

Com volta à bandeira vermelha adotada pela prefeitura, população fica sem saber muito bem a quem obedecer

Por Silvia Frias e Alana Portela | 15/06/2021 10:08
No centro de Campo Grande, loja sendo aberta em mais um dia de decreto, desta vez, na bandeira vermelha (Foto: Marcos Maluf)
No centro de Campo Grande, loja sendo aberta em mais um dia de decreto, desta vez, na bandeira vermelha (Foto: Marcos Maluf)

O campo-grandense acordou ontem com série de medidas restritivas e terminou o dia com abrandamento das determinações, numa puxada de tapete protagonizada pela prefeitura de Campo Grande no decreto estadual que havia colocado a cidade na bandeira cinza. Hoje, o retorno à classificação vermelha deixou a população confusa e desconfiada do que pode vir pela frente.

“Tá parecendo aquele meme do ‘tira casaco, bota casaco’ do Karatê Kid, fica nesse ‘abre-não-abre’”, resumiu Ariane Chimenes, 23 anos, vendedora de loja de roupas, que aguardava a abertura do estabelecimento, esta manhã. “Se fecha, a gente fica com medo do desemprego, se abre, tem a situação da pandemia e a gente na incerteza”, avaliou.

"Tá parecendo meme", disse Ariane Chimenes sobre indecisão (Foto: Marcos Maluf)
"Tá parecendo meme", disse Ariane Chimenes sobre indecisão (Foto: Marcos Maluf)

A colega Jéssica Garcia, 20 anos, concordou, embora tenha dúvidas sobre a hierarquia das ordens. “Eu fico sem saber quem manda mais”. A jovem acredita que a medida foi tomada para atender os comerciantes, o que é benéfico para o setor desde que todos cumpram sua parte. “A gente toma os cuidados aqui, usa álcool em gel, distanciamento, o problema tá na superlotação dos ônibus, nas festas clandestinas, em quem descumpre o toque de recolher”.

No lado dos comerciantes, a queda de braço também é vista com preocupação. O dono de loja de capas de celular, Donizete Tavares, 40 anos, disse que são os lojistas que saem perdendo. “O comércio está fazendo sua parte, mas tem os bares à noite, festas clandestinas, é um decreto que pune os comerciantes e deixa todos confusos. Desde que tudo começou na semana passada ja perdemos o movimento”.

Julieli lamenta 'briga entre gigantes' ao lembrar da morte da mãe (Foto: Marcos Maluf)
Julieli lamenta 'briga entre gigantes' ao lembrar da morte da mãe (Foto: Marcos Maluf)

Hoje, nas primeiras horas do dia, o Centro de Campo Grande já estava mais movimentado

que ontem, quando as restrições impostas na bandeira cinza estavam em vigor. Naquele sistema, 51 atividades listadas como serviço essencial poderiam funcionar e, hoje, volta ao que estava antes do decreto estadual, com a cidade na bandeira vermelha, em funcionamento e toque de recolher a partir das 22h e não mais das 20h em diante.

De férias em Campo Grande, Josieli Leonardo, 23 anos, veio de Cuiabá (MT) receosa com a classificação cinza da cidade, mas não teve mais como adiar a visita à irmã. “Hoje saí sem nem saber se ia resolver o que precisava ou não”, disse, explicando que foi ao centro para tratar de conta de cartão.

Nas redes sociais e na boca do povo, a incerteza (Foto/Reprodução)
Nas redes sociais e na boca do povo, a incerteza (Foto/Reprodução)

A falta de discurso único, aliás, não se resume apenas ao embate Estado x Município, na opinião da enfermeira Rafaela Barbosa, 26 anos. “É presidente falando para tirar máscara, é governador falando para fechar, é prefeito dizendo para abrir, a gente fica assustado e confuso”. Rafaela acredita que abrir o comércio seja medida benéfica do Município, mas pondera o momento. “Se tivessem vacinado pelo menos metade da população, não estaríamos passando por isso agora”.

Também no centro para resolver pendências, a cabeleireira Julieli Spiller, 28 anos, acha que as medidas restritivas deveriam ser adotadas durante o fim de semana “Deixa a gente trabalhando durante a semana, porque a gente precisa levar comida para dentro de casa”, avaliou.

Julieli reconhece, ainda, a necessidade da continuidade de se adotar medidas de biossegurança e solução para o embate entre os gestores. “Isso é briga entre gigantes e a gente no meio dessa situação, a pandemia é muito triste, senti na pele, perdi minha mãe há seis meses para a doença”, contou. “Nem consegui me despedir dela, não pode nem abrir o caixão, é terrível”.

Vendedores se preparam para dia de trabalho, no centro da cidade (Foto: Marcos Maluf)
Vendedores se preparam para dia de trabalho, no centro da cidade (Foto: Marcos Maluf)

Quem seguir? - Em Campo Grande hoje são dois decretos vigorando, mas a decisão da prefeitura, que derrubou as restrições, é respaldo para 100% do comércio reabrir e os eventos retornarem com 50% da capacidade de lotação dos espaços. A briga também não foi judicializada ainda, o que fortalece a decisão da prefeitura. Pelo menos hoje, essa situação não deve ser alterada.

Conforme boletim epidemiológico publicado ontem pela SES (Secretaria Estadual de Saúde), Campo Grande acumula 111,6 mil casos de covid-19, dos quais 3.071 foram a óbito. Vale ressaltar que a macrorregião do município registrou taxa de ocupação de 107% - ou seja, não há leitos de UTI e os hospitais trabalham com pacientes acima da capacidade.

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