ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JULHO, QUINTA  30    CAMPO GRANDE 24º

Cidades

Presidente do TJMS barra bloqueio de verbas para socorro à Santa Casa

Desembargador diz que hospital vê apoio público como “a tábua de salvação de seu déficit financeiro”

Por Gustavo Bonotto | 30/07/2026 19:56
Presidente do TJMS barra bloqueio de verbas para socorro à Santa Casa
Pombos passando em frente à fachada da Santa Casa de Campo Grande. (Foto: Arquivo/Henrique Kawaminami)

O presidente do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul), desembargador Dorival Renato Pavan, suspendeu no fim da tarde desta quinta-feira (30), em Campo Grande, a ordem que obrigava Estado e Município a pagar de imediato cerca de R$ 23 milhões à Santa Casa. Ele acolheu o pedido do Governo do Estado, com adesão da Prefeitura de Campo Grande, e afastou o bloqueio judicial de verbas públicas.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, desembargador Dorival Renato Pavan, suspendeu a ordem que obrigava Estado e Município a pagar R$ 23 milhões à Santa Casa de Campo Grande. A decisão acolheu pedido do governo estadual, ao qual a Prefeitura aderiu, e impede bloqueio de verbas públicas. Pavan argumentou que o pagamento imediato causaria grave dano ao erário e que eventual dívida deve seguir o regime de precatórios.

Na prática, a Santa Casa fica sem receber agora o montante indicado no processo. O hospital ainda pode buscar o reconhecimento dos valores no julgamento da ação e nos recursos em análise no TJMS. Pavan não anulou a atualização dos repasses pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) nem definiu quem vencerá a disputa.

A cifra de R$ 23 milhões corresponde a uma estimativa apresentada pela própria instituição e ainda não passou por cálculo definitivo da Justiça. Em documento posterior, a direção calculou R$ 23,1 milhões em correção acumulada desde novembro e outros R$ 3,4 milhões referentes a julho. A soma elevaria a cobrança para cerca de R$ 26,5 milhões.

A suspensão atinge uma decisão da 2ª Vara de Fazenda Pública e de Registros Públicos de Campo Grande, publicada em 29 de junho. O juiz Claudio Müller Pareja deu prazo de 15 dias para a quitação dos valores acumulados durante o processo e autorizou o bloqueio em caso de descumprimento. Ele também determinou o pagamento imediato dos repasses atuais e futuros com a correção monetária.

Pavan afirmou que a cobrança imediata, sem previsão no orçamento, tem “aptidão para causar grave dano ao erário”. O desembargador considerou que eventual dívida reconhecida contra os governos deve seguir o sistema de precatórios, que inclui o pagamento no orçamento público. Ele também escreveu que a ordem provocava “tumulto desnecessário no planejamento e execução das ações inerentes à gestão pública”.

O presidente do TJMS declarou que a Santa Casa tenta ver no Estado e no Município “a tábua de salvação de seu déficit financeiro”. Ele afirmou que o hospital demonstra não ter controle dos próprios gastos e aparenta enfrentar “completo caos” administrativo. Pavan acrescentou que os governos não podem direcionar recursos ilimitados para uma única instituição e prejudicar o restante da rede de saúde.

O desembargador também questionou a prestação de contas prevista no acordo emergencial firmado no fim de 2025. Segundo a decisão, Estado e Município informaram que a Santa Casa não comprovou a aplicação de todo o dinheiro recebido. Pavan classificou como temerário liberar novos valores “sem que se saiba ao certo onde o dinheiro recebido vai parar, e no bolso de quem”.

Contrapontos - Nos autos obtidos pela reportagem, a Santa Casa contestou as críticas e afirmou que o Estado selecionou dados contábeis isolados antes da conclusão das análises técnicas. A entidade destacou que uma Auditoria Especial indicada pelo próprio governo examinava a gestão, os contratos, a estrutura e as metas do SUS (Sistema Único de Saúde). As partes também aceitaram uma perícia judicial para identificar as causas da crise financeira.

O hospital também alegou que o Estado não apresentou estudo, cálculo ou documento técnico para mostrar como os R$ 23 milhões comprometeriam as contas públicas. A instituição afirmou que submeter os repasses ao sistema de precatórios a obrigaria a atender os pacientes de imediato, mas a esperar anos pelo dinheiro. Segundo a defesa, a suspensão pode reduzir serviços, ampliar filas e aprofundar o endividamento.

O Governo do Estado usou os balanços da Santa Casa para sustentar que a crise tem causas estruturais e administrativas. Conforme a interpretação apresentada na petição, o passivo do hospital subiu de R$ 555,7 milhões, em 2023, para R$ 792,6 milhões, em 2025. O valor das dívidas equivalia a 4,6 vezes o total de bens e recursos da instituição no fim do último exercício.

O Estado também apontou que as despesas administrativas passaram de R$ 74,06 milhões, em 2023, para R$ 189,25 milhões no ano seguinte. Esses custos chegaram a R$ 198,13 milhões em 2025, segundo os dados apresentados pelo governo. A dívida com empréstimos e financiamentos bancários alcançou R$ 278,6 milhões.

A Santa Casa afirmou que os números não comprovam falhas na administração nem demonstram relação direta entre a gestão e o aumento do passivo. Para a instituição, a chamada insolvência técnica reforça a necessidade de atualizar o financiamento dos serviços. O hospital atribui parte da dívida à falta de um contrato compatível com o custo dos atendimentos prestados à população.

Ação começou com pedido de R$ 126 milhões - Os R$ 23 milhões suspensos nesta quinta não representam o valor total cobrado pela Santa Casa quando a ação começou. O hospital recorreu à Justiça em novembro de 2025 e afirmou que os repasses do Convênio 03-A/2021 estavam sem atualização desde agosto de 2023. Na época, pediu que o pagamento mensal subisse para R$ 45,9 milhões e cobrou uma recomposição retroativa mínima de R$ 126 milhões.

A primeira decisão saiu no fim daquele mês e prorrogou o convênio por 60 dias. O juiz também determinou a aplicação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) sobre os repasses mensais para preservar o valor do contrato. Estado, Município e Santa Casa recorreram ao TJMS contra partes da medida.

Em abril, a 2ª Câmara Cível concluiu que a atualização deveria retroagir a agosto de 2023. O colegiado rejeitou naquele momento o pedido de recomposição financeira completa porque a análise dependia de perícia e de exame detalhado das contas. O julgamento reconheceu a correção mensal, mas não ordenou o pagamento imediato de todos os valores cobrados.

Antes do julgamento da 2ª Câmara, o Estado, o Município, a Santa Casa e o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) assinaram um acordo emergencial para impedir a paralisação dos serviços. Conforme noticiado pelo Campo Grande News, o pacote reuniu R$ 54,1 milhões em recursos extras, com parcelas municipais, estaduais e emendas federais. O termo destinou o dinheiro principalmente ao pagamento de funcionários, médicos, fornecedores e despesas atrasadas.

Um dos aditivos incorporou R$ 1,86 milhão por mês ao convênio devido à correção pelo IPCA. Outro documento formalizou o pacote de R$ 54,1 milhões e prorrogou o vínculo até o fim de abril. As partes reconheceram que o aporte daria alívio imediato, mas não resolveria a crise estrutural.

O acordo também exigiu prestação de contas, auditoria independente e negociação de um novo contrato. Estado e Município fizeram os pagamentos extras, fato reconhecido pelo MPMS e pela primeira instância. A auditoria não começou porque as partes divergiram sobre a empresa, o modelo de contratação e o alcance dos trabalhos.

Histórico - Em maio, o Campo Grande News mostrou que o contrato original, assinado em 2021, acumulava 46 aditivos e se aproximava do limite de cinco anos. A Santa Casa afirmou que o acordo emergencial não resolveu a renovação nem corrigiu de forma permanente os valores. Estado e Município defenderam que cumpriram as obrigações financeiras e cobraram a conclusão da auditoria.

A crise voltou à mesa de negociação em uma audiência realizada no fim de junho. A Santa Casa declarou que enfrentava déficit mensal de aproximadamente R$ 15 milhões e pediu aumento nos repasses. A Prefeitura de Campo Grande informou que os pagamentos regulares estavam próximos de R$ 33 milhões por mês.

Estado e Município defenderam uma perícia para identificar o custo real dos serviços e as causas da dívida. Todas as partes aceitaram que o exame judicial substituísse a auditoria prevista no acordo. A audiência terminou sem definição sobre o novo contrato e sobre o valor necessário para manter o hospital.