Estrutura administrativa mantém PCC na ativa e avançando no Estado
Ao longo dos anos, investigação mostra a facção divida em setores, funções e áreas de responsabilidade
A investigação que chegou em 2020 a lista dos "100 do PCC” expõe uma estrutura que até hoje segue ativa no Estado e viabiliza o avanço da facção que hoje disputa território com o Comando Vermelho. Planilhas apreendidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), o PCC aparece dividido em setores, funções e áreas de responsabilidade, com integrantes encarregados de fiscalizar membros, transmitir ordens, coordenar regiões e movimentar atividades financeiras.
RESUMO
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Investigação iniciada em 2020 revelou a estrutura organizacional do PCC em Mato Grosso do Sul, dividida em setores de disciplina, comunicação e finanças. Planilhas apreendidas pela Operação Ponto Cego identificaram 110 integrantes, dos quais 100 foram denunciados pelo Ministério Público estadual. Os registros mostram funções como Disciplina, Salveiros e Geral dos Caixas, com membros remanejados entre cargos e regiões, enquanto a facção disputa território com o Comando Vermelho.
O material foi encontrado em um telefone celular apreendido durante a Operação Ponto Cego, em julho de 2020. Os arquivos reuniam 426 cadastros atribuídos a integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital). A partir deles, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) afirmou ter identificado 110 pessoas, das quais 100 foram denunciadas por integrar organização criminosa.
Nas fichas, as atribuições aparecem no campo chamado “responsas”. O termo identifica as tarefas e posições ocupadas por cada integrante. Os registros também permitem acompanhar mudanças de função e transferências entre setores da organização.
O relatório não apresenta um organograma completo nem explica todos os cargos. Ainda assim, revela uma engrenagem formada por núcleos de controle, comunicação, coordenação territorial e geração de recursos.
Como a facção ainda funciona
Uma das funções mais detalhadas é a “Disciplina”. Segundo a denúncia, o setor controla os integrantes e verifica se eles cumprem as obrigações impostas pela facção.
A função não se limita aos presos. O documento aponta que integrantes chamados de “Disciplina” ou “Geral” também acompanham membros e simpatizantes que estão em liberdade, repassam informações e recebem orientações de lideranças encarceradas.
Nas planilhas, são vários os apelidos citados. “Farinha” aparece como “Apoio de Disciplina”. “Beiço”, também chamado de “Don Ruan”, é relacionado à função de “Disciplinar Conesul”, com responsabilidade vinculada a uma região do Estado.
O modelo descrito não corresponde a um setor de fiscalização legal, evidentemente. Trata-se da imposição das regras próprias de uma organização criminosa, com mecanismos internos de cobrança e controle.
A comunicação também possui responsáveis próprios. Os chamados “Salveiros da Disciplinar” transcrevem, transmitem e guardam os “salves”, nome usado para os comunicados e determinações da facção. O setor funciona, conforme a acusação, como uma rede de circulação de informações entre integrantes, cidades e regiões.
“Koringa” aparece vinculado ao “Salveiro da Disciplinar Rota Norte”. Já “Beiço” é registrado, em outro momento, como “Salveiro da Disciplinar Regional Conesul”.
As duas anotações mostram que a circulação das mensagens seguia divisões territoriais. Norte e Cone Sul não aparecem apenas como referências geográficas, mas como regiões com responsáveis pela comunicação e pelo controle interno.
Outra função recorrente é a de “Geral”. O documento cita posições como “Geral do Interior de MS”, mas não apresenta uma descrição completa de suas atribuições. Pelo contexto das fichas e da denúncia, trata-se de uma função de coordenação territorial e acompanhamento de integrantes.
O termo também aparece associado ao contato entre membros em liberdade e lideranças presas. Isso indica uma estrutura na qual as ordens e informações circulam entre o sistema penitenciário e as áreas externas de atuação.
Um exemplo é homem indicado como “Beiço”, apontado como alguém que passou pela função de “Geral do Interior de MS”, além das posições relacionadas à disciplina e à comunicação no Cone Sul.
A mudança entre cargos revela que os integrantes podiam ser remanejados conforme as demandas internas da facção.

Atividades financeiras aparecem em setores próprios
O relatório também menciona quadros ligados à geração e à administração de recursos.
Entre eles estão o “Progresso” e o “Setor do Óleo”. A acusação relaciona esses núcleos a atividades criminosas que alimentariam financeiramente a organização, incluindo o tráfico de drogas.
O documento, porém, não explica com precisão a diferença entre os dois setores nem detalha toda a cadeia financeira. Portanto, não é possível afirmar, apenas com esse material, exatamente como cada núcleo funcionava ou quanto movimentava.
Também aparece a expressão “Geral dos Caixas MS”, atribuída a uma função ligada aos caixas da organização no Estado. A existência dessas anotações reforça que a facção não cuidava apenas da execução de crimes, mas também do dinheiro produzido por eles.
As planilhas registram funções anteriores e atuais, permitindo observar a movimentação dos integrantes dentro da estrutura.
Uma pessoa podia passar pela comunicação, assumir responsabilidade disciplinar e depois ocupar uma posição territorial. Outros registros apontam mudanças entre “Disciplina”, “Geral” e “Progresso”.
Esse sistema indica que os cargos não eram necessariamente permanentes. Os integrantes eram deslocados entre funções e regiões, segundo a leitura apresentada pelo Ministério Público.
A possibilidade de remanejamento também ajuda a explicar por que as fichas registravam com tanto detalhe a cidade de atuação, o histórico prisional e as últimas responsabilidades de cada pessoa.


