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Cidades

Falta de acessibilidade faz casal perder voo e bagagem após conexão em Guarulhos

Por conta dos transtornos que geraram atrasos, Sara e Lucas faltaram à cerimônia de casamento da prima

Por Inara Silva | 30/03/2026 18:11

Uma sequência de falhas na assistência a passageiros com deficiência transformou uma viagem de rotina em um episódio de frustração e prejuízo. A jornalista Sara Santos Pacini e o marido, Lucas Pacini, ambos pessoas com deficiência, sendo ele com mobilidade reduzida, perderam a conexão aérea e chegaram atrasados ao casamento de uma familiar depois de uma hora de espera dentro da aeronave no aeroporto de Guarulhos (SP).

RESUMO

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Um casal com deficiência perdeu a conexão aérea em Guarulhos e chegou atrasado ao casamento de uma familiar após esperar uma hora dentro da aeronave pelo ambulift. A jornalista Sara Pacini e o marido Lucas, médico com mobilidade reduzida, tiveram ainda a bagagem extraviada e gastaram R$ 500 em translado. O casal pretende processar a companhia aérea por violação de direitos fundamentais.

O casal saiu de Porto Alegre (RS) às 5h da manhã do sábado (28), com destino a Cascavel (PR), onde participaria do casamento da prima de Lucas, marcado para às 16h. A viagem previa uma conexão de uma hora em Guarulhos, tempo considerado suficiente, segundo Sara. De acordo com a jornalista, o embarque em Porto Alegre ocorreu sem problemas.

Dentro do avião - A dificuldade começou após o pouso em Guarulhos (SP). O casal permaneceu uma hora dentro da aeronave aguardando o chamado “ambulift”, equipamento semelhante a um elevador utilizado para o desembarque seguro de passageiros com deficiência quando a saída não é feita por ponte. Os funcionários teriam informado ao casal que o aeroporto teria apenas dois equipamentos deste tipo, apesar de ser o maior da América do Sul.

“Ficamos sozinhos dentro do avião, preocupados com a conexão, e nada do ambulift chegar”, relatou Sara. Quando o equipamento finalmente foi disponibilizado, já não havia tempo, pois os funcionários informaram, ainda dentro do elevador, que o embarque para o voo a Cascavel havia sido encerrado.

Descaso - Lucas Pacini, médico residente em Psiquiatria, afirmou que a situação gerou sentimento de humilhação e impotência. “Eles disseram que tínhamos que aguardar, mesmo sabendo que o tempo para o próximo embarque estava correndo”, contou. Segundo ele, não houve tentativa de comunicação para evitar a perda da conexão. “Falaram não tinha como comunicar com a outra aeronave para pedir para aguardar”, acrescentou.

Sem solução imediata, o casal afirma ter sido deixado sozinho no aeroporto. “Explicamos a situação várias vezes para pelo menos cinco pessoas diferentes, mas ninguém assumia responsabilidade. Um jogava a culpa no outro”, disse a jornalista. Lucas também relatou descaso no atendimento. “Depois que descemos, o funcionário disse que não tinha o que fazer e que o voo seria só no dia seguinte. Quando liguei para o 190, ele arrumou outro voo em cerca de 10 minutos. Foi um total despreparo e falta de resolutividade”, afirmou.

Bagagem - Além da perda do voo, o casal enfrentou problemas com a bagagem, que continha as roupas para o casamento. A informação inicial era de que as malas já estariam em Cascavel, mas os funcionários se negaram a apresentar uma comprovação. Para não perder totalmente o compromisso, os dois decidiram sugerir o embarque para Foz do Iguaçu (PR) e seguir por terra até Cascavel. Segundo Sara, a empresa se recusou a arcar com as despesas do translado, e o casal teve que pagar R$ 500 em deslocamento.

Ao chegar ao destino, no entanto, foram até o aeroporto em busca da bagagem, mas as malas não tinham chegado. Já eram 16h, horário da cerimônia. Sem as roupas, o casal contou com ajuda da família, que comprou vestimentas de última hora. Ainda assim, perderam a cerimônia e participaram apenas da festa.

Falta de acessibilidade faz casal perder voo e bagagem após conexão em Guarulhos
O médico Lucas Pacini aguarda equipamento para desembarcar (Foto: Sara Pacini)

Somente no domingo (30) veio a confirmação de que a bagagem nunca havia saído de Guarulhos. “Nunca fui tão desrespeitada como pessoa com deficiência. Foi a situação mais incapacitante e revoltante que já vivi”, afirmou Sara.

Falta de acessibilidade - Lucas disse que episódios semelhantes já ocorreram em outras viagens. “Não foi a primeira vez que tivemos constrangimentos. Já ficamos esperando ambulift em outras ocasiões, mas deu tempo de embarcar. É algo recorrente e mostra que as empresas não fornecem estrutura adequada nem buscam melhorias”, declarou.

Sara relata que viaja de avião ao menos uma vez por mês e já enfrentou outros contratempos, mas nunca um episódio que classificou como “capacitismo e falta de acessibilidade”. A reportagem procurou o Aeroporto de Guarulhos e a empresa Latam e mantém o espaço aberto ao posicionamento.

Direitos Fundamentais - O casal informou que pretende entrar com ação judicial contra a empresa responsável pela conexão perdida. A advogada deles Paula Teodoro Queiroz Souza, também cadeirante, avaliou que o episódio vai além de um simples transtorno decorrente de atraso ou perda de conexão e, em tese, evidencia falha na prestação do serviço com possível violação de direitos fundamentais da pessoa com deficiência.

Segundo ela, a ausência de condições adequadas de acessibilidade no desembarque expôs os passageiros a constrangimento e a uma situação incompatível com a dignidade que deve orientar o atendimento a pessoas em condição de vulnerabilidade. Para a advogada, o caso pode ser interpretado como discriminação indireta, já que a falta de estrutura e assistência teria causado prejuízo específico às pessoas com deficiência, impedindo o exercício do direito de locomoção em igualdade de condições.

A defensora também destacou que a legislação brasileira prevê tratamento prioritário, acessível e digno, conforme o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Pessoa com Deficiência e normas da aviação civil. De acordo com Paula, a eventual inobservância dessas diretrizes pode gerar responsabilização civil, que, nesse caso, seria solidária entre a companhia aérea e o aeroporto, por integrarem a cadeia de prestação do serviço e terem o dever conjunto de garantir acessibilidade, segurança e assistência adequada.

Procurada pela reportagem, a Latam informa que apura o ocorrido e mais detalhes serão apresentados posteriormente..

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