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Cidades

Falta de máscaras cria rede de produção voluntária que une servidores e presídio

Por Maristela Brunetto | 04/04/2020 07:15
Servidores voluntários e Associação de Capacitação e Instrução de Economia Solidarias do Povo estão produzindo máscaras no auditório da sede do Procon. (Foto: Divulgação)
Servidores voluntários e Associação de Capacitação e Instrução de Economia Solidarias do Povo estão produzindo máscaras no auditório da sede do Procon. (Foto: Divulgação)

A emergência mundial desencadeada pela pandemia do coronavírus fez serviços públicos e privados correrem atrás dos mesmos materiais e insumos para a rede hospitalar. E a situação demonstrou um erro de estratégica motivada por interesses econômicos que agora prejudica a todos: a concentração da produção desses materiais na China, o primeiro país a enfrentar a Covid-19.

Isso por si só já prejudicava a produção e reposição de estoques, mas nessa semana se revelou uma disputa típica de tempos de guerra, aquela em que quem tem mais dinheiro leva vantagem. Os Estados Unidos enviaram mais de 20 aeronaves cargueiras e atravessaram compras de outros países para assegurar a compra de respiradores, medicamentos, equipamentos de proteção para profissionais de saúde e outros insumos.

Presos do Segurança Máxima també m estão produzindo as máscaras. (foto: Divulgação)
Presos do Segurança Máxima també m estão produzindo as máscaras. (foto: Divulgação)

Solidariedade - Se por um lado há preocupação, em outro sentido se avolumam as iniciativas solidárias, avalia o secretário de Saúde Geraldo Rezende. Ele comenta que chega a emocionar e cita o trabalho de presos na produção de máscaras com material doado por uma empresa do setor têxtil, além de água sanitária e sabão líquido. Diz que a iniciativa inspirou outros estados a adotá-la.

Rezende conta que há uma rede de apoio, que doa de macacões a fraldas e óculos para entregar aos hospitais. De Dourados, produtores doaram 50 termômetros para uso em barreiras sanitárias. Energisa e Senai se uniram para ajudar no transporte e conserto de respiradores que apresentarem problemas. Setenta já começariam a ser reparados.

Conforme o relato do secretário, foram procuradas clínicas de cirurgia plástica, até hospitais veterinários, para identificar quais poderiam ajudar cedendo seus respiradores. Em municípios do interior, associações se organizaram para ajudar na produção de máscaras. Além disso, a Secretaria procurou conselhos de classe da área da saúde para que pedissem aos profissionais que contribuíssem com materiais disponíveis.

Ele explica, também, que há empresários fazendo gestões por conta própria para adquirir e doar mais máscaras para equipes dos hospitais. E aproveita para convocar mais empresários a contribuir, explicando que as empresas podem conseguir melhores condições de aquisição e a agilidade que a Administração Pública nem sempre detém. Cita empresas do setor da construção civil, processamento de alimentos e de celulose como convidadas a se voluntariar.

Rezende também direciona a cobrança a quem adquiriu máscaras de uso hospitalar, para que as entregue para uso pelos profissionais de saúde envolvidos com o tratamento dos doentes. Esta é uma preocupação permanente, porque estes estão entre os insumos mais demandados em meio à epidemia e essenciais para que os profissionais de saúde não se contaminem.

CRO (Conselho Regional de Odontologia) no Estado) também entrou na rede de doações. (Foto: Divulgação)
CRO (Conselho Regional de Odontologia) no Estado) também entrou na rede de doações. (Foto: Divulgação)

Doações - Em Mato Grosso do Sul, a campanha de pedido de doações existe há semanas. Quando se iniciou a montagem da logística para enfrentar o crescimento exponencial do número de doentes da Covid-19, o Hospital Regional foi o primeiro a dar o alerta de que faltaria material de proteção para médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde. A presidente do CRO (Conselho Regional de Odontologia) no Estado, Silvânia da Silva Silvestre, lembra que muitos ajudaram, mas com a crença de que seria somente para resguardar os estoques até que chegassem os materiais adquiridos nos países asiáticos.

Ela reconhece que agora a questão adquire outra dimensão, dizendo que aguarda as diretrizes da Saúde pública para ver como mobilizar novamente os dentistas. Ela conta que muitos trabalham em postos de saúde, no caso de Campo Grande, e levaram os materiais que podiam dispor de seus consultórios particulares diretamente às unidades, atendendo a uma campanha desencadeada pela Sesau (Secretaria de Saúde de Campo Grande).

Segundo ela, muitos profissionais compraram TNT, o chamado tecido não tecido, e encomendaram a confecções as máscaras para doação. Outros doaram máscaras de pano, para uso hospitalar em combinação com os protetores faciais. Silvânia explica que na campanha inicial, não houve solicitação de aventais, o que pode ser alvo nesse momento.

Em Três Lagoas, ela relata que uma profissional dispõe de uma máquina 3D, obteve doação de matéria prima e, junto com outros dentistas, produziram mais de 200 máscaras acrílicas, que têm a vantagem de maior durabilidade, enquanto as demais são descartáveis.

Por outro lado, ela explica que a disparada de preços e o temor da falta pode fazer com que  muitos profissionais temam entregar o que dispõem para seu uso e depois não poderem atender seus pacientes em urgências ou mesmo quando retomarem o ritmo, após a passagem do período de isolamento.

A Prefeitura de Campo Grande lançou mais de uma frente para buscar voluntários. Primeiro, uma campanha chamada Gente Ajuda Gente tentou sensibilizar as pessoas para a doação de materiais à rede de saúde do município. Um vídeo com médicos apontando a necessidade foi produzido.

Nesta quinta, o reforço foi para a área social, com uma nova frente, chamada Eu Ajudo, ampliando os locais de recebimento e também a coleta de alimentos para famílias pobres.

Serviço - Quem tiver interesse em contribuir com materiais para os hospitais, em Campo Grande ou no interior, pode entregar no Corpo de Bombeiros (fone 3311.6262), ou ainda procurar unidades de saúde para a entrega. Já a ação para recolhimento de alimentos tem quatro pontos de coleta (informações pelo email euajudo@campogrande.ms.gov.br e no site da prefeitura campogrande.ms.gov.br).