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Cidades

Investigação mostra que advogado buscou apoio do PCC para retomar jogo do bicho

Rhiad Abdulahad manteve diálogos diretos com lideranças da facção, segundo denúncia do Gaeco

Por Lucia Morel | 09/01/2026 08:25
Investigação mostra que advogado buscou apoio do PCC para retomar jogo do bicho
O advogado Rhiad Abdulahad, que antes de ser alvo, fazia a defesa de seu pai. (Foto: Redes sociais)

Relatórios de dados extraídos de celular apreendido pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) e anexados à denúncia da 4ª fase da Operação Successione indicam que o advogado Rhiad Abdulahad manteve diálogos diretos com integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) com o objetivo de buscar apoio para retomar o controle da banca do jogo do bicho conhecida como “Gato Preto”, que atua no Paraguai.

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O advogado Rhiad Abdulahad manteve diálogos com lideranças do PCC para retomar o controle do jogo do bicho no Paraguai, conforme revelam interceptações telefônicas do Gaeco. O negócio pertencia anteriormente a seu pai, José Eduardo Abdulahad, que o coordenou entre 1994 e 2014, quando foi retirado por ordem de Fahd Jamil. Nas conversas, ocorridas em dezembro de 2024, Rhiad buscou mediação do PCC alegando legitimidade sobre o negócio e apresentando documentos comprobatórios. O advogado, que foi presidente do diretório municipal do União Brasil em Campo Grande, está preso após ser alvo da 4ª fase da Operação Successione.

Conforme a investigação, o pai dele, José Eduardo Abdulahad, conhecido como “Zeizo”, teria coordenado a banca entre 1994 e 2014, até ser afastado do empreendimento por ordem de Fahd Jamil.

Segundo os relatórios de inteligência citados na denúncia, Rhiad relata a integrantes da facção que seu pai administrava cassinos para Fahd Jamil e que, em 1994, teria recebido a banca “Gato Preto” como forma de pagamento. Ainda de acordo com o material investigativo, o advogado afirma que a situação mudou em 2014, quando o clã Jamil teria retomado o negócio de forma impositiva.

As conversas, conforme descrito pelo Gaeco, estavam armazenadas no celular de Rhiad. Nos diálogos transcritos na denúncia, ele relata aos interlocutores que “o velho pegou de volta sem pagar um real”, em referência a Fahd Jamil, e afirma que o filho do empresário, Flávio Jamil Georges, teria agido com agressividade no episódio.

Em tom de lamento, segundo a transcrição anexada ao processo, Rhiad afirma que o pai foi obrigado a deixar o empreendimento após cerca de 20 anos. Em um dos trechos, diz: “Você imagina a cena, você ter seu empreendimento lá há 20 anos, fazer o nome dele, ter teus funcionários, dar panetone todo final de ano pra toda equipe, e os caras chegam na tua casa lá e ‘vaza’”.

Investigação mostra que advogado buscou apoio do PCC para retomar jogo do bicho
Trecho de conversa entre o advogado e integrante do PCC. (Foto: Reprodução)

De acordo com a denúncia, Rhiad buscou a mediação do PCC utilizando o argumento de que a família possuía legitimidade sobre o negócio. Em outro trecho das conversas, ele afirma aos integrantes da facção que teria “documentos e testemunhas” para comprovar que a banca pertencia ao pai antes da intervenção dos rivais.

Ainda segundo os investigadores, o advogado se apresenta nas gravações como alguém que buscava o que chamou de “dignidade” para Zeizo, afirmando que o objetivo seria apenas “voltar a trabalhar no que era deles”.

As interceptações analisadas pelo Gaeco mostram que, nas conversas ocorridas em dezembro de 2024, integrantes da chamada “Geral” do PCC afirmam que a família Jamil teria “pisado no formigueiro” ao entrar em conflito com a facção.

Um dos interlocutores chega a afirmar que, na fronteira, “ninguém coloca o beiço com nóis não irmão”, mas pondera que seria necessário “ouvir o outro lado” antes de decidir sobre eventual apoio à retomada da banca.

Conforme descrito nos autos, a estratégia debatida nas conversas incluía o uso da força caso a via considerada diplomática não surtisse efeito. Um dos integrantes da facção sugere retirar os atuais gestores da banca “pelo colarinho”, enquanto Rhiad afirma preferir “abrir na boa”.

Ainda segundo o Gaeco, o advogado manteve tom colaborativo e foi orientado a aguardar o momento em que a “poeira baixasse”, já que a região estaria sob maior atenção das forças de segurança.

Investigação mostra que advogado buscou apoio do PCC para retomar jogo do bicho
Rhiad afirma que queria apenas "retomar" o que era de seu pai. (Foto: Reprodução)

Os investigadores relatam que membros da facção alertaram Rhiad de que a fronteira estaria “suja”, em referência à presença ostensiva de agentes de segurança, o que exigiria cautela na execução de qualquer plano. Em resposta, conforme transcrição, o advogado demonstrou confiança na interlocução e encerrou uma das chamadas dizendo: “obrigado meus amigos, obrigado meus amigos, valeu, valeu”.

Na parte final das transcrições, a denúncia descreve o encerramento de uma conversa com duração aproximada de 23 minutos, na qual o interlocutor identificado como “Mandrake” afirma que aguardaria um “resumo” das ações a serem tomadas. Rhiad concorda e finaliza o contato.

Para os investigadores do Gaeco, esses diálogos demonstram que a tentativa de recuperar a banca “Gato Preto” extrapolaria uma disputa comercial familiar, configurando um projeto de expansão apoiado na influência territorial e no braço armado da facção paulista em território paraguaio.

As informações integram o conjunto probatório que fundamenta as denúncias da 4ª fase da Operação Successione. Rhiad Abdulahad, que é advogado e até então atuava na defesa do pai, passou a ser alvo direto da investigação nesta etapa e está entre os presos que ainda não obtiveram liberdade.

Em 2023, Rhiad foi eleito presidente do diretório municipal do União Brasil em Campo Grande e disputou as eleições de 2022 como candidato a deputado estadual pelo mesmo partido.

O Campo Grande News procurou o advogado Rhiad Abdulahad por telefone e mensagem, mas não foi atendido. O espaço segue aberto para a posição dele.

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