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Cidades

Rompeu com a família e sumiu: 90% dos desaparecimentos em MS são voluntários

Mesmo com quase 400 ocorrências por ano, polícia afirma que só uma pequena parcela vira investigação criminal

Por Gabi Cenciarelli | 24/01/2026 10:01
Rompeu com a família e sumiu: 90% dos desaparecimentos em MS são voluntários
Foram registrados 340 desaparecimento, em 2024, em Mato Grosso do Sul. (Foto: Divulgação/Sejusp)

Apesar de Mato Grosso do Sul registrar quase 400 ocorrências de pessoas desaparecidas por ano, a maioria dos casos não envolve crime. Segundo o delegado Rodolfo Daltro, titular da DHPP (Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa), cerca de 90% dos registros dizem respeito a desaparecimentos voluntários, quando a própria pessoa decide se afastar da família ou romper vínculos.

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Cerca de 90% dos registros de desaparecimentos em Mato Grosso do Sul são voluntários, segundo o delegado Rodolfo Daltro, da DHPP. O estado registra aproximadamente 400 casos por ano, mas a maioria não envolve crimes, sendo situações em que as pessoas optam por romper vínculos familiares. Dos casos que demandam investigação policial, apenas 2% a 5% apresentam indícios de homicídio. O tráfico de pessoas, embora preocupante, tem menor incidência em MS comparado a outros estados, fato atribuído à forte presença do agronegócio e maiores oportunidades de emprego na região.

“Somente cerca de 10% dos casos são de pessoas efetivamente desaparecidas, em que a polícia atua para localizar e entender o que aconteceu”, explicou.

Rompeu com a família e sumiu: 90% dos desaparecimentos em MS são voluntários

Dados do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública) mostram que o Estado registrou 354 desaparecimentos em 2023, número que subiu para 391 em 2024 e fechou 2025 com 378 ocorrências. Mesmo com oscilações, o volume anual se mantém elevado.

Ainda assim, segundo o delegado, a maioria absoluta desses registros não se transforma em investigação criminal. Há situações em que a pessoa apenas decide seguir a própria vida, romper vínculos familiares ou mudar de rotina, o que não configura crime.

Rompeu com a família e sumiu: 90% dos desaparecimentos em MS são voluntários
Delegado em entrevista na DHPP (Foto: Gabi Cenciarelli)

Entre os casos classificados como voluntários, há também pessoas que optam conscientemente por não manter contato com a família. “Existe um percentual de pessoas que não quer mais manter vínculo familiar. São pessoas que decidiram seguir a própria vida, e isso não é crime. Acontece muito”, afirmou Daltro.

Segundo ele, muitos registros também estão associados a contextos de uso de álcool e drogas, o que contribui para afastamentos temporários e posterior retorno.

Dentro do grupo menor que exige investigação aprofundada, os casos com indícios de homicídio sem localização do corpo representam uma parcela ainda mais reduzida. De acordo com o delegado, algo entre 2% e 5% dos registros pode envolver mortes violentas.

“É um percentual muito baixo. Os casos em que realmente não se tem nenhuma resposta são raros, e menor ainda é o número de situações em que há indícios concretos de homicídio”, disse.

Tráfico de pessoas 

Quando surgem indícios de tráfico de pessoas, a apuração costuma ser mais trabalhosa do que em outros tipos de desaparecimento. Isso porque, inicialmente, a polícia sempre trabalha com a hipótese de desaparecimento voluntário.

Para avançar nessa linha investigativa, a participação da família é fundamental. “São os relatos de familiares e amigos que muitas vezes trazem informações como propostas de emprego em outros países, contatos prévios e promessas de ganhos financeiros”, explicou o delegado.

Esses elementos permitem à polícia traçar uma linha investigativa mais precisa e reunir indícios sobre o que efetivamente pode ter acontecido com a vítima.

Segundo a DHPP, muitos dos casos de tráfico investigados estão relacionados à prostituição em outros países. Em geral, a pessoa é atraída por promessas de ganhos elevados, mas não revela à família qual atividade pretende exercer, informando apenas que recebeu uma proposta de emprego fora do Brasil.

No curso da investigação, surgem informações de que, ao chegar ao destino, a pessoa se deparou com uma situação de tráfico e não consegue retornar. “É comum a cobrança de passagem aérea, alimentação e outros custos, criando uma dívida que impede o retorno,” relatou Daltro.

Incidência é menor em MS do que em outros estados

Apesar da gravidade, o delegado avalia que Mato Grosso do Sul registra menos casos de tráfico de pessoas do que estados como São Paulo e algumas regiões do Nordeste. Para ele, fatores econômicos ajudam a explicar essa diferença.

“A forte presença do agronegócio e a oferta de empregos acabam reduzindo esse tipo de ocorrência”, disse. No interior do Estado, o surgimento de fábricas e outras atividades econômicas amplia as oportunidades de trabalho e diminui a vulnerabilidade da população, embora ainda existam casos envolvendo promessas de ganhos elevados.

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