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Capivara Criminal

"Cabeça Branca", o verdadeiro "rei da fronteira" que nunca quis título

Luiz Carlos da Rocha, que fez inúmeras plásticas, tinha base sólida no Estado, sem se fixar por aqui

Por Marta Ferreira | 02/05/2021 15:30
Luiz Carlos da Rocha em padaria de Sorrito, MT, minutos antes de ser preso, em 2017. (Foto: Reprodução de vídeo)
Luiz Carlos da Rocha em padaria de Sorrito, MT, minutos antes de ser preso, em 2017. (Foto: Reprodução de vídeo)

Luiz Carlos da Rocha, 61 anos, não era de ostentar riqueza, nem de cultivar relações de poder em público. Passou décadas nas sombras, se transmutando em rostos modificados pelas plásticas, até “cair”, em 2017, graças a operação da Polícia Federal. O nome dado à força-tarefa foi “Spectrum”, fantasma em latim, algo que diz muito sobre o alvo.

 “Cabeça Branca”, alcunha relacionada à cor dos cabelos desde a juventude, agora é descrito como o “maior traficante” da América do Sul, “capo do narcotráfico”, "broker" (negociador, corretor do tráfico),  entre outros adjetivos superlativos, capazes de traduzir um "supercriminoso". Mas durante três décadas, uma vida portanto, foi capaz de agir vendendo cocaína em grande escala, no Brasil e no exterior, sem que sequer seu rosto fosse conhecido.

Sua personalidade e jeito de “trabalhar”, no submundo,  permitiu a outros homens do crime ganharem título de “reis” na fronteira. Pela magnitude de suas ações, na prática, esse status caberia a ele. Sem aparecer, chefiava a negociação e transporte de drogas e o que fosse preciso para garantir o esquema, inclusive usar de violência extrema.

Sim, se existiu realeza nos crimes transnacionais no Brasil nas últimas décadas, ela foi exercida por Luiz Carlos da Rocha. Seus contatos envolviam da máfia russa à "Ndrangheta”, da Calábria, na Itália.

Retratado em livro recém-chegado ao mercado, sob assinatura do jornalista Allan de Abreu, “Cabeça Branca” manteve sólida base na conflagrada região fronteiriça de Mato Grosso do Sul com o Paraguai,  teve sócios, ou melhor comparsas, por ali,  sem nunca se estabelecer fisicamente. Não o interessava.

As muitas faces de "Cabeça Branca" ilustram o livro de Allan de Abreu. (Foto: Reprodução)
As muitas faces de "Cabeça Branca" ilustram o livro de Allan de Abreu. (Foto: Reprodução)

Três anos de trabalho - Depois dedicar-se a cavoucar os detalhes da operação realizada pela PF para conseguir prender “Cabeça Branca”, e por conseguinte reunir pormenores sobre o “broker” do tráfico, o repórter investigativo explica porquê.

Mato Grosso do Sul sempre esteve no centro da carreira criminosa de Cabeça Branca, desde o contrabando de café para o Paraguai, nos anos 80”, cita.

"Posteriormente, já no tráfico de cocaína, ele manteve uma importante base de negócios em Ponta Porã, incluindo o período em que foi sócio de Jorge Rafaat, no início dos anos 2000”, prossegue.

“Diferentemente de Rafaat e Fahd Jamil, “Cabeça Branca” nunca ambicionou o controle do crime na fronteira, porque isso exigiria dele uma presença ostensiva na região, e ele sempre preferiu as sombras”, analisa Allan de Abreu, ao relacionar dois nomes de peso regionalmente.

O escritor, embora seja nascido em São José do Rio Preto, em São Paulo, tem experiência com a realidade da marginalidade sul-mato-grossense. Foi repórter em Campo Grande, entre 2005 e 2006, quando percebeu a fartura de assuntos na área por aqui.

Em 2017, lançou "Rota Caipira", sobre pontos estratégicos na rota do narcotráfico internacional, quando dedicou um capítulo a "Cabeça Branca".

Na obra recente, esmiuçou a vida do "capo", como define em alguns trechos da publicação, na qual personagens bem conhecidos em Mato Grosso do Sul são explorados, ainda que tangencialmente, entre eles Rafaat e Fahd Jamil Georges.

Fahd, 79 anos, como se sabe, está preso em Campo Grande desde 19 de abril, depois de ficar quase um ano escondido, possivelmente “bem perto” do Brasil, do lado de lá da fronteira, como a Capivara Criminal levantou.

Chamado de “Rei da Fronteira”, “Padrinho”, e outros nomes indicadores de influência em seu entorno, é dono de mansão famosa por ser réplica de “Graceland”, a casa de Elvis Presley nos Estados Unidos. Também estabeleceu relações duradouras com políticos, brasileiros e paraguaios, em toda sua trajetória.

Fahd teve proximidade com o pai de “Cabeça Branca”, Paulo Bernardo Rocha, paranaense que atuou no contrabando de café, curiosamente a origem de muitos dos barões do tráfico, como apresenta ao Brasil o livro de Allan de Abreu.

Contrabandear café ao Paraguai havia sido o único motivo de prisão de Fahd Jamil até 2021. O episódio ocorreu no ano de 1980, no Panará, a terra original de Luiz Carlos da Rocha e de toda sua família, que é de Londrina. A cidade é a mesma onde ficou sediada a equipe da Polícia Federal responsável por identificar visualmente o criminoso e por sua captura.

Na cadeia há poucos dias - “Fuad” está atrás das grades desde 19 de abril deste ano por causa da operação Omertà, sob acusação de liderar organização criminosa especializada em eliminar inimigos para seguir explorando ilegalidades. O tráfico de drogas não está entre elas.

 As condenações do campo-grandense radicado em Ponta Porã por comercializar droga e lavar dinheiro desse tipo de crime foram anuladas judicialmente. A acusação, derrubada em tribunais superiores, indicou uso de dinheiro do tráfico de drogas e da sonegação fiscal para compra de 199 imóveis urbanos, uma fazenda de 180 hectares e cotas do capital de quatro empresas, entre outros bens.

 Quando figurou como condenado, ficou meia década abrigado no Paraguai, praticamente sem ser incomodado.  Só voltou ao Brasil depois de invalidar as condenações. Até hoje, embora esteja sendo acusado de crimes, é réu primário.

Sucessor - Jorge Rafaat teria assumido justamente o espaço deixado, tornando-se temido chefe dos negócios ilegais. O outro “rei" da fronteira foi metralhado de forma cinematográfica em 16 de junho de 2016, quando o jipe Hammer onde estava parou no semáforo no Centro de Pedro Juan Caballero. Tinha 56 anos.

Deixou para trás histórias de poder e violência, ilustradas pelas alcunhas de “Rei do Tráfico” e “Sadam”, em alusão ao ditador iraquiano. Uma de suas memórias envolve ataque a tiros a dois policiais federais em pleno Shopping China, meca das compras da classe média local.

Chegou a ficar no cárcere em Campo Grande. Nessa época, começo dos anos 2000, o livro “Cabeça Branca” conta episódio envolvendo Luiz Carlos da Rocha e Jorge Rafaat.

O monitoramento da PF para tentar pegar Luiz Carlos identificou visita dele a Rafaat no complexo penal da saída para Três Lagoas em Campo Grande. A descrição é de entrada do paranaense com uma sacola cheia de papéis e a saída sem ela.

Ali, acreditam as fontes do jornalista da revista Piauí, fechou-se negociação de cocaína.

"Cabeça Branca" estava de cabelos escuros quando foi preso. (Foto: Divulgação)
"Cabeça Branca" estava de cabelos escuros quando foi preso. (Foto: Divulgação)

A cumprir  - O “Rei do Tráfico” e “Cabeça Branca” foram réus na mesma ação em Mato Grosso do Sul, ainda em trâmite judicial. Ela se refere a duas interceptações de cocaína que superavam 900 toneladas de droga, ocorridas em 2005, em aeronaves do grupo criminoso.

O caso foi sentenciado só em abril de 2014, pelo então titular da 3ª Vara Criminal da Justiça Federal em Campo Grande, especializada em lavagem de dinheiro, Odilon de Oliveira, atualmente aposentado.

As defesas recorreram, o TRF 3 (Tribunal Regional Federal) da 3ª Região, sediado em São Paulo, mudou parcialmente a condenação, em agosto de 2016, declarando a extinção da punibilidade para Rafaat, morto meses antes, e ao piloto Eduardo Charbel, pois o prazo havia prescrito.

Nesse processo, Luiz Carlos da Rocha foi condenado a 34 anos de reclusão. Não começou a cumprir ainda essa pena da Justiça Federal em Mato Grosso do Sul. Certificado anexado no fim de março ao processo aponta que ainda não transitou em julgado a decisão.

Um outro réu no caso, Nélio Alves de Oliveira, de 70 anos, voltou a ser preso em dezembro do ano passado, com uma carga de meia tonelada de cocaína transportada em avião monomotor. Ele havia sido em decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

O avião com a mercadoria ilegal de alto valor foi abatido pela Força Aérea Brasileira, em 2 de agosto de 2020.

Nélio foi vice-prefeito de Ponta Porã, em 1998, quando o prefeito era Carlos Fróes, já falecido. Antes disso, foi vereador entre 1981 e 1983.

Avião no meio da pista - Nos muitos episódios contados em “Cabeça Branca”, Nélio é personagem de cena que impressiona o leitor. Um Cessna pilotado por ele fez pouso forçado em plena BR-262, perto de Campo Grande, em julho de 2003.

Apesar de carreta atropelar o avião, a sorte colaborou. Apenas uma das asas foi atingida e o piloto foi levado bem para o hospital, pelos bombeiros.

Para a Polícia Federal, o fato serviu de comprovação da ligação com Luiz Carlos da Rocha. A aeronave, em nome de Nélio, havia sido ligada a “Cabeça Branca” durante as investigações.

A carreira de disfarces e liberdade do autêntico “Rei da Fronteira” acabou em 1º de julho de 2017, quando ele foi localizado em Sorriso (MT), vivendo como  Vitor Luis de Moraes. Foi capturado quando desceu de veículo Santa Fé branco para ir à padaria.

Tem mais de cem anos a cumprir de prisão e, desde 2017, passa temporadas em prisões federais, entre elas a de Mossoró, onde Fahd Jamil  está desde setembro de 2019.

As autoridades brasileiras e paraguaias estão negociando, no momento, acordo de cooperação internacional para expropriação das fazendas do narcotraficante.

(*) Marta Ferreira, que assina a coluna “Capivara Criminal”, é jornalista formada pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), chefe de reportagem no Campo Grande News. Esse espaço semanal divulga informações sobre investigações criminais, seus personagens principais, e seu andamento na Justiça.

Participe: Se você tem alguma sugestão de história a ser contada, mande para o e-mail marta.ferreira@news.com.br. Você também pode entrar em contato pelo WhatsApp, no Canal Direto das Ruas, no número  67 99669-9563.

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