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11/10/2017 11:41

"Outra noite de angústias vai aparecer e o tempo vai acabar no meio do nada"

Mesmo com curso superior ou técnico, haitianos têm problemas no mercado de trabalho

Osvaldo Júnior
Haitianos se reuniram para atender a reportagem (Foto: André Bittar)Haitianos se reuniram para atender a reportagem (Foto: André Bittar)
Outra noite de angústias vai aparecer e o tempo vai acabar no meio do nada

Entre a capacidade profissional dos haitianos e o mercado de trabalho brasileiro, há um muro de preconceitos. Esse foi um dos problemas discutidos em entrevista de grupo, realizada na tarde do dia 17 do mês passado, um domingo, em uma sala da Missão Salesiana, em Três Lagoas.

Os haitianos falaram com carinho do Brasil e reconheceram a contribuição dos brasileiros na reconstrução de suas vidas e de suas famílias. Mas isso não apaga os problemas no mercado de trabalho, decorrentes de preconceitos e agravados pela crise econômica nacional.

O local da entrevista ficou pequeno não apenas pela quantidade de haitianos – 37 ao todo –, mas também pela grandeza dos dramas relatados. O recado comum, manifesto nas falas e semblantes, era: “somos mais capazes do que imaginam”.

Havia, só naquele grupo, sociólogo, professor, engenheiro civil, técnico de informática, músico, entre outros profissionais. No Brasil, todos eles exercem atividades braçais. “O problema não está no que trabalhamos, mas sim no fato das pessoas acharem que não somos capazes de fazer outras coisas”, comentou Júnior Justi, 30 anos, coordenador da associação que dá os primeiros passos.

Já me perguntaram se lá no Haiti tem comida, diz Jean sobre as ideias equivocadas quanto ao Haiti (Foto: André Bittar)"Já me perguntaram se lá no Haiti tem comida", diz Jean sobre as ideias equivocadas quanto ao Haiti (Foto: André Bittar)

Preconceito e discriminação – Na representação social brasileira, os haitianos reúnem estereótipos historicamente atribuídos a negros, a pobres e, de modo associado, a negros de país pobre. “Já me perguntaram se lá no Haiti existe arroz, feijão, se tem alguma comida”, exemplificou Jean Cliford, 31 anos.

A miopia do preconceito também faz enxergar negros estrangeiros apenas no continente africano. “Muitos perguntam se o Haiti fica na África. Esse é outro problema: a falta de informação”, disse Júnior Justi.

O preconceito ganha corpo de discriminação em diversas situações do cotidiano, como no mercado de trabalho. Entre os problemas está a diferença salarial de haitiano e brasileiro no exercício da mesma função.

Myrlyonord trabalha como pedreiro, mas recebe salário de ajudante (Foto: André Bittar)Myrlyonord trabalha como pedreiro, mas recebe salário de ajudante (Foto: André Bittar)

É o caso, por exemplo, de Myrlyonord Compere, 31 anos. “Trabalho de pedreiro, mas recebo salário de ajudante”, contou. Embora trabalhe na construção, Myrlyonord é técnico de informática.

Outra forma de discriminação ocorre na seleção para o emprego. Jean contou que um amigo haitiano, que concorria a vaga de operador de empilhadeira, atividade que já exercia no Haiti, foi preterido a um brasileiro, mesmo sendo elogiado pelo examinador durante o teste. “Disseram que não chamaram ele por causa do idioma, mas isso não ia ser problema naquela função”, comentou Jean.

Participante da entrevista; mulheres sofrem ainda mais com os preconceitos (Foto: André Bittar) Participante da entrevista; mulheres sofrem ainda mais com os preconceitos (Foto: André Bittar)

Crise – Assim como milhões de brasileiros, os haitianos que moram no Brasil também foram impactados pela crise econômica nacional, intensificada desde 2015.

Rápida sondagem, no início da reunião, ajuda a dimensionar a gravidade do problema. No momento em que havia 29 pessoas – alguns chegaram depois de iniciada a entrevista – foi perguntado: “quem aqui está desempregado?”. Como resposta, 19 haitianos ergueram as mãos. Isso representa, nessa pequena amostragem, parcela de 65%, índice que não estaria distante da realidade, conforme disseram.

No meio do nada – Preconceito, salários baixos, desemprego. Tudo parece apontar para o mesmo fim: o nada. Os projetos de reconstrução da vida se desmantelam em um grande nada. Mas isso é apenas parte da rota.

Haitianos em Três Lagoas, como em todo o País, enfrentam problemas no mercado de trabalho, agravados pela crise (Foto: André Bittar)Haitianos em Três Lagoas, como em todo o País, enfrentam problemas no mercado de trabalho, agravados pela crise (Foto: André Bittar)

“Os haitianos querem se sentir incluídos”, diz agente de pastoral

Entre as entidades diversas que realizam ações para a melhoria das condições de vida dos haitianos, está a Pastoral dos Imigrantes da Diocese de Três Lagoas.

O agente dessa pastoral, Mieceslau Kudlavicz, comenta sobre problemas e reivindicações dos haitianos. O que eles buscam, de modo geral, conforme Kudlavicz, é a inclusão na sociedade brasileira e espaços para divulgar sua cultura.

Segue a entrevista:

CG News – Por que os haitianos, de modo geral, não conseguem empregos melhor remunerados apesar de suas qualificações?

Kudlavicz – Na nossa avaliação, isso ocorre, principalmente, por causa da discriminação e da falta de validação pelo estado brasileiro dos diplomas adquiridos no Haiti.

Outro problema é que as empresas, mesmo sabendo da necessidade dos haitianos de encontrar trabalho e obter renda para sustentar a si e a sua família que ficou no Haiti, oferecem salários mais baixos quando comparados ao que recebem os brasileiros na mesma função.

Também há o fator da língua. A maioria dos haitianos tem dificuldade de falar o Português e os empresários não querem gastar tempo com orientações para a função que o haitiano iria exercer. Desta forma, são empregados em setores de serviços gerais, com salários menores.

CG News – Qual a situação específica das mulheres no mercado de trabalho?

Kudlavicz – As mulheres haitianas têm muito mais dificuldade em encontrar trabalho do que os homens. Quando conseguem emprego, trabalham, de modo geral, na área de serviços domésticos. Mesmo assim encontram dificuldade por não conhecerem os produtos e não conseguirem ler os rótulos.

CG News – Qual a papel da religião na vinda dos haitianos ao Brasil e no dia a dia deles no País?

Kudlavicz – Não temos informação se houve alguma influência religiosa na vinda deles ao Brasil. Mas há um número muito significativo que congrega nas igrejas evangélicas. Inclusive em Três Lagoas tem uma igreja que é somente para os haitianos. Lá, eles realizam os cultos em francês ou creole. Muitos outros congregam na Igreja Adventista do Sétimo Dia.

CG News – Quais os desejos, as reivindicações, dos haitianos que moram em Três Lagoas?

Kudlavicz – Além desta questão primordial do emprego e renda, a comunidade haitiana vivendo em Três Lagoas quer se sentir incluída, de fato e de direito, na nossa sociedade, como cidadãos plenos de direitos e deveres que são.

Desta forma, reivindicam poder continuar os estudos interrompidos no Haiti, principalmente nas universidades públicas do Brasil ou de frequentar curso técnico profissionalizante gratuito.

Outra reivindicação sempre presente é a de que possam ter, principalmente por parte do poder público, espaços e condições materiais e de infraestrutura para divulgar a cultura haitiana, em todos os seus aspectos, servindo de legítimo instrumento para sua inclusão, reconhecimento e valorização.

Uma informação muito preocupante se refere ao número muito significativo de haitianos que nos procuram na Pastoral para pedir alimentos e roupas. Isso reflete, e muito, a realidade de grande parte dos haitianos em Três Lagoas.

(Para ler a próxima matéria, clique aqui)

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