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Campo Grande, Terça-feira, 23 de Abril de 2019

07/03/2019 06:23

“Corpos sem nome” ou abandonados pela família lotam salas do Imol

Corpos ficam armazenados na câmara fria e assim como o caso de Lourival, entraves judiciais os deixam há meses sem poderem ser enterrados

Izabela Sanchez
A câmara fria onde ficam os corpos armazenados no Imol (Foto: Marina Pacheco)A câmara fria onde ficam os corpos armazenados no Imol (Foto: Marina Pacheco)

“A capacidade da câmara fria é em torno de 24. A situação já está beirando os 40, com 10 não identificados”. Assim resume o diretor do Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) Carlos Idelmar de Campos Barbosa, sobre a situação dos corpos armazenados no Instituto.

O diretor trabalha cercado de papeis na mesa, registros de liberação de corpos que um dia foram pessoas, tiveram famílias e memórias. No Imol, no entanto, acumulam-se no espaço restrito, congelados em temperatura que variam de -5 a -10 graus. Dos cerca de 40, muitos ali estão porque ultrapassaram o tempo para que as famílias viessem buscá-los, ou porque não têm nenhuma identificação, caso de 10 corpos dessa lista. Alguns estão há meses, outros há um ano.

Mas um, em específico, chamou a atenção do Instituto e, depois do caso circular em rede nacional, de todo o Brasil. Trata-se de Lourival, armazenado na câmara fria desde outubro de 2018, porque descobriu-se ter corpo de mulher. Lourival Bezerra Sá faleceu aos 78 anos em Campo Grande em decorrência de um infarto e assim descobriu-se uma diferença de gênero, já que viveu como homem por boa parte da vida.

O impasse é que ninguém sabe o nome de registro de Lourival e dessa forma, não pode ser enterrado. Agora, a Defensoria Pública entrou no caso e ajuizou o pedido de sepultamento do corpo com a identidade masculina.

É o caso que chama a atenção do diretor do Imol sobre “histórias emblemáticas” dos corpos na câmara fria. “História emblemática é essa mesmo, do cara que passou a vida toda falando que era homem e no fim era mulher”, diz.

Por ali também já ficaram, por muito tempo, as ossadas das vítimas de “Nando”, encontradas no “cemitério” clandestino do Danúbio Azul. Graças a uma força-tarefa de identificação, nenhuma vítima repousa, hoje, no Instituto.

Diretor do Imol, Carlos Idelmar (Foto: Marina Pacheco)Diretor do Imol, Carlos Idelmar (Foto: Marina Pacheco)

Carlos explica a situação dos corpos congelados. “São corpos, por exemplo, que foram identificados, mas que a Justiça não liberou ainda, porque o processo não terminou e a Justiça entende que precisa do corpo aqui porque se precisar de alguma prova, posteriormente, o corpo está intacto porque está congelado”.

“Então a gente tem esse problema. Nós estamos procurando o juiz, a Justiça, para poder liberar a inumação, que é o enterro desses corpos, para diminuir essa quantidade que está na câmara fria, porque está começando realmente a ficar lotado. Como eu disse, tem perto de 40 corpos lá, então daqui a pouco não cabe mais”, explica.

O Imol guarda corpos sem vida, mas isso não implica que o local não seja dinâmico. Por ali o movimento é diário e por isso há urgência no enterro dos corpos: liberar espaço para os que chegam.

“A dificuldade que temos é o espaço, o espaço é finito, é uma câmara fria”, explica Carlos.

Atrás dessa porta é onde ficam os corpos (Foto: Marina Pacheco)Atrás dessa porta é onde ficam os corpos (Foto: Marina Pacheco)

Os corpos com nome demoram a sair da câmara fria por diversos motivos. Muitos escondem um histórico de abandono familiar, na maioria das vezes por envolvimento com drogas e, já deixados de lado pela família em vida, na morte também não são lembrados. E ali ficam, até que o Imol consiga o enterro.

“É muito comum o pessoal envolvido com drogas que a família vai rejeitando. Ou está esperando exame chegar para liberar o corpo, um exame de laboratório, às vezes está identificado e a família não assume o corpo. Nós damos um prazo para fazer a inumação, 30 dias. Se a família não vem buscar, providenciamos o enterro através da Prefeitura.”, afirma o diretor.

Os corpos sem nome são outro problema. O que há mais tempo repousa congelado na câmara está armazenado desde abril de 2018. “Os não identificados não sabemos quem é, nós damos um prazo, deixamos guardado uma amostra pra DNA, fotografia do corpo, várias maneiras de identificação e nós vamos providenciar essa inumação, só que isso dá mais trabalho, porque tem que levar ao juiz, o juiz tem que autorizar essa inumação”, explica.

Câmara fria no Imol (Foto: Marina Pacheco)Câmara fria no Imol (Foto: Marina Pacheco)

Não é atribuição do Imol – O diretor destaca, ainda assim, que identificar os corpos não é atribuição do Imol. As investigações policiais e o Instituto de Identificação é que devem fazer esse trabalho.

“A competência do IML é determinar a causa da morte. Essa investigação da identidade não é nossa. Acionamos o instituto de identificação, eles fazem coleta de digital, podem pegar DNA - através do IALF - e levar para fazer o cruzamento de dados, fazem um banco de DNA e nos informam de quem é esse corpo”, comenta.

Na câmara fria, o cenário lembra os filmes e séries de investigação policial: em meio ao cheiro forte, chão e paredes brancas, uma câmara onde repousam os corpos congelados e mesas de metal, onde são manipulados, no meio do cômodo.

“Sem ocupar muito espaço”, outra história de um dos corpos chama a atenção: um bebê que foi vítima de aborto, cujo corpo está armazenado desde junho de 2018. Novamente, a burocracia impede o enterro. O pequeno corpo precisa de certidão de nascimento antes que a certidão de óbito possa ser emitida.

 



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