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Assoreamento, poluição e poucas iniciativas condenam lagos à extinção

No Dia Mundial da Água, riscos ambientais definem cenário alarmante para reservatórios públicos da capital.

Por Anahi Gurgel | 22/03/2017 07:58
Capivaras se alimentam nas margens do Lago do Amor.  Bancos de areia invadem a água e revelam o avançado estado de assoreamento. (Foto: André Bittar)
Capivaras se alimentam nas margens do Lago do Amor. Bancos de areia invadem a água e revelam o avançado estado de assoreamento. (Foto: André Bittar)

Construções desenfreadas, falta de escoamento da água da chuva e avançado processo de erosão estão colocando na guilhotina alguns dos mais tradicionais pontos de lazer e turismo de Campo Grande. Destinados à proporcionar melhor qualidade de vida, os poucos lagos e lagoas localizados em áreas públicas do município estão cada vez mais ameaçados pela poluição e assoreamento.

Escolha certa como passeio para quem vive nas proximidades da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), o Lago do Amor, que já teve o formato de um coração, está prestes à perder o seu. Com a crescente e desplanejada urbanização do entorno, bem como a inexistência de estruturas para drenagem das águas pluviais, em pouco mais de 20 anos o lago poderá não mais existir.

Em pleno Dia Mundial da Água, as previsões são tão assustadoras quanto reais. Foram dadas a partir de um levantamento batimétrico, que é a medição da profundidade de rios e oceanos, e da análise multitemporal, que vem quantificando a evolução de área de volume do lago ao longo de 9 anos.

"Nesse período, seu volume diminuiu 58,5 mil m² por processo de assoreamento, cerca de 30%. A área corresponde a aproximadamente 3 campos de futebol. Considerando a taxa de variação, o reservatório estará completamente cheio de sedimentos no ano de 2038", anuncia o professor doutor Teodorico Alves Sobrinho, integrante do grupo de pesquisa HEroS: Hidrologia, Erosão e Sedimentos, da UFMS, que é a responsável pelo Lago do Amor.

Os estudos foram realizados em agosto de 2008, novembro de 2011, fevereiro e novembro de 2013, outubro de 2014, março de 2016 e março de 2017. A área manteve decréscimo linear de 21%, representando 20,7 mil m² nesse período.

"O local de maior redução das margens é onde desagua o córrego Bandeira, que possui ações de loteamento, muitos terrenos sem cobertura vegetal, implantação de vias urbanas. Percebe-se pouca preocupação com aspectos conservacionistas do solo, inexistência de estruturas de contenção de águas, concessões indevidas de empreendimentos com risco de impacto ambiental", detalha Teodorico.

É possível observar a evolução do assoreamento do Lago do Amor por meio do Google Earth.
É possível observar a evolução do assoreamento do Lago do Amor por meio do Google Earth.

No entorno da área banhada, que foi originada no barramento dos córregos Cabaça e Bandeira, mensalmente ocorre limpeza, quando são retiradas até 2 toneladas de entulho. Segundo Teodorico, essas ações ajudam muito pouco, devido à velocidade com que o assoreamento avança. Um processo ininterrupto, dinâmico e contínuo.

​"A UFMS vem sendo autuada pelos órgãos ambientais de forma injusta. O problema nasce fora dos limites da universidade. Esses impactos podem ser evitados se forem tomadas medidas técnicas preventivas e administrativas. É fundamental a elaboração de planos diretores", alerta.

"Está muito triste ver o lago desse jeito, cheio de areia. Vinha aqui pequena com minha família e vejo a diferença. Pior são as pessoas que jogam lixo no chão, mesmo tendo lixeiras espalhadas", frisa a estudante Natália Almeida, 18 anos, durante passeio no Lago do Amor.

"Vai secar como aconteceu com o lago do Rádio Clube. É um desrespeito com a natureza. Falta de bom senso de todos", define o estudante Marco Antônio da Silva, 17 anos.

Ele tem razão. Não muito distante dali, cerca de 2 km, ao longo do córrego Bandeira, encontramos "morto", quase sem vestígio de que já foi área alagada, o lago do Rádio Clube que, num passado recente, foi cartão postal da cidade. A quantidade de obras na região e falta de planejamento para escoamento da água foram as principais causas da extinção do lago.

"Os grandes alagamentos no período chuvoso e "carreamento" de sedimentos, intensificaram o assoreamento e o lago não resistiu", avalia Teodorico acerca do reservatório, que se transformou numa imensa cratera tomada pelo mato.

Cratera tomada pelo mato na área que já foi o lago do Rádio Clube, "morto" pelo assoreamento. (Foto: Alcides Neto)
Cratera tomada pelo mato na área que já foi o lago do Rádio Clube, "morto" pelo assoreamento. (Foto: Alcides Neto)

Situação preocupante também vem passando os dois lagos do Parque das Nações Indígenas, que integram um complexo de recreação e lazer de 119 hectares. A área do banhado do lago maior, que recebe as águas dos córregos Prosa e Revelleau, possui 43,3 mil m², e encontra-se em avançado processo de assoreamento.

"Constantemente fazemos a retirada de sedimentos das águas. Os trabalhos mais recentes estão concentrados no lago menor, desde outubro de 2016. Tivemos que usar máquinário mais pesado e o volume retirado quadruplicou. Mas é uma medida paliativa. Entra muita areia com a água da chuva. Está difícil, mas não podemos parar. Precisamos esperar a obra da Prefeitura", explica Leonardo Palma, gerente de Unidades de Conservação do Imasul (Instituto de Meio Ambiente).

Ele se refere às obras de canalização das vias da Vila Nascente e região, especialmente na Rua Hiroshima, quase esquina com a Avenida Mato Grosso. "A chuva traz lixo e sedimentos dessas ruas e também das partes altas recém-urbanizadas, como dos condomínios e novas construções no Parque dos Poderes", diz.

"As obras, que incluem a construção de um lago de contenção, estão paralisadas devido ao período chuvoso, mas deverão ser retomadas em abril com previsão de conclusão até o fim do ano", informou o secretário municipal de Infraestrutura, Transporte e Habitação, Rudi Fiorese. 

Lago de contenção em área do Parque das Nações Indígenas. Trabalho de desassoreamento vem sendo realizado diariamente desde outubro de 2016. (Foto: Gelson Walber/ Arquivo)
Lago de contenção em área do Parque das Nações Indígenas. Trabalho de desassoreamento vem sendo realizado diariamente desde outubro de 2016. (Foto: Gelson Walber/ Arquivo)

Exemplo de recuperação - Metade dos mais de 6 bilhões de litros de água que abastecem Campo Grande é proveniente do Guariroba, que atravessa a BR-262 e várias propriedades rurais, na saída para Três Lagoas.

O lago, que acumula a água que abastece a Capital há exatamente 30 anos, já enfrentou sérios problemas ambientais devido à ação do homem, principalmente de pecuaristas, cuja atividade sem regras estava destruindo as nascentes que formam o manancial e a mata ciliar ao redor.

Pressionados pela justiça, Prefeitura e a concessionária Águas Guariroba desenvolveram o programa "Manancial Vivo", em prol da recuperação e da preservação de 36 mil hectares, para permitir a contínua produção de água pela bacia. A iniciativa surgiu em 2010, sendo caracterizada pelo pagamento por serviços ambientais para preservação da Área de Proteção Ambiental do Guariroba. 

"Uma das primeiras etapas do programa foi a elaboração do Plano de Manejo da Bacia do Guariroba, que traçou um diagnóstico ambiental da região e definiu as regras de uso e ocupação do solo", explica Fernando Garayo, coordenador de meio ambiente e qualidade​ da Águas Guariroba.

Represa do córrego Guariroba, na saída para Três Lagoas. (Foto: Divulgação)
Represa do córrego Guariroba, na saída para Três Lagoas. (Foto: Divulgação)
Trabalhador realiza plantio de mudas no entorno do reservatório do córrego Guariroba. (Foto: Divulgação)
Trabalhador realiza plantio de mudas no entorno do reservatório do córrego Guariroba. (Foto: Divulgação)

Para execução do programa, o córrego foi dividido em 5 sub-bacias."Até o começo de 2015 o programa atuava apenas em 1 delas. Atualmente foram abertos novos editais e mais de 70% dos produtores rurais da bacia aderiram ao programa", conta.

Os resultados efetivos e significativos poderão ser vistos nos próximos anos dado que as ações em larga escala estão sendo realizadas", espera. A próxima etapa é a efetiva execução das obras de conservação de solo, estradas, cercamento de APPs e plantio de mudas nas novas propriedades que aderiram ao programa.

O Manancial Vivo abrange ainda a bacia do córrego Lageado, responsável por 13% do abastecimento da capital. Com investimentos de R$ 1 milhão, o desassoreamento da represa e reconstrução do vertedor de captação, em 2003, aumentou capacidade do lago e melhora na qualidade da água distribuída. Os trabalhos consistiram na remoção de 26 milhões de litros de lama, e construção de um canal e comportas para desviar a água durante as manutenções. 

Beleza poluída - Talvez seja um dos melhores cenários para contemplar o pôr do sol de Campo Grande. A Lagoa Itatiaia, localizada na região urbana do Bandeira, possui 9 hectares de água.

Há cerca de 25 anos, a área era constituída por pequenas propriedades rurais, que foram sendo loteadas aos poucos, o que intensificou a ação antrópica sobre a lagoa. Chegou a um extremo que toda a área banhada havia sido tampada pelos loteamentos.

A revitalização ocorreu há cerca de 12 anos, quando a Promotoria do Meio Ambiente exigiu providências da Prefeitura mas, o que se vê atualmente, ainda é grande quantidade de lixo jogada às margens da lagoa. A última limpeza ocorreu há 3 anos.

Publicação do Zoneamento Ecológico-Econômico de Campo Grande, concluído em fevereiro. (Foto: André Bittar)
Publicação do Zoneamento Ecológico-Econômico de Campo Grande, concluído em fevereiro. (Foto: André Bittar)

Em busca de solução - Para resolver os problemas de poluição e assoreamento de lagos e lagoas da cidade, a Prefeitura, por meio da Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), vem trabalhando no que acredita ser uma ferramenta revolucionária para a gestão ambiental a partir da configuração territorial do município.

Trata-se do ZEE (Zoneamento Ecológico-Econômico) de Campo Grande, que começou a ser elaborado em 2015, tendo como referência o ZEE de Mato Grosso do Sul. O documento acaba de “sair do forno”. Consiste em um instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente, instituída pela lei 6.938, de 1981, e tem como diferencial identificar as bacias hidrográficas como unidades de planejamento.

“O objetivo é fundamentar, complementarmente, as decisões dos agentes públicos e privados quanto a planos, programas, projetos e atividades que, direta ou indiretamente, utilizem recursos naturais. E tudo isso de forma vinculada, com recomendações que assegurem a sustentabilidade dos nossos ecossistemas”, explica Berenice Maria Jacob Domingues, diretora-presidente da Planurb.

Para isso, o grande desafio – e, segundo a equipe técnica, o principal resultado do trabalho - foi inserir todas as 169 bacias hidrográficas do município em 5 zonas ecológicas e econômicas: APA (Área de Preservação Ambiental) Ceroula, Zona Urbana, Guariroba e Lageado, Anhanduí e Ribeirão Lontra.

“Dessa forma, será possível fazer análises mais pontuais dos problemas de cada região, entender o comportamento local, no que se refere à ocupação do solo, identificar potencialidades em todos os âmbitos, e tomar providências e medidas preventivas para o equilíbrio socioeconômico e ambiental, que inclui, claro, os recursos hídricos”, acredita a gestora.

Ela complementa que o ZEE de Campo Grande pode contribuir para o planejamento de ações emergenciais de infraestrutura e abastecimento e, num futuro próximo, solucionar gargalos como o do escoamento superficial e infiltração.

O empenho do Planurb, agora, é transformar o ZEE em lei. O projeto, disponível no site da Planurb, já foi apresentado ao Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urbanização e será detalhado em abril ao Conselho de Meio Ambiente. Logo deve estar em tramitação na Câmara Municipal.

Diretora-presidente da Planurb durante reunião técnica nesta terça (21) sobre o ZEE. (Foto: André Bittar)
Diretora-presidente da Planurb durante reunião técnica nesta terça (21) sobre o ZEE. (Foto: André Bittar)