Com a BR-262 no quintal, campo-grandenses vivem onde a cidade virou estrada
Moradores convivem com a distância do Centro, o barulho e as oportunidades de emprego
Na saída de Campo Grande, onde a rotatória da BR-262 divide caminhos para Bonito, Rochedo, São Paulo e o aeroporto, há casas com portas viradas para a rodovia. A poucos metros do asfalto por onde passam carros, caminhões e viajantes, moradores do Jardim Inápolis vivem uma rotina que mistura barulho, poeira, distância do Centro e uma proximidade difícil de ignorar com a estrada.
RESUMO
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Moradores do Jardim Inápolis, bairro localizado na saída de Campo Grande às margens da BR-262, convivem diariamente com barulho, poeira e distância do centro urbano, mas muitos afirmam não trocar o local por outro. A proximidade com o Núcleo Industrial da cidade é apontada como principal vantagem, especialmente para quem depende de emprego perto de casa. Entre os desafios estão o acesso a serviços bancários, lotéricas e atendimento de saúde especializado.
Ali, a cidade parece terminar de um lado e seguir em movimento do outro. Para quem passa de carro, o bairro pode parecer apenas margem. Para quem vive ali, é casa, trabalho, vizinhança, memória e, muitas vezes, a única forma de vida que faz sentido.
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A maioria dos moradores ouvidos pelo Campo Grande News trabalha perto dali, no Núcleo Industrial da cidade. A distância em relação ao Centro pesa, principalmente quando é preciso ir ao banco, à lotérica ou buscar atendimento de saúde mais específico.
Mesmo assim, muitos dizem que não trocariam o lugar por outro. Não por romantismo puro. Em alguns casos, por costume. Em outros, por necessidade. E, em vários, porque emprego perto de casa pesa mais do que morar perto de tudo.
Há quatro anos aqui, Antônio Luiz Reis, de 44 anos, veio de Mato Grosso durante a pandemia para trabalhar por dois meses. Ficou. Hoje trabalha com vendas e vê na localização uma vantagem. “Para mim é mais fácil, para me locomover”, resume.
Antes de Campo Grande, Antônio já tinha vivido em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Dourados. Por isso, quando fala da Capital, compara com outras experiências. “Aqui eu acho bem mais calmo. Eu acho Dourados mais violenta que aqui”, diz.
O barulho da rodovia, segundo ele, já virou parte do ambiente. “Não incomoda. Já acostumei.” Na casa, mora com a filha e duas cachorras, Mel e Pantera, que latem como quem também faz a guarda daquela fronteira entre quintal e estrada.
Quando perguntado se consegue ver alguma beleza na vida que passa pela BR, Antônio hesita, mas não rejeita a ideia. “Pode ser que sim. Eu sou viajante e sou nordestino. Eu gosto muito de morar fora, viajar. É muito bom.”
Poucos metros dali, Andrews Otávio Costa, de 38 anos, atende clientes em um comércio montado no quintal de casa, no estilo janelinha. Ele mora no bairro há cerca de 25 anos e trabalha no ponto há um ano. A avaliação é direta: viver de frente para a rodovia tem vantagem e problema. “Tem parte boa e parte ruim. Para o comércio é bom. Agora, para morar, é ruim. Tem muito barulho, poeira”, afirma.
A poeira entra no relato quase como personagem fixo. O movimento ajuda a vender, mas cobra seu preço na rotina. Em mais de duas décadas de convivência com a BR-262, Andrews também viu cenas que quem mora longe da estrada talvez só veja em notícia. “De vez em quando teve acidente feio aqui. Morrer, morreu. A verdade é essa”, diz.
Para Andrews, a distância da área central não é exatamente uma exceção. “Em qualquer lugar você vai ter que se deslocar”, compara. O que pesa a favor, segundo ele, é a tranquilidade da vizinhança. “Já acostumamos. A maioria dos amigos é daqui mesmo”, conta.
A rotina também criou hábitos que ele acredita serem mais difíceis em regiões próximas ao Centro. “Deixar o portão aberto, deixar as coisas para fora. Lá não dá, aqui já pode.”
Sobre a beleza da rodovia, Andrews é menos poético que Antônio, mas também enxerga algo no movimento. “Tem, né? O movimento é diferente todo dia. Cada hora é uma hora.”
Maria Dênis Santos Pereira, de 60 anos, mora na beira da BR-262 há 19 anos. Ela não tenta enfeitar a resposta. Para ela, a vida ali é boa porque é conhecida. “Aqui, para mim, é bem tranquilo, graças a Deus. Só esse barulho de carro, mas de resto tudo bem”, afirma.
Os vizinhos dizem que não mudariam dali. Maria concorda. Não por achar que tudo é perfeito, mas porque a vida se organizou naquele pedaço. “Aqui é um bom lugar. Para sair daqui e partir para outro espaço, já é mais difícil.”
Ela conta que recebe acompanhamento de equipes de saúde e elogia as visitas. Também diz não ter reclamação dos vizinhos. A ideia de morar mais perto da cidade não a seduz. “Eu acho melhor do que na cidade. Na cidade eu acho mais barulhento. Aqui eu estou acostumada.”
Entre os mais jovens, porém, a leitura muda. Marielle Cardoso Romã, de 22 anos, trabalha como auxiliar de produção a cerca de 500 metros de casa. Mora no Jardim Inápolis desde 2019 e reconhece que a região oferece algo difícil de ignorar: emprego. “Tem muita oportunidade. Se eu for mandada embora hoje, amanhã já posso encontrar outro serviço”, diz.

Ela cita fábricas de óleo, roupas, refrigerante e cerveja, além de empresas de diferentes setores instaladas na região. Para quem depende de trabalho perto, a localização ajuda. Mas Marielle não compra sem ressalvas a ideia de que viver ali é melhor. “Eu acho que na cidade seria melhor”, afirma.
Com uma filha pequena, ela diz que o cuidado precisa ser constante por causa da proximidade com a BR-262. Também aponta a distância dos serviços como uma das principais dificuldades. “Se precisa de banco ou lotérica, tem que sair daqui, pegar dois, três ônibus. É longe, bem complicado.”
Na saúde, a avaliação também é prática. Segundo ela, há unidade próxima, mas nem sempre o atendimento necessário está disponível. Para Marielle, os moradores mais antigos se acostumaram mais facilmente ao bairro. Já entre os jovens, a permanência depende menos de apego e mais de oportunidade. “O trabalho chama atenção”, termina.
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