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Campo Grande, Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

03/12/2017 10:40

É só olhar: tem mais gente vivendo na rua em Campo Grande

As histórias de vida desses desabrigados muitas vezes estão entrelaçadas com problemas com álcool e drogas

Bruna Kaspary
Morador de rua dormindo no canteiro central da avenida Afonso Pena (Foto: André Bittar)Morador de rua dormindo no canteiro central da avenida Afonso Pena (Foto: André Bittar)

A mudança é clara para quem caminha ou passa de carro pelas ruas centrais e até periféricas de Campo Grande: tem mais gente vivendo na rua, dormindo nas calçadas, perambulando em busca de um trocado e de alimento. A SAS (Secretaria Municipal de Políticas e Ações Sociais e Cidadania) confirma que os atendimentos aumentaram, com base nos dados do Cetremi (Centro de Triagem e Encaminhamento do Migrante) e no trabalho as abordagens dos próprios funcionários da secretaria a pessoas em situação de rua.

Morador de rua dormindo na frente de condomínio na avenida Afonso Pena (Foto: André Bittar)Morador de rua dormindo na frente de condomínio na avenida Afonso Pena (Foto: André Bittar)

Em 2016, a média mensal de atendimentos no Cetremi foi de 97 pessoas. Neste ano, essa média subiu para 116 assistências a pessoas em situação de rua. A alta é de quase 20%. As abordagens também tiveram um crescimento significativo, passaram de 54 pessoas por mês, para 77, uma alta de 42%.

Muitos desses moradores de rua estão na região do Mercado Municipal, perto da Igreja Santo Antônio, da antiga Rodoviária e  da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Esses locais são conhecidos por vizinhos como pontos de venda e consumo de drogas, o que é considerado um "chamariz" para novos moradores de rua.

Moradora de rua na frente da igreja Santo Antônio (Foto: Paulo Francis)Moradora de rua na frente da igreja Santo Antônio (Foto: Paulo Francis)

Abordadas, essas pessoas são arredias. Depois relutarem um pouco, começam a contar suas histórias, mas sempre com a preocupação de não se identificar. Vergonha e medo de ser reconhecido se misturam. Em geral, os relatos envolvem dependência química e afastamento do convívio familiar.

"Eu fiquei em uma casa de recuperação dez meses. Lá mesmo comecei a ter crise de abstinência, queria voltar [a usar droga], queria voltar... fui visitar a minha filha um dia e nos primeiros R$50 que ela me deu, ao invés de comprar comida, comprei droga", conta uma das moradoras dos arredores da igreja Santo Antônio.

Ela ainda complementa: "Minha filha não pode me levar para a casa dela, são seis pessoas lá. Eu lá só vou dar mais trabalho, daí eu fico por aqui". Ela ainda lembra que assim que saiu da casa de reabilitação teve problemas de saúde e a filha voltou a interná-la.

Jovem veio para Campo Grande atrás de emprego e hoje consegue dinheiro cuidando de carros (Foto: André Bittar)Jovem veio para Campo Grande atrás de emprego e hoje consegue dinheiro cuidando de carros (Foto: André Bittar)

"Eu acho que não é só abrigo que a gente precisa. Tem que ter também uma assistência para garantir para nós, quando saímos da recuperação, um emprego, para que a gente tenha condição de pagar aluguel de um quartinho e não fique mais nas ruas", conclui a moradora de rua, que sai desconfiada logo depois dos depoimentos.

Em busca de emprego, o jovem de 25 anos saiu de casa, em La Paloma del Espíritu Santo, no Paraguai, e veio para Campo Grande imaginando que conseguiria se livrar dos traumas que passou na casa da família desde pequeno. "Quando eu nasci, minha mãe me jogou no lixo. Meu pai me pegou de lá e me entregou para minha avó e minha tia me criarem. Ela [a tia] sempre me maltratou".

Quando chegou em Campo Grande, há 5 meses, foi ao Cetremi para conseguir apoio, mas não teve a resposta esperada. "Para lá eu não volto. Me roubaram minhas roupas, calça nova, tênis, tudo de marca, me roubaram. Não volto para lá".

Moradores de rua nas calçadas dos arredores da igreja Santo Antônio (Foto: Paulo Francis)Moradores de rua nas calçadas dos arredores da igreja Santo Antônio (Foto: Paulo Francis)

Ainda de acordo com ele, até há um encaminhamento para empregos, mas também não é o que dizem na hora de selecionar os abrigados. "Patrão chega lá, leva para uma fazenda dizendo que vai pagar, mas não pagam e o serviço também é o que eles falam que é", reclama.

Ao lembrar da família que deixou em La Paloma ele afirma que, mesmo gostando dela, não volta para lá. "Eu não atormento minha família não. Era muito maltratado lá, minha tia me batia, o marido dela me furou com faca. Prefiro ficar na rua do que voltar", conclui.

Hoje ele ronda a cidade com apenas a bermuda que usa, três camisetas e um par de chinelos, se recusando tanto a voltar para casa quanto a procurar ajuda da SAS. "O Centro Pop também não faz nada. Eu vivo cuidando de carro para ter algum dinheiro para conseguir comer e comprar o que preciso. Tudo o que eu quero é um emprego".

Desabrigados sob a fachada do mercado desativado (Foto: Paulo Francis)Desabrigados sob a fachada do mercado desativado (Foto: Paulo Francis)

Outro morador de rua, de 40 anos, que foi encontrado pela primeira vez sob a marquise de um supermercado desativado na rua Fernando Correia da Costa, também estava nas proximidades da Igreja. Ele veio de Paranaíba e está há quatro anos morando nas ruas.

"Eu já andei muito, fui para São José do Rio Preto, e voltei para cá há uns 15 dias. Eu saí de casa porque quis, tinha problemas com álcool, mas o pessoal lá não aceitava, então eu preferi vir para a rua". Ele lembra que, desde que saiu de casa mora nas ruas.

Ele, assim como o jovem, não quer apoio do Cetremi porque acredita que não há efetividade no trabalho realizado. "Tem uns 50 peões ou mais lá, não traz benfeitoria nenhuma aquele lugar, prefiro ficar na rua".

Pertences de moradores de rua sempre ficam próximos a eles enquanto dormem (Foto: Paulo Francis)Pertences de moradores de rua sempre ficam próximos a eles enquanto dormem (Foto: Paulo Francis)
Para alguns, resta apenas dormir direto no chão, sem um papelão para proteção (Foto: André Bittar)Para alguns, resta apenas dormir direto no chão, sem um papelão para proteção (Foto: André Bittar)

Com uma garrafa de pinga próximo ao local onde estava dormindo ontem, o homem se negava a aceitar qualquer forma de ajuda que não seja financeira. Ao reconhecer a equipe do Campo Grande News, saiu correndo e gritando para os demais desabrigados: "Não é para falar nada não, se eles não pagam não tem que falar".

Incômodo - Apesar de não saber o motivo nem como essas pessoas vieram parar nas suas calçadas, muitos se sentem inseguros com a presença desses moradores de rua, principalmente na frente dos comércios. Na região do bairro Guanandy, comerciantes dizem temer principalmente pela integridade de seus clientes.

"A nossa loja abriu em janeiro, desde lá tem muita gente dormindo aqui nas ruas", afirma Luciene do Nascimento, de 42 anos. Ela lembra que tem gente com diversas características. "Tem um com barba feita até, deve ter algum problema, ele diz que tem casa. Tem até uns que cumprimentam", conta.

Muitos desabrigados deixaram as famílias, restando apenas lembranças, como anéis (Foto: André Bittar) Muitos desabrigados deixaram as famílias, restando apenas lembranças, como anéis (Foto: André Bittar)

Para Luciene, essas pessoas em situação de rua acabam assustando os clientes. "Eles ficam pedindo no estacionamento do mercado, moedas, para pagar chipa". E ainda completa: "A pessoa abandona tudo para viver nessa vida, devem ser usuários [de droga]".

Lucélia Almeida tem um restaurante na região e afirma que teve que tomar algumas medidas de segurança por conta dos moradores de rua. "Eles dormiam na churrasqueira, quando estava sendo construída. Tive que colocar grades, porque um dia um deles chegou a entrar e levar condimentos".

"Esses dias, um deles partiu para cima do cliente porque achou que ele não iria dar comida para ele", lembra a comerciante. Como é proprietária de um restaurante, ela se sente constrangida em não dar comida quando pedem. "Teve um que saiu com dez marmitas daqui uma vez. Nós demos uma para ele e toda vez que passava um cliente ele pedia mais".

Moradores de rua vivem em meio à própria sujeira (Foto: Paulo Francis)Moradores de rua vivem em meio à própria sujeira (Foto: Paulo Francis)

Luciléia ainda afirma que não teme somente pela segurança de seus clientes. "Tem uns que são abusados. Quando falamos que não tem eles ficam bravos", conclui.

Mais otimista que Lucélia, Paulo Archanjo, 74 anos, tem uma banca de revistas na Afonso Pena, em apenas uma manhã haviam três moradores de rua nas proximidades do comércio dele. "Dizem que o pessoal lá da rodoviária é mais difícil de lidar, porque tem muita droga lá, mas eles não fazem mal nenhum", afirma.

Lembrando da boa ação de um colega dono de uma padaria próxima, ele concorda que o número de moradores de rua tem aumentado. "Há uns dois meses aumentou muito, mas quem faz maldade são pessoas que vem de outros lugares, os daqui não fazem nada não".

Assistência Social - Em Campo Grande, a SAS conta com centros de apoio essas pessoas em situação de rua. O Cetremi, citado pela maioria dos moradores de rua, é o abrigo onde eles podem passar a noite, e é procurado, principalmente em épocas de baixas temperaturas.

Além de lá, essas pessoas também têm o Centro Pop e a Casa de Passagem, locais onde podem passar o dia, se alimentar e tomar banho, em seguida, se desejarem, são recolhidos ao abrigo para passar a noite. As abordagens são outra forma de fazer com que os moradores das ruas tenham algum apoio, mas muitas vezes esse é recusado.




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