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Estupro coletivo também ocorre em Campo Grande e polícia faz alerta para riscos

Delegada aponta festas, álcool e encontros online como contextos comuns nos casos registrados

Por Gabi Cenciarelli | 07/03/2026 09:26
Estupro coletivo também ocorre em Campo Grande e polícia faz alerta para riscos
Acusados pela morte de criança em Dourados em 2021 (Foto: Arquivo)

O caso recente de uma adolescente estuprada por quatro homens no Rio de Janeiro reacendeu o debate nacional sobre o estupro coletivo. Em Campo Grande, embora o crime não apareça com frequência nos registros policiais, autoridades alertam para situações comuns do cotidiano que costumam fazer parte do contexto desse tipo de violência.

RESUMO

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O estupro coletivo em Campo Grande, MS, está frequentemente associado a ambientes de socialização entre jovens e situações de vulnerabilidade, alerta a delegada Analu Ferraz, da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. O crime ocorre principalmente em festas universitárias e encontros com consumo excessivo de álcool e drogas. Embora não existam dados oficiais consolidados, diversos casos foram registrados nos últimos anos no estado, incluindo ocorrências em Dourados e Água Clara. A polícia também alerta para riscos em encontros marcados pela internet. O crime não é uma tipificação específica, mas uma circunstância que aumenta a pena do estupro em até metade quando cometido por duas ou mais pessoas.

Segundo a delegada adjunta da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), Analu Ferraz, quando o estupro coletivo ocorre na Capital ele geralmente está ligado a ambientes de socialização entre jovens e situações de vulnerabilidade.

De acordo com a delegada, nesses ambientes muitas vezes há consumo excessivo de álcool ou drogas, o que pode deixar a vítima em condição de fragilidade.

“O padrão que a gente observa é que a maior incidência acontece em festas de universidade ou encontros entre amigos, com consumo excessivo de bebida alcoólica e, em alguns casos, drogas”, afirma.

Nessas situações, segundo ela, a vulnerabilidade pode ser explorada pelos agressores. “As meninas acabam ficando sem condições de resistir ou de manifestar livremente a vontade pela prática do ato sexual.”

Apesar de registros ao longo dos últimos anos, não há números oficiais consolidados sobre a incidência de estupro coletivo em Mato Grosso do Sul. A reportagem solicitou dados à Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria.

Estupro coletivo também ocorre em Campo Grande e polícia faz alerta para riscos
Presos por estupro coletivo e morte de criança em 2021 (Foto: Adilson Domingos)

O que caracteriza o estupro coletivo

A delegada explica que muitas pessoas acreditam que o estupro coletivo seja um crime específico no Código Penal, mas juridicamente ele funciona como uma circunstância que aumenta a pena do crime de estupro.

“Isso é uma pergunta muito interessante porque muitos acham que o estupro coletivo é um crime autônomo, mas não é. Ele é uma causa de aumento de pena do crime de estupro.”

Ela ainda explica que a punição pode ser ampliada quando o crime é cometido por duas ou mais pessoas.

“A pena é aumentada de um terço até a metade quando o crime é cometido por duas ou mais pessoas. A característica principal é a concorrência entre dois agentes ou mais para a prática da violência ou da grave ameaça.”

No mesmo artigo da legislação também está previsto o chamado estupro corretivo. Segundo a delegada, esse tipo de violência ocorre quando o agressor pratica o crime com a intenção de “corrigir” um comportamento considerado reprovável.

“Às vezes a pessoa se identifica como mulher trans ou tem orientação sexual voltada para outras mulheres, e o agressor pratica o crime para ‘corrigir’ essa condição. Eu já tive inquéritos nesse sentido.”

Estupro coletivo também ocorre em Campo Grande e polícia faz alerta para riscos
Passeata contra a cultura do estupro na Afonso Pena (Foto: Arquivo)

Encontros pela internet também preocupam

Outro cenário que tem chamado atenção da polícia envolve encontros marcados pela internet.

“Hoje também temos situações em que as pessoas marcam encontros pela internet. Muitas vezes são perfis falsos, com histórico falso e fotos falsas.” Segundo a delegada, muitas vítimas acabam confiando em pessoas que conheceram recentemente, o que pode criar uma falsa sensação de segurança.

“Na maioria das vezes sempre tem algum amigo ou conhecido recente da vítima, alguém do trabalho, da faculdade ou das baladas. Isso cria uma falsa sensação de segurança.”

Casos registrados nos últimos anos

Mesmo sem números oficiais consolidados,  reportagens do Campo Grande News mostram que o crime ainda aparece em Mato Grosso do Sul.

Em 2026, uma adolescente de 15 anos denunciou ter sido vítima de estupro coletivo em Dourados após ir até a casa de uma amiga. Segundo o relato, ela foi levada até um quarto e impedida de sair enquanto um dos suspeitos cometia a violência, enquanto outros bloqueavam portas e janelas.

Estupro coletivo também ocorre em Campo Grande e polícia faz alerta para riscos
Com os rostos pintados e cartazes em mãos, ela disseram não a cultura do estupro em 2016 (Foto: Arquivo)

No ano passado, uma operação da Polícia Civil em Água Clara investigou um caso de estupro coletivo envolvendo uma adolescente. A ação resultou no cumprimento de dois mandados de prisão e cinco de apreensão.

Também em 2025, um jovem de 24 anos denunciou ter sido vítima de estupro coletivo em Campo Grande após sair de uma balada e ir para a casa de um conhecido.

Casos semelhantes também foram registrados em anos anteriores, incluindo denúncias ligadas a encontros marcados por aplicativos e situações ocorridas durante festas.

Em 2021, um dos episódios que mais repercutiram no Estado envolveu uma criança indígena na reserva de Dourados. A menina foi violentada por vários agressores e morreu após ser jogada de uma pedreira.

Cultura de prevenção

Para a delegada, uma das principais formas de prevenção em ambientes de festas é o cuidado coletivo entre amigas.

“Um sinal de alerta prático é sempre ter uma amiga de confiança responsável por cuidar das demais.”

Segundo ela, essa pessoa pode perceber situações de risco que passam despercebidas por quem está sob efeito de álcool. “Essa amiga que não esteja embriagada consegue perceber se alguém sumiu, se está alterada ou se foi levada para um local isolado.”

Ela defende que esse tipo de atenção precisa se tornar parte da cultura social. “Da mesma forma que existe a campanha do ‘se beber, não dirija’, nós precisamos implementar a cultura do cuidado mútuo entre mulheres.”

O que fazer após uma violência

Em casos de violência sexual, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente.

A Lei 12.845 de 2013 garante atendimento imediato, gratuito e integral às vítimas na rede pública de saúde, independentemente de registro de boletim de ocorrência.

Nos hospitais, as vítimas recebem atendimento para lesões, coleta de vestígios que podem auxiliar na investigação, além de medicamentos preventivos para infecções sexualmente transmissíveis e contracepção de emergência.

A delegada ressalta que, embora seja difícil emocionalmente, preservar provas pode ajudar na identificação dos autores. “Por mais cruel que seja pedir isso a uma mulher que acabou de ser violentada, é importante evitar tomar banho ou trocar de roupa antes do atendimento.”

Subnotificação

Mesmo com registros policiais, o número real de casos pode ser maior do que o que aparece nas estatísticas. “A subnotificação é um dos maiores desafios no combate ao crime sexual. Os números que temos são apenas uma fração da realidade”, afirma a delegada.

Segundo ela, medo, vergonha e receio do julgamento social ainda impedem muitas vítimas de procurar ajuda. “Infelizmente ainda vivemos a cultura do estupro, em que muitas pessoas questionam a conduta da vítima em vez de responsabilizar o agressor.”

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