ACOMPANHE-NOS    
NOVEMBRO, SEGUNDA  29    CAMPO GRANDE 23º

Capital

Filho de dirigente de ONG é ‘fantasma’ em esquema de terceirizações

Kelly Ribeiro Pereira, presa pelo Gaeco na terça-feira, foi flagrada em áudio comentando sobre a situação do filho e também dizendo estar cansada de ‘ser laranja’

Por Anahi Zurutuza | 15/12/2016 20:15
Fachada da Seleta na terça-feira, quando Gaeco fez ‘batida’ no local (Foto: Fernando Antunes)
Fachada da Seleta na terça-feira, quando Gaeco fez ‘batida’ no local (Foto: Fernando Antunes)

O filho de Kelly Ribeiro Pereira, a responsável pela Creche Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, alvo da Operação Urutau, é um dos “fantasmas” no esquema de desvio de dinheiro público por meio de contratações de terceirizados e serviços para a Prefeitura de Campo Grande pela Omep (Organização Mundial para Educação Pré-Escolar) e da Seleta Sociedade Caritativa e Humanitária. Pelo menos é o que argumentou o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) para conseguir ordem judicial e prendê-la na quarta-feira (13).

Eder é empregado de uma empresa de publicidade da Capital, mas desde 2011 recebe salário de R$ 3.156,23 pela Seleta por constar no quadro de funcionários da creche dirigida pela mãe dele como auxiliar administrativo.

Por meio de áudios captados dos celulares das três presas e das sete pessoas que foram conduzidas coercitivamente para o Gaeco, o MPE flagrou um diálogo de Kelly que evidencia a condição de “fantasma” do filho da gestora da ONG (Organização Não-Governamental). A pessoa com quem a dirigente conversa demonstra preocupação sobre como demonstraria a rotina de trabalho de Eder.

As informações constam no pedido do promotor Marcos Alex Vera de Oliveira, da 29ª Promotoria de Justiça do Patrimônio Público, à Justiça para que a Prefeitura de Campo Grande rescinda de imediato os convênios com a Omep e com a Seleta.

A situação também foi mencionada pelo juiz David de Oliveira Gomes Filho, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, que determinou no início da noite de hoje (15) a demissão de todos os funcionários terceirizados da prefeitura por meio dos contratos com as entidades.

O desembargador Amaury da Silva Kuklinski em decisão onde ele nega habeas corpus à Kelly é outro que cita o fato de Eder supostamente receber sem trabalhar. “Há indícios também de que a paciente [Kelly] acoberta o filho, Eder Túlio Pereira Bezerra, como funcionário fantasma, recebendo dinheiro público, bem como que a paciente sempre teve ‘cuidado’ com as listas de funcionários, a fim de garantir a perpetuação dos desvios”.

Laranja – Em outro áudio localizado pelo Gaeco, Kelly reclama de ser “laranja” no esquema. “Estou cansada de ser laranja para enriquecer os outros”, teria dito a administradora da creche, segundo cita Kuklinski na decisão.

Em outras conversas interceptadas, fica claro que, entretanto, a gestora da ONG é contatada para remeter papéis timbrados da instituição a fim de justificar despesas da Seleta, “confirmando os indícios de que a creche serviria para ‘esquentar’ o desvio de valores”, continua o desembargador.

A reportagem não conseguiu localizar a advogada de Kelly, que segundo a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) até o fim da tarde desta quinta-feira continuava em cela do Presídio Feminino Irmã Irma Zorzi, bem como as outras duas presas na operação, Maria Aparecida Salmaze, presidente da Omep, e Ana Claudia Pereira da Silva, chefe do departamento pessoal da Seleta.

Agentes do Gaeco entraram no local pouco depois das 6h para cumprir mandado de busca (Foto: Fernando Antunes)
Agentes do Gaeco entraram no local pouco depois das 6h para cumprir mandado de busca (Foto: Fernando Antunes)
Depois de cinco horas, varredura terminou (Foto: Fernando Antunes)
Depois de cinco horas, varredura terminou (Foto: Fernando Antunes)

Operação – A Urutau é resultado de investigações sobre os desvios de recursos dos cofres municipais, por meio das Omep e da Seleta, que terceirizam mão-de-obra e serviços para a Prefeitura de Campo Grande. A suspeita é que as entidades eram usadas na contratação de “fantasmas” e que os prejuízos cheguem à casa dos milhões.

Na terça-feira, o trabalho das equipes comandadas pelo Gaeco começou no início da manhã. O Gaeco cumpriu 14 mandados de busca e apreensão nas sedes da Seleta e da Omep, no gabinete da vereadora Magali Picarelli (PSDB), na creche, em uma empresa, um instituto de formação e na casa do presidente da Seleta, dentre outros locais.

Além disso, sete pessoas foram levadas até a sede do Grupo de Combate ao Crime Organizado para depor: o presidente da Seleta, Gilbraz Marques, a vereadora Magali Picarelli, além de Elcio Paes da Silva, Wenrril Pereira Rodrigues, Eder Tulio Bezerra Pereira (filho de Kelly), Aliny Aparecida de Souza, tesoureira da Omep, e Rodrigo Messa, genro da presidente da Omep e que já ocupou o comando da entidade.

As ordens de prisão, busca e condução coercitiva e quebra do sigilo telefônico de todos os envolvidos foram expedidos pelo juiz Mario José Esbalqueiro Junior, quando ele estava vinculado à 1ª Vara das Execuções Penais de Campo Grande.

Nos siga no Google Notícias
Regras de comentário