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Capital

Marido diz que tentou teleconsulta para salvar mulher da covid e ninguém atendeu

“A minha revolta é que eles deram um número caso acontecesse alguma coisa grave, e não atenderam quando a gente ligou”, disse

Por Izabela Sanchez e Bruna Marques | 05/06/2020 11:48
Olhos vermelhos de quem divide espaço no peito para tristeza e revolta (Foto: Henrique Kawaminami)
Olhos vermelhos de quem divide espaço no peito para tristeza e revolta (Foto: Henrique Kawaminami)

Revolta se mistura à tristeza na manhã desta sexta-feira (5) no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Campo Grande, onde a covid-19 fez sepultar nova vítima e também juntou poucos presentes para se despedir Marilda Monteiro de Souza, que aos 51 anos é a oitava pessoa a morrer da doença em Campo Grande. Evandro Pereira de Lima, 41, quer respostas. O marido diz que após orientação de acionar o serviço de teleconsulta para covid, tentou e tentou e tentou, mas ninguém atendeu para socorrer a esposa.

Ele acusa que a escalada rápida da infecção, que levou a esposa 45 minutos depois de chegar à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Vila Almeida, só ocorreu porque o casal foi orientado a acionar primeiro o serviço à distância, que não atendeu.

Adeus de longe e flores de plástico para Marilda (Foto: Henrique Kawaminami)
Adeus de longe e flores de plástico para Marilda (Foto: Henrique Kawaminami)

“A minha revolta é que eles deram um número para ligar caso acontecesse alguma coisa grave e não atenderam quando a gente ligou. Ela vai me fazer muita falta porque era minha parceira, 22 anos não são 22 dias”, declarou.

Visita contaminada – O operador de máquinas disse que vive em propriedade rural de Campo Grande, na região do InduBrasil, onde a esposa trabalhava como doméstica. Ele não detalhou, mas contou que os sintomas vieram depois de uma visita de casal “que não sabia que estava com covid-19”, à fazenda, no dia 16 de maio.

Adeus cinzento nesta sexta-feira (Foto: Henrique Kawaminami)
Adeus cinzento nesta sexta-feira (Foto: Henrique Kawaminami)

No dia 19, três dias depois, ele disse que a esposa já apresentou os sintomas e ele então a levou para o centro de triagem do Aero Rancho, improvisado no Parque Ayrton Senna. Atendida e testada, ele conta que recebeu ligação nesta segunda (1), confirmando o diagnóstico da esposa para a doença do novo coronavírus.

Comunicado do diagnóstico, ele diz que a esposa não foi monitorada e que eles foram orientados a seguirem em isolamento e acionarem o número da teleconsulta, conforme disse Evandro. “Falaram que tinha que ficar em isolamento, usar máscara”, comentou.

“Ela estava reagindo bem”, emendou ele.

Evandro afirma que a piora veio nesta quinta-feira (4), quando Marilda, por volta das 6h30, começou a sentir muitos calafrios e falta de ar. “Cansei de ligar e ninguém atendeu”, disse ele. Com as tentativas em vão, resolveu trazê-la para a UPA Vila Almeida onde Marilda faleceu em apenas 45 minutos.

Ninguém proíbe abraço quando a dor é muito grande (Foto: Henrique Kawaminami)
Ninguém proíbe abraço quando a dor é muito grande (Foto: Henrique Kawaminami)

“Ela que cuidava dos meus filhos, de mim e da nossa casa”, relatou, emocionado.

Marilda deixa três filhos, um jovem de 19, uma adolescente de 17 e uma criança de 12.

A despedida teve a presença de menos de 20 pessoas. Os meninos dela, a cunhada, Evandro...todos emocionados juntaram-se em um abraço. Assistindo ao corpo ser sepultado de longe, o enterro parecia a despedida num porto onde um navio vai indo aos poucos, levando alguém que se ama, e ninguém pode chegar mais perto.

“É importante que as pessoas fiquem em casa, o casal não sabia e tirou a vida da minha esposa”, disse Evandro.