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Capital

Na cara do chefe, delegada que investiga “mafiosos” diz não confiar na polícia

Depois de recusar a citar nomes de investigados, Daniela Kades fala em falta de confiança nos colegas

Por Geisy Garnes | 04/11/2021 16:52
Viatura do Garras estacionada em frente à empresa que será lacrada por ordem judicial. (Foto: Ana Oshiro)
Viatura do Garras estacionada em frente à empresa que será lacrada por ordem judicial. (Foto: Ana Oshiro)

Uma reunião com os delegados titulares de todas as delegacias de Campo Grande terminou em briga e acusações entre o Delegado-Geral da Polícia Civil Adriano Garcia Geraldo e a delegada Daniella Kades de Oliveira Garcia, integrante da força-tarefa responsável pelas investigações contra grupo de extermínio suspeito de atuar em Mato Grosso do Sul por, pelo menos, uma década.

Depois de recusar a citar nomes de investigados na reunião, a delegada afirmou que “não confia na polícia”, se referindo a série de denúncias de corrupção dentro dos órgãos de segurança pública feita pela própria força-tarefa da Operação Omertá. Agentes da Polícia Civil (investigadores e delegados), guardas municipais, policiais militares e policial federal foram presos nas ações.

Parte da discussão foi gravada. Em áudio obtido pelo Campo Grande News, é possível ouvir que o começo da discussão se refere justamente as consequências das investigações que, em 2019, desarticularam o grupo criminoso apontado como responsável por pelo menos sete execuções na Capital. Na época, as ações revelaram que Jamil Name e o filho Jamil Name Filho comandavam a quadrilha.

Para manter a estrutura do grupo criminoso, desde a compra de armas até o pagamento de propina, era usado dinheiro adquirido ilegalmente com o jogo do bicho, prática coordenada pelos investigados por anos em Mato Grosso do Sul. Para "lavar" esses valores, os criminosos estariam usando a empresa da família Name, a Pantanal Cap, que supostamente trabalhava com títulos de capitalização.

O esquema, conforme apurado pela reportagem, funcionava da seguinte maneira: cada vendedor que saia as ruas para oferecer os títulos de capitalização recebia diversas cartelas, ao fim do processo, mesmo as que não eram vendidas acabavam preenchidas pelos criminosos. Assim, o valor “final” era muito maior que o realmente arrecadado. Essa diferença era preenchida pelo dinheiro conseguido ilegalmente.

Foi esse motivo que levou a força-tarefa a intensificar a repressão contra as bancas da empresa e ao jogo do bicho. Na gravação, a conversa entre Kades e o delegado-geral começa com ele exigindo saber como estão as investigações em relação aos grupos que, supostamente, assumiram o negócio dos Name na cidade.

Ele reclama que existem vários criminosos de fora do Estado em ação, que ele não tem conhecimento. A delegada, que participa diretamente da investigação, responde que a situação não é bem aquela. Inicialmente, Kades fala que “grupos” citados pelo chefe não são de fora de Mato Grosso do Sul. É neste momento, que ela revela não confiar o suficiente nas pessoas presentes para detalhar o assunto.

Eu não vou falar o nome das pessoas”, afirma Kades.

“Por quê?”, questiona Adriano.

“Porque eu não confio na polícia”, responde ela.

A discussão continua com o delegado-geral afirmando que Kades não confia nela. A resposta é dada sem pensar: “em mim, eu confio”. Adriano chega a “lamentar” a acusação e ainda fala que a colega “pensa pequeno”, enquanto a delegada é enfática em afirmar que não vai passar informações, pois é a vida dela que está em risco.

“Se não vai por bem, vai na dor. Aí a gente põe hierarquia, porque é muito triste você dizer que não confia”, ameaça Adriano. O delegado-geral continua alegando que não precisa provar sua honestidade para a colega e, neste momento, ela revela saber de uma conversa entre ele e os advogados que representavam a empresa Pantanal Cap, logo que a ações contra ela começaram.

“Veio advogado aqui, logo depois que nós apreendemos o Pantanal Cap, tá? O senhor falou que era uma arbitrariedade minha, dele e deles [outros delegados da força-tarefa], que nós tínhamos apreendido Pantanal Cap. O senhor nunca quis que nós mexêssemos com Pantanal Cap, fica bem claro isso para mim. Que isso é um abuso, vocês têm que representar esses delegados por abuso. Eles nos representaram por ordem do senhor”.

Na época, uma representação contra os delegados da força-tarefa de fato foi feita pelos três advogados direto na Delegacia-Geral da Polícia Civil.

Adriano Garcia Geraldo foi empossado delegado-geral da Polícia Civil em fevereiro. (Foto: Henrique Kawaminami)
Adriano Garcia Geraldo foi empossado delegado-geral da Polícia Civil em fevereiro. (Foto: Henrique Kawaminami)

“Determinar um advogado, um bandido, a representar os delegados que estão investigando ele, é complicado, né”, enfatiza Kades. O delegado-geral rebate alegando que a colega “não sabe o que é gerir uma polícia” e depois de ouvir dela que jamais teve essa pretensão, responde: “está aí a resposta”.

Neste ponto da discussão, a confusão se agrava, Adriano afirma que Kades “precisa fazer mais”. Depois de afirmar que faz, o barulho na reunião aumenta, mas ainda é possível ouvir o delegado falar que a colega não conhece sua história. A resposta é inaudível, mas logo ele repete: “conhece? Então, vou representar contra você. E você vai contar a minha história. Eu conheço a sua história no Garras, eu conheço a sua história. Então, um vai provar a do outro”.

Informações repassadas para equipes de reportagem revelam que Kades deixou a sala de reunião antes mesmo do fim.

“Se não vai por bem, vai na dor” – Depois do episódio, o delegado-geral instaurou processo administrativo contra Kades. Conforme apurado pela reportagem, a delegada também responde a um inquérito policial e chegou a ser chamada para prestar depoimento na Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado).

A delegada responde hoje por “insubordinação grave em serviço”, em processo instaurado pelo corregedor-geral da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.

Hoje, Kades é delegada adjunta da Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude. (Foto: Fernando Antunes/Arquivo)
Hoje, Kades é delegada adjunta da Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude. (Foto: Fernando Antunes/Arquivo)

Ao Campo Grande News, ela detalhou que antes da discussão, explicou as ações policiais da “Black Cat”, quarta fase da Operação Omertà e ofereceu os dados levantados pelas equipes da força-tarefa para outra operação contra o jogo do bicho, a “Deu Zebra”, que já teve cinco fases na Capital com intuito de coibir o mercado de apostas.

Segundo Kades, o desentendimento começou quando ela se negou a falar nomes dos responsáveis pelo esquema de jogos no Estado. “Foi determinado que eu dissesse e eu disse que não diria, porque tem procedimentos em andamento pela força-tarefa, e que eu não poderia revelar, até pela autonomia do delegado de polícia. É uma prerrogativa de delegado de polícia não revelar questões que envolvam diligência ainda em andamento, que está ainda sobre a sua investigação”.

Kades afirmou que todas as informações da operação já são reportadas frequentemente ao delegado-geral e aos responsáveis pelo Departamento de Inteligência Policial, por isso, já sabiam a atual situação das apurações.

“Até para não gerar mais problemas, até mesmo constrangimento desses diretores e do próprio delegado-geral, eu não disse que aquelas informações eram do conhecimento daquelas pessoas e do próprio delegado-geral, eu só disse que não reportaria porque eu não teria confiança na polícia, até mesmo pelos fatos que foram levantados e pelas pessoas que foram presas, investigadas ao longo de todos os eventos feitos pela força-tarefa”.

Depois do fato, no entanto, a delegada afirma ter enfrentado “repressão” por parte do chefe. “Não teve sindicância, foi direto processo administrativo. Agora, vamos trabalhar na nossa defesa”, detalhou.

O outro lado – A reportagem também procurou o delegado-geral Adriano Garcia, por meio da assessoria de imprensa da Polícia Civil, e aguarda resposta.

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