ACOMPANHE-NOS    
JULHO, SEXTA  10    CAMPO GRANDE 28º

Capital

No “cheque especial”, Consórcio Guaicurus prevê colapso no transporte em agosto

“Nós temos que pegar o dinheiro em bancos para garantir um serviço que é público”, afirma João Rezende

Por Aline dos Santos | 04/06/2020 13:32
João Rezende afirma que transporte é direito social previsto na Consituição Federal, como saúde, educação e segurança. (Foto: Marcos Maluf)
João Rezende afirma que transporte é direito social previsto na Consituição Federal, como saúde, educação e segurança. (Foto: Marcos Maluf)

No “cheque especial”, que para empresas se chama capital de giro de conta garantida, o Consórcio Guaicurus prevê colapso no transporte urbano em Campo Grande a partir de agosto e peregrina por socorro na prefeitura e MP/MS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul).

De acordo com o presidente do grupo, João Rezende, num dia normal de fevereiro, ainda antes da chegada do novo coronavírus à Capital, a média era de 217 mil passageiros, transportados em 500 ônibus.

Ontem (dia 3), foram 62 mil pessoas, com a utilização de 330 veículos. Ou seja, 29% do total que se transportava antes da pandemia, mas com 66% da frota em circulação.

“A Constituição Federal, no artigo 6º, define os direitos sociais. O transporte é essencial e um direito social no mesmo patamar da educação, saúde e segurança. No entanto, nem o governo federal, nem o estadual e nem o municipal, nenhum deles, tratam o transporte como deveria”, afirma Rezende.

Enquanto o tripé saúde, segurança e educação têm fundos nacionais para custeio, o transporte urbano é custeado pelos usuários pagantes.

“A pandemia potencializou a fragilidade. Nós temos que pegar o dinheiro em bancos para garantir um serviço que é público. Numa comparação simplista, é como obrigar que um dono de hospital privado atenda de maneira gratuita a saúde. Estamos procurando sensibilizar as autoridades e pedimos a interferência do Ministério Público”, afirma.

Conforme o presidente do Consórcio Guaicurus, as empresas entregaram até o detalhamento das contas bancárias para comprovar que o colapso se aproxima.

Por enquanto, segundo Rezende, o setor se equilibra graças a MP (Medida Provisória) 936, que permite redução de jornada e salários, queda no preço do óleo diesel e acordo com os funcionários. “A participação por produtividade deveria ser paga em 20 de maio, mas conseguimos com a categoria que fosse parcelada em quatro vezes”.

Desde março, o transporte coletivo urbano enfrenta restrições. Primeiro foi a suspensão parcial, com acesso liberado apenas para funcionários da Saúde e segurança. As medidas foram sendo flexibilizadas, mas seguem bloqueadas as gratuidades para idosos e também não há circulação de estudantes.

A prefeitura determinou que todos os passageiros utilizem máscaras e permite somente sete pessoas em pé nos  ônibus. O consórcio chegou a pedir à Justiça que a administração municipal fosse obrigada a apresentar um plano de socorro financeiro.

De acordo com Rezende, um documento elaborado pela NTU (Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano), que mostra os impactos do novo coronavírus no setor, foi entregue em mãos ao prefeito Marquinhos Trad (PSD), como também levado aos vereadores e ao Ministério Público.

Segundo ele, não se trata de uma ameaça, mas da necessidade de alertar que o colapso se aproxima do setor, “muito marginalizado”. O Consórcio Guaicurus não quantificou o valor que precisa para ganhar fôlego  e aguarda aceno de socorro do poder público.

João Rezende faz alerta sobre colapso no transporte a partir de agosto. (Foto: Marcos Maluf)
João Rezende faz alerta sobre colapso no transporte a partir de agosto. (Foto: Marcos Maluf)

“Mês de agosto, realmente, é perigoso para nós. O empresário está ameaçando? Longe disso. Parece que não querem enxergar a realidade. O prefeito está sempre à disposição de nos receber, mas na prática é só isso. Nos recebe sempre de maneira educada e fala que não tem recursos”, afirma.

O Consórcio Guaicurus emprega 1.500 pessoas. Do total, 180 estão afastados por ser de grupo de risco para a covid-19 e nenhum dos funcionários foi infectado. Desde fevereiro, o faturamento do grupo está em queda. Em fevereiro, foram R$ 13 milhões. Total que caiu para R$ 9 milhões em março e encerrou abril em R$ 4,5 milhões.

As planilhas foram levadas ao procurador Aroldo José de Lima, coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça Cíveis, do Consumidor e do Idoso. Atualmente, a documentação está em análise na força-tarefa criada para dar resolução a problemas advindos da pandemia do novo coronavírus.

A reportagem também solicitou informações à prefeitura de Campo Grande, mas não obteve retorno até a publicação da matéria.

Compra antecipada – Diretor administrativo da Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano, Marcos Bicalho dos Santos, afirma que o setor pressiona o Congresso Nacional em busca de ajuda.

A proposta é que o governo federal faça um compra antecipada de créditos, com média de 300 milhões de passagens por mês para serem destinadas a cadastrados em programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e também os beneficiados pelo auxílio emergencial de R$ 600.

“A nossa realidade é que a grande maioria das empresas é pequena ou média. Sem fôlego para suportar uma situação dessa. Na medida que a demanda cai de forma violenta e você não tem receita, é natural que esse desequilíbrio aconteça”, afirma Bicalho ao Campo Grande News.

O diretor explica que nem a paralisia total do transporte urbano, como adotado em Santa Catarina, livrou os empresários de prejuízo, pois é preciso pagar os funcionários. O setor, que gera 450 mil empregos em todo País, tem déficit mensal de R$ 1,2 bilhão.

Campo Grande News - Conteúdo de Verdade