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Capital

Para o Gaeco, milícia foi criada a partir da estrutura do jogo do bicho

Suspeitos de integrar organização criminosa atuam há uma década e são apontados como responsáveis por ao menos 7 mortes recentes

Por Marta Ferreira, Adriano Fernandes e Geisy Garnes | 30/09/2019 22:38
Trecho do pedido de prisão feito pelo Gaeco para suspeitos de integrar organização criminosa. (Foto: Reprodução do processo)
Trecho do pedido de prisão feito pelo Gaeco para suspeitos de integrar organização criminosa. (Foto: Reprodução do processo)

A organização criminosa especializada em execuções de desafetos da família Name, em negócios e em questões pessoais, agiu por pelo menos uma década em Campo Grande e foi criada usando a experiência da família no comando de jogos de azar na cidade, especialmente o jogo do bicho, conclui o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) na investigação que resultou na Operação Omertà.

A ação prendeu na sexta-feira (27) o patriarca da família, Jamil Name, 80 anos, o filho dele, Jamil Name Filho, 42, além de outras 18 pessoas, entre policiais civis, guardas civis municipais, um policial federal e funcionários dos Name. Há ainda, dois foragidos, apontados como pistoleiros do grupo.

A manifestação do Gaeco pedindo a prisão de todas essas pessoas e a realização de buscas em 21 endereços ligados à organização criminosa cita logo em seus primeiros trechos a exploração dos jogos de azar pelo empresário que, oficialmente, se declara como pecuarista. Os quatro promotores responsáveis pela peça, de mais de 300 páginas, afirmam ser “fato público e notório a ligação da família com a exploração de jogos de azar, em especial com o jogo do bicho, mercado ilegal no qual atua há anos”.

Em outra página está escrito, sobre os suspeitos, que “valendo-se da estrutura organizacional utilizada para manter o jogo do bicho, criaram unidade de pessoas que gozavam de ‘expertisse’ e de um grau maior de confiança, para praticar uma série de homicídios em Mato Grosso do Sul, principalmente na Capital”.

Os promotores citam, também, o fato de Jamil Name Filho ter sido preso em operação da Polícia Federal, em 2007, contra a máfia da jogatina, a Xeque-Mate.

Vítimas - Farto em imagens e transcrições de conversas interceptadas, o documento cita mais cinco nomes de vítimas de execuções, além das mortes que deram início à força-tarefa do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assalto e Sequestro) para investigar a correlação entre as execuções do chefe de segurança da Assembleia Legislativa, Ilson Martins Figueiredo, 62 anos, do ex-segurança do traficante Jorge Rafaat, Orlando Silva Fernandes, o Bomba, de 41 anos, e do estudante Matheus Coutinho Xavier, assassinado por engano no lugar do pai, o policial Paulo Roberto Teixeira Xavier. Os crimes ocorreram entre junho do ano passado e abril deste ano.

As outras mortes são do empresário Marcel Hernandes Colombo, de 31 anos, executado em um bar na Fernando Corrêa da Costa, em outubro do ano passado, do delegado Paulo Magalhães, assassinado em 2013, quando buscava a filha na escola, do policial Humberto Aparecido Rolon, vítima de execução no ano de 2011 e ainda do empresário Cláudio da Silva Simeão, que levou 13 tiros de pistola 9mm, em novembro do ano passado.

Na lista, ainda está citada a execução de Andrey Galileu Cunha, de 31 anos. Ele foi morto em 2012 com um tiro no pescoço, quando estava no banco do passageiro do Siena guiado por Pedro Lauro de Castro Gonçalves, na Rua Rio Grande do Sul, próximo da Escola Adventista. Andrey foi preso pelo menos 4 vezes em menos de dois anos por envolvimento com jogos de azar. Uma das prisões foi em 2007, na Xeque-Mate. 

A conclusão dos promotores, a partir da investigação policial, é de que o “escritório de pistolagem” tinha caraterísticas de milícia armada, com grande força bélica, demonstrando pela apreensão de arsenal com o ex-guarda civil Marcelo Rios, em maio, logo depois da criação da força-tarefa. As armas estavam em imóvel que pertence a Jamil Name. Rios seria transferido para a penitenciária de segurança máxima de Mossoró (RN).

As investigações, com o uso de intercepções telefônicas, apontam Jamil Name, cujo apelido citado no texto é "Velho", e Jamil Name Filho, também chamado de "Jamilzinho" e "Guri", como os comandantes do grupo de extermínio e responsáveis por garantir a estrutura, desde armas e veículos até proteção. Dividido em quatro núcleos, o grupo é apontado como altamente organizado, com direito a organograma explicitado na peça processual.

Com esse pedido, o Gaeco convenceu a Justiça a determinar 23 prisões e 21 buscas. São 10 prisões preventivas, ou seja, sem prazo, e 13 temporárias, pelo período de 30 dias. Uma das prisões temporárias, do advogado Alexandre Franzolozo, suspeito de coagir testemunha, foi revogada pelo Tribunal de Justiça, a pedido da Ordem dos Advogados do Brasil.

Conforme escrito no documento o objetivo é, além de assegurar a conclusão das investigações, impedir que a organização coloque em risco testemunhas, pois há relatos de ameaças a pelo menos duas delas, a mulher do guarda civil Marcelo Rios, que revelou várias informações, e a filha de um dos pistoleiros do grupo.

A estrutura da organização criminosa, conforme a investigação policial. (Foto: Reprodução do processo)
A estrutura da organização criminosa, conforme a investigação policial. (Foto: Reprodução do processo)

Prazo – Até agora, os pedidos de habeas corpus não foram atendidos pelo Judiciário. Conforme a reportagem apurou, o Gaeco tem 10 dias para apresentar a denúncia formal contra os envolvidos, por se tratarem de pessoas presas. Esse prazo termina no dia 9 de outubro.

Ainda não está claro como o Gaeco vai proceder contra as denúncias, se fará tudo em um processo só ou se vai desmembrar, por exemplo, as acusações contra os homens apontados como os dois pistoleiros do grupo, os ex-guardas municipais Juanil Miranda Lima, e José Moreira Freires, esse último condenado como o atirador que executou o delegado Paulo Magalhães.

As 23 pessoas relacionadas como ligadas à organização, pelas provas apuradas até então, são suspeitas dos crimes de organização criminosa, porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, homicídios e outros crimes, como agiotagem.

Nomes - Foram alvo de mandados de prisão preventiva os guardas municipais Alcinei Arantes da Silva, Marcelo Rios, Rafael Antunes Vieira e Robert Vítor Kopetski, o militar reformado do Exército Andrison Correia, os pistoleiros José Moreira Freires e Juanil Miranda Lima, os policiais civis Vladenilson Daniel Olmedo e Márcio Cavalcanti Da Silva, Eltom Pedro de Almeida e Flávio Narciso Morais da Silva, além de Jamil Name e de Jamil Name Filho.

Foram alvos de pedido de prisão temporária o advogado Alexandre Gonçalves Franzoloso (revogada), os policiais civis Elvis Elir Camargo Lima e Frederico Maldonado Arruda, os guardas municipais Igor Cunha de Souza, Rafael Carmo Peixoto Ribeiro, Eronaldo Vieira Da Silva, o policial federal Everaldo Monteiro de Assis, além de Euzébio de Jesus Araújo, Luis Fernando Da Fonseca e Rudney Machado Medeiros.

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