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Capital

“Perplexa” com soltura de médico, família diz que “nome” não pode superar a lei

Parentes da fisioterapeuta afirmam que prestígio social, patrimônio ou sobrenome não podem influenciar Justiça

Por Anahi Zurutuza | 21/08/2026 16:41
“Perplexa” com soltura de médico, família diz que “nome” não pode superar a lei
Fabíola Marcotti, que foi encontrada morta no dia 18 de maio deste ano (Foto: Arquivo de família)

A família de Fabíola Marcotti afirmou ter recebido com "profundo inconformismo e indignação" a decisão que colocou em liberdade o médico cardiologista João Jazbik Neto, investigado pela morte dela. Os irmãos da fisioterapeuta questionam se fatores como profissão, patrimônio e prestígio social podem gerar tratamentos diferentes no sistema de Justiça.

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A família de Fabíola Marcotti manifestou "profundo inconformismo e indignação" com a decisão do TJMS que colocou em liberdade o médico João Jazbik Neto, investigado pela morte da fisioterapeuta, ocorrida em maio em Campo Grande (MS). Em nota, os familiares questionam se profissão, patrimônio e prestígio social geram tratamentos distintos na Justiça, e destacam que a soltura ocorreu sem monitoramento eletrônico, ao contrário de decisão anterior.

Em nota divulgada nesta sexta-feira (21), os familiares afirmaram que respeitam a decisão judicial e o direito de defesa, mas disseram que discordam do entendimento que permitiu a soltura do investigado. "Respeitar uma decisão judicial não significa concordar com ela. E a família não concorda", diz o documento.

O caso ganhou novo capítulo após o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) determinar a soltura do médico, na tarde desta quinta-feira (20), seis dias depois que havia sido preso pela segunda vez durante a investigação. A família questiona principalmente o fato de ele ter deixado a prisão sem monitoramento eletrônico. Segundo a nota, em decisão anterior, a liberdade havia sido concedida com diversas medidas cautelares, incluindo tornozeleira eletrônica.

"Família não ignora que o investigado é médico, possui elevada condição econômica, significativa inserção social e trajetória de reconhecimento institucional", afirma o texto. Os familiares ressaltam, porém, que não estão dizendo que esses fatores determinaram a decisão judicial. A crítica, segundo eles, é sobre a percepção de igualdade no tratamento.

"É legítimo questionar se o sistema de Justiça consegue transmitir à sociedade a mesma sensação de igualdade quando julga pessoas de realidades sociais tão diferentes", diz a nota.

Na sequência, afirmam: "Justiça não precisa apenas ser imparcial. Precisa também transmitir à sociedade a segurança de que profissão, patrimônio, prestígio, sobrenome ou proximidade com instituições não produzem pesos diferentes na aplicação da lei".

“Perplexa” com soltura de médico, família diz que “nome” não pode superar a lei
João Jazbik, marido da vítima, dentro casa onde caso aconteceu (Foto: Campo Grande News/Arquivo)

Cronologia – Fabíola Marcotti, de 51 anos, foi encontrada morta no dia 18 de maio. Inicialmente, a hipótese apresentada era de suicídio, mas a investigação avançou após análises periciais e coleta de elementos técnicos.

Segundo a nota da família, os peritos descartaram a hipótese de suicídio e apontaram alterações no local e nos objetos. O texto também cita que a decisão que decretou a prisão preventiva considerou elementos como laudo de local do crime, laudo necroscópico e indícios de autoria.

Ainda conforme a manifestação, a investigação apontou possível retirada de um móvel com armas e munições do quarto onde ocorreu o fato, material que teria sido encontrado posteriormente pela polícia.

A família destaca que a prisão não ocorreu imediatamente porque, segundo a própria decisão judicial citada na nota, foi necessário que a investigação evoluísse até que a versão de suicídio fosse tecnicamente afastada. "Primeiro houve uma versão de suicídio. Depois houve investigação. Depois vieram as perícias. Depois os vestígios foram confrontados. E somente então a Polícia Civil concluiu pelo feminicídio e a prisão preventiva foi submetida ao Poder Judiciário".

23 mulheres mortas em MS - A manifestação da família ocorre em meio à explosão nos casos de feminicídio em Mato Grosso do Sul. O Estado chegou ao 23º caso em 2026 após a morte de Fátima Alves de Matos, de 54 anos, em Costa Rica, nesta quinta-feira (20). O namorado dela, Rubens Alves Justino, de 54 anos, foi preso suspeito do crime.

Jazbik seria um único indiciado por feminicídio em liberdade atualmente. “Quando se tem notícia de tantos feminicídios e este caso surge como exceção no tratamento cautelar, a família tem o direito de sentir perplexidade”, também diz a nota assinada pelo advogado Márcio Almeida, que representa os familiares de Fabíola.

Defesa e prova técnica – A família também fez questão de dizer que a defesa do médico tem direito de apresentar sua versão, mas afirmou que os argumentos precisarão ser confrontados com os elementos técnicos da investigação. "A defesa pode apresentar cartas, gravações, documentos e sustentar a versão que entender adequada. É seu direito. Mas qualquer versão terá que enfrentar a prova técnica", afirma a nota.

Em um dos trechos mais contundentes, os irmãos citam a importância da perícia para a apuração do caso: "Uma anotação pode revelar determinado estado emocional. Uma anotação não altera as leis da física. Não modifica trajetória de projétil. Não altera lesões. Não apaga vestígios materiais. Não muda o cenário encontrado pela perícia. E não substitui medicina legal, criminalística ou balística".

A família encerra a manifestação afirmando que não busca condenação antecipada, mas pretende continuar questionando o que considera uma decisão injusta. "A família não busca vingança. Não pede condenação antecipada. Não pretende substituir o Ministério Público ou o Poder Judiciário. Mas não aceitará que respeito às instituições seja confundido com silêncio diante daquilo que considera injusto."

O caso – Fabíola morreu dentro da chácara onde vivia com o marido, o médico João Jazbik Neto, na região da Chácara dos Poderes, em Campo Grande. Na época, João acionou o socorro e informou que a esposa teria tirado a própria vida. No mesmo dia, ele foi preso por posse irregular de armas e suspeita de fraude processual após a investigação apontar que um armário com armas e munições teria sido retirado da residência principal e levado para outro imóvel da propriedade.

Durante a apuração, a Polícia Civil identificou divergências entre a versão inicial e os elementos encontrados pela perícia. Em julho, laudo necroscópico apontou que o disparo não teria ocorrido com a arma encostada ou muito próxima da cabeça da vítima e registrou hematomas em diferentes partes do corpo. Com o avanço das investigações, a hipótese de feminicídio passou a ser investigada pela Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).

Em 14 de agosto, João voltou a ser preso preventivamente no inquérito que apura diretamente a morte da fisioterapeuta. Dias depois, a Polícia Civil concluiu o inquérito apontando que laudos do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico-Legal afastaram a hipótese de suicídio e indicaram morte em contexto de violência doméstica e familiar. A defesa negou as acusações e classificou a prisão como "descabida".