“Perplexa” com soltura de médico, família diz que “nome” não pode superar a lei
Parentes da fisioterapeuta afirmam que prestígio social, patrimônio ou sobrenome não podem influenciar Justiça
A família de Fabíola Marcotti afirmou ter recebido com "profundo inconformismo e indignação" a decisão que colocou em liberdade o médico cardiologista João Jazbik Neto, investigado pela morte dela. Os irmãos da fisioterapeuta questionam se fatores como profissão, patrimônio e prestígio social podem gerar tratamentos diferentes no sistema de Justiça.
RESUMO
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A família de Fabíola Marcotti manifestou "profundo inconformismo e indignação" com a decisão do TJMS que colocou em liberdade o médico João Jazbik Neto, investigado pela morte da fisioterapeuta, ocorrida em maio em Campo Grande (MS). Em nota, os familiares questionam se profissão, patrimônio e prestígio social geram tratamentos distintos na Justiça, e destacam que a soltura ocorreu sem monitoramento eletrônico, ao contrário de decisão anterior.
Em nota divulgada nesta sexta-feira (21), os familiares afirmaram que respeitam a decisão judicial e o direito de defesa, mas disseram que discordam do entendimento que permitiu a soltura do investigado. "Respeitar uma decisão judicial não significa concordar com ela. E a família não concorda", diz o documento.
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O caso ganhou novo capítulo após o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) determinar a soltura do médico, na tarde desta quinta-feira (20), seis dias depois que havia sido preso pela segunda vez durante a investigação. A família questiona principalmente o fato de ele ter deixado a prisão sem monitoramento eletrônico. Segundo a nota, em decisão anterior, a liberdade havia sido concedida com diversas medidas cautelares, incluindo tornozeleira eletrônica.
"Família não ignora que o investigado é médico, possui elevada condição econômica, significativa inserção social e trajetória de reconhecimento institucional", afirma o texto. Os familiares ressaltam, porém, que não estão dizendo que esses fatores determinaram a decisão judicial. A crítica, segundo eles, é sobre a percepção de igualdade no tratamento.
"É legítimo questionar se o sistema de Justiça consegue transmitir à sociedade a mesma sensação de igualdade quando julga pessoas de realidades sociais tão diferentes", diz a nota.
Na sequência, afirmam: "Justiça não precisa apenas ser imparcial. Precisa também transmitir à sociedade a segurança de que profissão, patrimônio, prestígio, sobrenome ou proximidade com instituições não produzem pesos diferentes na aplicação da lei".
Cronologia – Fabíola Marcotti, de 51 anos, foi encontrada morta no dia 18 de maio. Inicialmente, a hipótese apresentada era de suicídio, mas a investigação avançou após análises periciais e coleta de elementos técnicos.
Segundo a nota da família, os peritos descartaram a hipótese de suicídio e apontaram alterações no local e nos objetos. O texto também cita que a decisão que decretou a prisão preventiva considerou elementos como laudo de local do crime, laudo necroscópico e indícios de autoria.
Ainda conforme a manifestação, a investigação apontou possível retirada de um móvel com armas e munições do quarto onde ocorreu o fato, material que teria sido encontrado posteriormente pela polícia.
A família destaca que a prisão não ocorreu imediatamente porque, segundo a própria decisão judicial citada na nota, foi necessário que a investigação evoluísse até que a versão de suicídio fosse tecnicamente afastada. "Primeiro houve uma versão de suicídio. Depois houve investigação. Depois vieram as perícias. Depois os vestígios foram confrontados. E somente então a Polícia Civil concluiu pelo feminicídio e a prisão preventiva foi submetida ao Poder Judiciário".
23 mulheres mortas em MS - A manifestação da família ocorre em meio à explosão nos casos de feminicídio em Mato Grosso do Sul. O Estado chegou ao 23º caso em 2026 após a morte de Fátima Alves de Matos, de 54 anos, em Costa Rica, nesta quinta-feira (20). O namorado dela, Rubens Alves Justino, de 54 anos, foi preso suspeito do crime.
Jazbik seria um único indiciado por feminicídio em liberdade atualmente. “Quando se tem notícia de tantos feminicídios e este caso surge como exceção no tratamento cautelar, a família tem o direito de sentir perplexidade”, também diz a nota assinada pelo advogado Márcio Almeida, que representa os familiares de Fabíola.
Defesa e prova técnica – A família também fez questão de dizer que a defesa do médico tem direito de apresentar sua versão, mas afirmou que os argumentos precisarão ser confrontados com os elementos técnicos da investigação. "A defesa pode apresentar cartas, gravações, documentos e sustentar a versão que entender adequada. É seu direito. Mas qualquer versão terá que enfrentar a prova técnica", afirma a nota.
Em um dos trechos mais contundentes, os irmãos citam a importância da perícia para a apuração do caso: "Uma anotação pode revelar determinado estado emocional. Uma anotação não altera as leis da física. Não modifica trajetória de projétil. Não altera lesões. Não apaga vestígios materiais. Não muda o cenário encontrado pela perícia. E não substitui medicina legal, criminalística ou balística".
A família encerra a manifestação afirmando que não busca condenação antecipada, mas pretende continuar questionando o que considera uma decisão injusta. "A família não busca vingança. Não pede condenação antecipada. Não pretende substituir o Ministério Público ou o Poder Judiciário. Mas não aceitará que respeito às instituições seja confundido com silêncio diante daquilo que considera injusto."
O caso – Fabíola morreu dentro da chácara onde vivia com o marido, o médico João Jazbik Neto, na região da Chácara dos Poderes, em Campo Grande. Na época, João acionou o socorro e informou que a esposa teria tirado a própria vida. No mesmo dia, ele foi preso por posse irregular de armas e suspeita de fraude processual após a investigação apontar que um armário com armas e munições teria sido retirado da residência principal e levado para outro imóvel da propriedade.
Durante a apuração, a Polícia Civil identificou divergências entre a versão inicial e os elementos encontrados pela perícia. Em julho, laudo necroscópico apontou que o disparo não teria ocorrido com a arma encostada ou muito próxima da cabeça da vítima e registrou hematomas em diferentes partes do corpo. Com o avanço das investigações, a hipótese de feminicídio passou a ser investigada pela Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).
Em 14 de agosto, João voltou a ser preso preventivamente no inquérito que apura diretamente a morte da fisioterapeuta. Dias depois, a Polícia Civil concluiu o inquérito apontando que laudos do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico-Legal afastaram a hipótese de suicídio e indicaram morte em contexto de violência doméstica e familiar. A defesa negou as acusações e classificou a prisão como "descabida".



