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Prefeitura cobra posse do Autódromo para tirar do papel complexo de eventos

Município cita "abandono" do local e afirma que espaço já deveria estar em seu patrimônio

Por Jhefferson Gamarra | 31/08/2026 13:37
Prefeitura cobra posse do Autódromo para tirar do papel complexo de eventos
Área de boxes do Autódromo Internacional de Campo Grande (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

A Prefeitura de Campo Grande pediu à Justiça que determine a devolução do Autódromo Internacional de Campo Grande ao Município e autorize a imissão na posse do espaço. A manifestação foi apresentada no processo que envolve a Prefeitura e o Autódromo Internacional de Campo Grande Ltda., atualmente relacionado à massa falida, após a conclusão dos recursos que vinham impedindo o avanço da execução da decisão judicial.

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A Prefeitura de Campo Grande pediu à Justiça a devolução do Autódromo Internacional de Campo Grande ao município após o STJ rejeitar, em junho, o último recurso da empresa concessionária. O contrato, firmado em 1998, foi rescindido judicialmente em 2009 por culpa da concessionária. A prefeitura, que diz ter investido R$ 30 milhões, planeja transformar o espaço em complexo multifuncional de eventos.

O Município sustenta que o autódromo permanece indevidamente sob posse privada, apesar de uma decisão judicial transitada em julgado ter determinado a rescisão do contrato de concessão por culpa exclusiva da empresa. A Prefeitura também argumenta que o prazo de 20 anos previsto originalmente no contrato já terminou e que, portanto, não haveria fundamento para a continuidade da posse privada.

O pedido, protocolado em maio deste ano, ainda não foi analisado pela Justiça. A parte ligada ao autódromo deverá se manifestar antes de uma decisão sobre a solicitação.

Segundo a Prefeitura, o contrato de concessão foi assinado em 14 de abril de 1998 e previa que, ao final de 20 anos, o Autódromo Internacional de Campo Grande passaria a ser propriedade do Município. Além disso, o contrato acabou rescindido judicialmente por culpa exclusiva da concessionária em decisão que transitou em julgado em 13 de janeiro de 2009.

A manifestação municipal lembra que a empresa havia ingressado com ação para rescindir o contrato e obter indenização por perdas e danos. O pedido foi rejeitado, enquanto a reconvenção apresentada pelo Município foi acolhida em razão do descumprimento de obrigações contratuais, entre elas o pagamento de contraprestação sobre a receita obtida com a exploração do espaço e o recolhimento de tributos.

Prefeitura diz que autódromo deveria estar em sua posse - A discussão ganhou novo capitulo após o STJ (Superior Tribunal de Justiça) rejeitar, em junho, o último recurso apresentado pelo Autódromo no caso. A Corte Especial negou, por unanimidade, agravo interno contra a decisão que havia barrado o Recurso Extraordinário apresentado pela empresa. O julgamento ocorreu entre 17 e 23 de junho de 2026, com publicação em 29 de junho.

Na avaliação do Município, com o encerramento das possibilidades recursais e a negativa de efeito suspensivo ao recurso apresentado pela empresa, não haveria mais motivo para manter suspenso o cumprimento da decisão.

A Prefeitura pede, por isso, que o processo tenha prosseguimento, com a expedição de ofício ao Cartório de Registro de Imóveis, a incorporação definitiva do bem ao patrimônio público e a imissão do Município na posse do autódromo.

A argumentação se apoia também em decisão anterior do próprio STJ. No julgamento da Reclamação nº 43.585/MS, o ministro Herman Benjamin afirmou que a rescisão do contrato acarretava a incorporação do imóvel ao patrimônio público. A decisão destacou que o imóvel onde está instalado o autódromo já deveria estar na posse do Município.

O entendimento foi mantido no julgamento mais recente. O STJ esclareceu que uma decisão anterior havia suspendido apenas a implementação imediata das medidas executivas, permitindo à parte executada apresentar defesa no cumprimento da sentença. Segundo a Corte, isso não significou a interrupção de toda a execução.

Prefeitura cobra posse do Autódromo para tirar do papel complexo de eventos
Sangue na pista do autódromo após acidente como morte em evento clandestino em 2024 (Foto: Divulgação/PCMS)

Município cita falta de manutenção e fiscalização - Além da questão jurídica, a Prefeitura usa as condições atuais do autódromo como argumento para pedir que a posse seja efetivamente transferida.

Na manifestação, o Município afirma que o espaço está sendo mantido de forma inadequada e que a falta de fiscalização teria permitido a realização de eventos clandestinos. O documento cita reportagens sobre problemas no local, inclusive episódios relacionados à segurança e à morte de um motociclista durante manobras no autódromo.

A Prefeitura também menciona a cassação de certificado para realização de eventos após acidente fatal e relatos de eventos sem alvará e sem estrutura de segurança. O documento ainda cita manifestações do presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, Giovanni Guerra, em matéria publicada pelo Campo Grande News durante a abertura da temporada 2025 da Copa Truck, quando ele criticou o estado do autódromo e lamentou a falta de competições no local.

Na avaliação apresentada à Justiça, o Município afirma que a situação permite que a empresa continue obtendo receitas com eventos realizados em um imóvel que, segundo a tese municipal, já deveria integrar o patrimônio público. A Prefeitura sustenta ainda que a permanência da posse privada acaba atrasando a execução de políticas públicas planejadas para a área.

Prefeitura diz já ter investido cerca de R$ 30 milhões - Outro argumento apresentado é o interesse do Município em dar uma nova utilização ao espaço. Na petição, a Prefeitura afirma já ter investido aproximadamente R$ 30 milhões e ter planos para transformar o autódromo em um complexo multifuncional de eventos.

A proposta também aparece no plano de governo da prefeita Adriane Lopes (PP) para a gestão 2025-2028. A ideia apresentada durante a campanha é manter a estrutura existente do Autódromo Internacional de Campo Grande “Orlando Moura” e criar, em área adjacente, um complexo multifuncional com centro de eventos destinado a feiras, exposições, shows, eventos corporativos e atividades esportivas.

O plano prevê ainda a busca por parcerias público-privadas para investimentos, melhorias nos acessos e integração do complexo ao roteiro turístico de Campo Grande. A proposta também menciona práticas sustentáveis e tem como objetivos ampliar a utilização do espaço, fomentar o desenvolvimento econômico, estimular cultura e esporte e contribuir para a sustentabilidade urbana.

A Prefeitura argumenta no processo que a manutenção da posse pelo grupo privado posterga justamente essas políticas públicas.

Prefeitura cobra posse do Autódromo para tirar do papel complexo de eventos
Etapa da Copa Truck realizada em 2024 em Campo Grande (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

Disputa já dura mais de duas décadas - A origem da disputa remonta ao contrato firmado em 1998 para concessão do direito real de uso de cinco áreas municipais. A empresa buscou judicialmente a rescisão do contrato e indenização, mas perdeu a ação. O Município, por sua vez, obteve decisão favorável em reconvenção, com a rescisão sendo atribuída à própria concessionária.

A decisão transitou em julgado em 2009. Posteriormente, o Município iniciou a execução para cobrar os valores devidos e obter a reversão dos bens e a incorporação das construções e benfeitorias ao patrimônio público.

Em uma das etapas do processo, o STJ determinou que fossem suspensas as medidas executivas imediatas para garantir à parte executada o direito de apresentar defesa no cumprimento da sentença. Na sequência, porém, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul havia determinado a anulação da averbação da incorporação do imóvel ao patrimônio público e a reintegração da posse em favor do autódromo.

O STJ considerou que essa decisão havia extrapolado o que fora determinado anteriormente e cassou esse trecho. A Corte deixou claro que a determinação anterior não havia interrompido a execução como um todo e que a suspensão dizia respeito à expedição dos mandados de imissão na posse.

Na decisão mais recente, o STJ voltou a registrar que o Autódromo Internacional de Campo Grande permanece na posse direta do imóvel, mas que existe decisão transitada em julgado determinando a rescisão do contrato por culpa exclusiva da empresa e que a rescisão acarreta a incorporação do imóvel ao patrimônio público.

Agora, a Prefeitura tenta transformar esse entendimento em posse efetiva. O pedido feito em maio ainda aguarda análise do Judiciário, e a parte responsável pelo autódromo deverá se manifestar antes que o juiz decida se determina a incorporação definitiva e a entrega do espaço ao Município.