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Capital

Relatos de moradoes de rua denunciam maus-tratos no Cetremi

Por Viviane Oliveira | 14/03/2012 10:57

Entre os que frequentam o lugar, não é difícil encontrar reclamações, de abuso de autoridades por parte de alguns funcionários do Cetremi e de guardas municipais

A maioria dos moradores de rua perderam família, emprego e a dignidade por conta da dependência química. (Fotos: Marlon Ganassin)
A maioria dos moradores de rua perderam família, emprego e a dignidade por conta da dependência química. (Fotos: Marlon Ganassin)

Era para ser um centro de auxílio e "resgate" para quem já está em uma situação dificíl, a de viver na rua. Mas relatos ouvidos pelo Campo Grande News sobre o Cetremi (Centro de Triagem do Migrante), revelam que, ali, frequentadores sofrem violência, maus-tratos e humilhação. A maior parte deles é dependente de droga, seja o álcool, legalizado, ou os vários tipos de entorpecentes ilegais, como crack e pasta-base de cocaína.

Dos testemunhos ouvidos, a reportagem do Campo Grande News apurou que ocorrem excessos na hora da "repressão", quase como um reflexo ao problema que hoje está em todos os cantos, o abuso das drogas.

Há, também, testemunhos no sentido contrário, como uma moça que diz ter tido ajuda ali para se recuperar e um outro que afirma que só tem problema quem não cumpre as regras.

Mas entre os que frequentam o lugar, não é difícil encontrar reclamações - feitas em geral com a garantia de que ninguém vai falar nomes - de abuso de autoridades por parte de alguns funcionários do Cetremi e de guardas municipais.

“Os guardas são ruins. Se tiver alguém com cheiro de pinga eles batem, não importa se tem problema mental ou se é velho”, contou um abrigado no local. Ele admite ser dependente de pasta-base de cocaína há 20 anos.

O rapaz afirma que a casa deve, sim, ter regras rígidas, principalmente por acolher, em maioria, dependentes químicos, mas diz que "alguns exageram e abusam da autoridade".

Antônio Marcos Silva, 36 anos, que aguarda uma passagem para voltar ao Mato Grosso, diz que "isso" acontece porque as pessoas não têm disciplina e não gostam de cumprir regras. “Se você fizer tudo certinho, não tem problema nenhum. O duro que esses caras [dependentes químicos] são folgados”, afirma Antônio. Ele também é usuário de drogas, há 16 anos.

“Aqui nós somos tratados igual cachorro”, resume um rapaz de 20 anos, que há 3 anos é usuário de crack. Ele disse que as pessoas são maltratadas, mas que não pode reclamar porque é a única opção que tem.

Com medo de dar entrevista, outro morador de rua de 28 anos conta que bem ou mal a casa serve de abrigo para quem faz da rua uma morada. “Esta casa é tudo que eu tenho hoje na vida”, lamenta.

O Campo Grande News entrevistou sete abrigados, destes, quatro dizem ter sofrido ou visto guardas municipais agredirem pessoas. “Não precisa bater, humilhar. Se pegar fazendo coisa errada manda ir embora”, destaca outro dependente químico.

Com a mesma história de vida, mas com uma opinião diferente, Vanessa do Carmo, 43 anos, diz ter sido dependente por 15 anos e, hoje, conta que está livre das drogas. Ela ficou no centro 15 dias e hoje aguarda uma passagem para voltar para Belo Horizonte (MG). “Vim para a cidade e fiz tratamento durante seis meses em uma clinica evangélica, só tenho a agradecer o apoio que tive do Cetremi”, relata.

Dependente de crack há 15 anos, Vanessa do Carmo, 43 anos, conta que está livre das drogas. Ela ficou no centro 15 dias e hoje aguarda uma passagem para voltar para Belo Horizonte (MG).
Dependente de crack há 15 anos, Vanessa do Carmo, 43 anos, conta que está livre das drogas. Ela ficou no centro 15 dias e hoje aguarda uma passagem para voltar para Belo Horizonte (MG).

Outro lado - A titular da SAS (Secretaria Municipal de Políticas e Ações Sociais e Cidadania), Nilva Santos, disse que vai apurar se há abuso por parte dos guardas municipais no local. “Aqui é uma unidade que tem regras, mas nosso objetivo é acolher, proteger e não de maltratar”, afirma.

Segundo Nilva, o Cetremi acolhe pessoas temporariamente até serem inseridas no núcleo familiar, ou no caso do migrante, encaminhado à cidade de origem.

No caso de dependentes químicos, existe uma parceria entre a SAS (Secretaria de Assistência Social) e Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) para o tratamento clínico dos dependentes, realizados no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).

A secretaria explica que no segundo semestre do ano passado foi criado o Centro POP (Centro de Referência Especializada para Pessoas em Situação de Rua) – para atender a população de rua.

Centro POP é uma unidade do Cetremi que funciona no mesmo prédio. Lá tem assistência psicossocial para pessoas que usam a rua como moradia. O centro é composto por um educador, uma psicóloga, assistente social e um advogado.

“O atendimento abrange abordagem de rua, cuidados de higiene e alimentação, atendimento de saúde, triagem para identificar o que a pessoa precisa, investigação social e construção de um novo projeto de vida para reinserção”, destaca.

Conforme a secretaria, hoje é atendida no Centro POP 42 moradores de rua, a maioria homem, segundo a assistente social, desde quando começou o programa 20 abrigados já retomaram vinculo familiar.

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