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Capital

Se rede privada pode voltar, porque a pública não? Perguntam pais

Enquanto aulas na Reme continuam de forma remota, escolas particulares voltam com 50% da capacidade

Por Nyelder Rodrigues e Ana Paula Chuva | 24/02/2021 07:26
Mãe mostra atividades dos filhos, que são repassadas em grupos do WhatsApp; situação estaria prejudicando o aprendizado das crianças (Foto: Kisie Ainoã)
Mãe mostra atividades dos filhos, que são repassadas em grupos do WhatsApp; situação estaria prejudicando o aprendizado das crianças (Foto: Kisie Ainoã)

A volta às aulas presenciais em 2021 é, como quase tudo vem sendo recentemente no país, um debate que divide opiniões. Em Campo Grande, enquanto as atividades na rede pública municipal e estadual vão seguir à distância nesse primeiro semestre, a rede particular está liberada para receber até 50% dos alunos presencialmente.

O tratamento diferenciado entre as duas redes por parte do Poder Público deixou alguns pais perdidos na lógica das decisões. Porque na rede particular pode e na pública não?

A empresária de 34 anos Renata Ferreira Espíndola. Para ela, o retorno das atividades escolares presenciais são salutares e vão trazer benefícios para todas as crianças, afetadas pela pandemia.

"Creio que as crianças estarão em segurança. Eu mesmo não estou isolada dentro de casa e não vejo mal em voltarem, desde que sejam dentro das regras dispostas pelas autoridades em saúde. Se eu venho trabalhar, elas podem estudar", opina.

Renata, que tem filhas de dez e nove anos, respectivamente no quinto e quarto ano, vê que o ensino remoto traz problemas na aprendizagem. "Com a rede particular liberada, quem está na rede pública fica em maior desvantagem ainda em comparação aos demais", compara a empresária, que completa em seguida.

"É diferente ensinando em casa. Eles não assimilam como na escola. Então é ruim não voltar, sem contar que a gente precisa trabalhar e tem que ficar em cima com as tarefas deles. Fica bem difícil se não voltar", conclui.

Volta das aulas na rede particular em fevereiro. (Foto: Henrique Kawaminami)
Volta das aulas na rede particular em fevereiro. (Foto: Henrique Kawaminami)

O cabeleireiro Gilberto Trindade, de 43 anos, tinha a tranquilidade de trabalhar ao lado da escola dos filhos até março do ano passado. Agora, com o ensino remoto, a rotina virou de "cabeça pra baixo", conta. "Não dão sossego, porque ficam aqui no salão. Entendo, porque é difícil mesmo se compenetrar estudando pela internet. Já deu, é hora de retornar", defende.

Ele é um dos que não consegue entender a lógica entre escola privada e pública. "Ninguém está pensando nos alunos. Se estivesse, não tinham liberado nem as particulares. Qual a lógica. Tem gente que fala que é o uso do transporte público. Ai até entendo, mas no meu caso, as crianças vão a pé", diz.

Tratamento diferenciado - Quanto ao tratamento diferenciado dado às duas redes, o debate incide também nas competências de cada uma, alegam as secretarias. Enquanto a Reme (Rede Municipal de Ensino) compete diretamente à prefeitura, a rede particular é independente e sustentada pelo pagamento das mensalidades. Traduzindo, o que pesa não é a saúde, e sim o fator econômico.

Nesse período de pandemia e longe das salas de aula, as escolas de ensino infantil perderam centenas de alunos e, independente da faixa etária, tiveram de reduzir em 20% as mensalidades por conta das aulas remotas, gerando pressão econômica pressão sobre o poder público contra a perda de faturamento.

A reportagem questionou a prefeitura sobre os motivos da diferenciação e se a pressão econômica foi preponderante nessa decisão. A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Pública) respondeu o contato feito, mas não às perguntas realizadas.

Foi apenas respondido que o comportamento da covid-19 é acompanhado desde o início e que a deliberação sobre restrição ou flexibilização é amplamente debatida.

Alícia, com dois filhos em idade escolar, ainda tem receio e prefere que filhos fiquem em casa ao invés de irem para a escola nesse período de pandemia de covid-19 (Foto: Kisie Ainoã)
Alícia, com dois filhos em idade escolar, ainda tem receio e prefere que filhos fiquem em casa ao invés de irem para a escola nesse período de pandemia de covid-19 (Foto: Kisie Ainoã)

Já em contato feito pelo Campo Grande News, a titular da Semed (Secretaria Municipal de Educação), Elza Fernandes, não quis comentar sobre as atividades presenciais na rede privada, mas falou sobre as aulas nas escolas municipais.

"A Semed mantém a decisão em continuar com as aulas remotas por questões de saúde dos nossos profissionais, alunos e familiares, visto que a circulação do vírus ainda é acentuada na nossa cidade", explica a secretária.

A reportagem também entrou em contato com o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), que participou das conversas sobre a liberação das aulas, com a presença das promotoras Filomena Fluminhan e Vera Frost. Contudo, até o fechamento desse texto, o Campo Grande News não obteve nenhum retorno.

Decretos - Na edição do dia 4 de fevereiro deste ano do Diogrande (Diário Oficial de Campo Grande) a prefeitura trouxe decreto prorrogando a suspensão das aulas presenciais na Reme (Rede Municipal de Ensino) até o dia 1º de julho.

Com isso, ficou definido que durante todo o primeiro semestre de 2021 as aulas nas escolas municipais serão realizadas remotamente em razão da pandemia de covid-19 - as medidas começaram a ser tomadas em abril do ano passado.

Já as aulas nas escolas privadas estão liberadas tanto para cursos técnicos, pré-vestibulares, faculdades e escolas de ensino regular - Médio e Fundamental. O retorno às salas de aula são permitidos desde que obedecidas várias normas de biossegurança, além da limitação de 50% da capacidade total daqueles ambientes.

O decreto com tais regras foi publicado na edição desta terça-feira (23) do Diogrande e autoriza tal retorno para a partir do dia 8 de março, data que cairá em uma segunda-feira, daqui duas semanas. As aulas presenciais na rede privada já estão ocorrendo desde o fim do ano passado, também com limitações.

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