Suspeita de envenenamento trava liberação de corpo do "Barão do Tráfico"
Leonardo Dias de Mendonça morreu ontem; família aguarda autorização para traslado a Goiânia

Ana Cláudia Alves, advogada de “Barão do Tráfico”, afirma que precisa que algum médico assine o óbito para que o corpo de Leonardo Dias de Mendonça seja trasladado para Goiânia. O detento morreu nesta quinta-feira (20), em Campo Grande, após permanecer internado em estado grave na Santa Casa desde segunda-feira.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A família de Leonardo Dias de Mendonça, o "Barão do Tráfico", morto em Campo Grande na quinta-feira (20), enfrenta impasse burocrático para liberar o corpo. Divergências entre a Santa Casa, o SVO e o Imol impedem o traslado para Goiânia. A defesa cobra documentação que formalize eventual suspeita de envenenamento. Leonardo, de 63 anos, cumpria pena na Penitenciária Federal e foi condenado por tráfico internacional.
Segundo a advogada, desde a morte de Leonardo, a família enfrenta dificuldades para conseguir retirar o corpo e encaminhá-lo à funerária. O impasse envolve divergências entre orientações repassadas pela Santa Casa, o SVO (Serviço de Verificação de Óbito) e o Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal).
- Leia Também
- Ex-aliado de Beira-Mar, "Barão do Tráfico" passa mal em presídio e morre
- Agência antidrogas faz buscas por traficante brasileiro na fronteira
De acordo com Ana Cláudia, a Santa Casa inicialmente emitiu uma declaração determinando que o corpo fosse encaminhado ao SVO. O serviço, no entanto, teria informado que não poderia recebê-lo, já que Leonardo estava internado havia dias e apresentava um quadro de saúde comprometido. Diante da recusa, teria sido necessária a alteração do documento emitido pelo hospital.
Posteriormente, conforme a defesa, a Santa Casa informou por telefone e também diretamente à família que havia suspeita de envenenamento e que, por esse motivo, o corpo deveria ser encaminhado ao Imol para necropsia.
A defesa então solicitou um documento que formalizasse a suspeita. Segundo Ana Cláudia, a patologia do hospital emitiu uma nova declaração, mas o documento não traz qualquer menção a possível envenenamento.
A ausência dessa informação criou um novo entrave. Conforme relatado pela advogada, o Imol informou que, sem indicação de suspeita de envenenamento ou outro fundamento que justifique uma necropsia médico-legal, não teria atribuição para receber o corpo.
Nesta sexta-feira (21), o corpo deixou o hospital e foi encaminhado ao Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Cepol, enquanto a defesa tentava verificar a possibilidade de uma requisição formal de autoridade policial para o envio ao Imol. A advogada afirma, porém, que o próprio instituto já teria informado que, nas condições atuais e diante da documentação apresentada, não receberia o corpo.
A defesa cobra uma providência da Santa Casa para regularizar a documentação e definir o destino do corpo. Entre as possibilidades apontadas pela advogada estão a formalização da suspeita de envenenamento, caso ela efetivamente exista, ou a indicação de outro procedimento que permita a emissão dos documentos necessários para a liberação.
A família também aguarda uma definição sobre o que ocorrerá caso o Imol mantenha a recusa. A defesa questiona se a Santa Casa receberá novamente o corpo para adoção das medidas cabíveis ou se fará uma nova correção documental.
A Polícia Científica de Mato Grosso do Sul informou, via assessoria de imprensa que, "até o presente momento, não houve encaminhamento ao Imol de corpo acompanhado de requisição de exame necroscópico em nome de Leonardo Dias de Mendonça". "Dessa forma, até o momento, não há elementos no âmbito do Imol que permitam responder aos demais questionamentos relacionados ao caso", completa a nota.
O Campo Grande News entrou em contato com a Santa Casa de Campo Grande para solicitar esclarecimentos sobre o impasse envolvendo a liberação e o encaminhamento do corpo de Leonardo Dias de Mendonça. Até o momento, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.
Saiba mais - Leonardo Dias de Mendonça, de 63 anos, conhecido como “Barão do Tráfico”, cumpria pena na Penitenciária Federal de Campo Grande. O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) levou Leonardo Dias de Mendonça de ambulância à Santa Casa após ele apresentar problemas de saúde, e ele morreu durante a internação. A família pretende trasladar o corpo para Goiânia, em Goiás, onde ele mantinha vínculos familiares.
O histórico de Leonardo no crime remonta ao menos ao fim da década de 1990. Em janeiro de 2003, a Folha de S.Paulo noticiou que ele havia sido condenado a 23 anos e quatro meses de prisão por tráfico internacional de drogas. O processo tinha origem na apreensão de 327 quilos de cocaína encontrados pela PF em um avião, em Cocalinho, no Mato Grosso, em 1999. Segundo a reportagem, depoimentos colhidos durante a investigação apontavam Leonardo como líder do grupo.
Ainda conforme a Folha, registros telefônicos mostravam ligações feitas por Leonardo para Colômbia, Suriname e Peru dias antes da apreensão. À época, ele negava envolvimento com o tráfico, e a defesa afirmava que recorreria da condenação.
O “Barão do Tráfico” também ganhou projeção durante a Operação Diamante, investigação da PF sobre tráfico de drogas e suspeitas de compra de sentenças no Judiciário.
Anos depois, seu nome continuou associado pelas autoridades a grandes estruturas do narcotráfico internacional. Reportagem do UOL publicada em 2023 apontou Leonardo como ex-aliado de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que foi interno do presídio federal em Campo Grande por duas temporadas, sendo a segunda passagem entre setembro de 2019 e janeiro de 2024.
A mesma matéria registrou que ele já havia integrado a lista de procurados da Interpol e também foi investigado por suspeita de negociar cocaína com integrantes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em troca de dinheiro e armamentos no começo dos anos 2000.
Segundo o UOL, as investigações chegaram a apontar uma movimentação de cerca de 400 quilos de cocaína por mês nesse esquema.
Antes disso, em 2009, O Globo noticiou que Leonardo havia sido transferido da carceragem da PF em Goiânia para a Penitenciária Federal de Catanduvas (PR), no Paraná. Segundo o jornal, mesmo preso, ele comandava, por telefone celular, uma organização criminosa com ramificações no Suriname, Venezuela, Colômbia e Holanda. Naquele momento, acumulava condenações que somavam 39 anos de prisão.
Ainda de acordo com O Globo, a PF atribuía ao grupo comandado por Leonardo a movimentação de até quatro toneladas de drogas por ano. Na operação realizada naquele período, 59 pessoas foram presas em ações desencadeadas em nove estados e no Distrito Federal.
Leonardo também foi preso em 2013 e passou ao regime semiaberto, com tornozeleira eletrônica, em agosto de 2018. Em setembro do ano seguinte, voltou a ser preso durante uma operação da PF que investigava uma organização suspeita de usar pequenos aviões para transportar drogas e posteriormente enviar os entorpecentes para a Europa.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.

