Trabalhadores chegam na noite anterior para garantir senha em seleção do Primt
Fila extensa começou a ser formada ainda no domingo e atendimento teve início nesta manhã
A madrugada ainda nem tinha terminado quando a fila já dobrava a esquina do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) Canguru, em Campo Grande. A busca por uma das 60 senhas do Primt (Programa de Inclusão ao Mercado de Trabalho) começou bem antes do horário oficial de atendimento, marcado para esta segunda-feira (19), na unidade localizada no Jardim Canguru, região sul de Campo Grande.
RESUMO
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Moradores de Campo Grande formaram fila desde a noite anterior para garantir uma das 60 senhas do Programa de Inclusão ao Mercado de Trabalho (Primt), no CRAS Canguru, região sul da cidade. A primeira pessoa chegou às 18h do domingo, demonstrando a alta procura pela oportunidade. Entre os candidatos, ex-participantes do programa destacam a flexibilidade do Primt para conciliar trabalho e vida familiar. A iniciativa, antes centralizada na Funsat, agora está presente nos bairros, ampliando o acesso às oportunidades de emprego para a população local.
Teve gente que chegou às 18h do dia anterior. A auxiliar Iris Fernanda, de 33 anos, conhece bem o caminho. Ela não quis mostrar o rosto, mas conta que já participou de edições anteriores do programa e atuou na Funesp (Fundação Municipal de Esportes). Fora do Primt há cerca de cinco meses, decidiu não arriscar. “Tem quatro, cinco meses que eu saí do Primt. É a segunda vez que vou participar da seleção. Cheguei ontem às seis da noite. Nem vi nada, dormi naquela calçada a noite inteira. Moro no Paulo Coelho, mas vim antes pra garantir”, contou.
A história se repete no relato de Layz Martins Menezes, de 28 anos, mãe de duas crianças, uma delas atípica, de 9 anos. Ela foi a terceira pessoa da fila. Já trabalhou no Primt e também na Funesp, e afirma que o programa é o único emprego que conseguiu conciliar com a rotina dos filhos.
“O Primt é o único emprego que dá pra conciliar com meus filhos. Meu filho faz terapia, passa por psicopedagoga, fonoaudióloga. É o único trabalho que consegui até hoje pra cuidar da minha casa. Prefiro enfrentar a fila, vir seis horas da noite, porque é o único que me permite trabalhar e cuidar deles”, relatou.
A expectativa também era positiva para Rosalina da Glória de Oliveira, de 44 anos, que chegou por volta das 4h30. Ela nunca participou do Primt, mas viu a família inteira passar pelo programa.
“Não imaginei que teria tanta gente. Mas acho muito bom ter nos bairros. Antes o pessoal tinha que ir lá na Funsat (Fundação Social do Trabalho). Agora distribuir nos bairros dá mais oportunidade”, avaliou.
Rosalina contou ainda que estava aguardando o resultado de outro processo seletivo da prefeitura, mas decidiu não esperar. “Não saiu meu nome. Aí eu falei: vou no Primt. Nunca participei, mas minha filha já trabalhou, meu esposo também, meu sobrinho. Agora é minha vez.”
Para Marcia da Silva, coordenadora do CRAS do Canguru, a fila formada ainda de madrugada é um sinal claro de que o programa atinge seu objetivo central. Segundo ela, a grande procura superou a expectativa inicial, já que a divulgação foi feita apenas pelas redes sociais. “Quando cheguei e vi a fila dobrando o quarteirão, fiquei muito feliz. É para isso que a gente trabalha, para que as pessoas sejam empregadas e tenham o mínimo de dignidade. O Primt é um projeto maravilhoso porque não exige grau de escolaridade, garante salário, ajuda de custo e ainda insere a pessoa no mercado de trabalho”, afirmou.
A coordenadora também destacou que o programa vai além da vaga imediata. De acordo com Marcia, os participantes do Primt precisam se qualificar para permanecer no projeto, já que há oferta de cursos como parte do processo. No CRAS Canguru, considerado o maior de Campo Grande, a realidade de vulnerabilidade é diária. A unidade atende mais de 10 mil pessoas, em sua maioria inscritas no Cadastro Único, além de moradores que participam dos centros de convivência, recebem alimentação, atividades socioeducativas e encaminhamentos para documentação. “Muita gente chega aqui pedindo um sacolão. Quando essa pessoa consegue um emprego, ela passa a ter o próprio dinheiro e uma vida mais digna. É isso que muda tudo”.
Segundo João Henrique Bezerra, diretor-presidente da Funsat (Fundação Social do Trabalho), a expectativa da prefeitura é alcançar cerca de mil inscrições até o dia 30. De acordo com ele, todos os candidatos inscritos e considerados aptos, após publicação no Diário Oficial, serão convocados gradualmente, conforme a necessidade das secretarias municipais.
A chamada inicial deve contemplar 250 pessoas, com novas convocações ocorrendo de forma parcial e progressiva. “Hoje todas as secretarias têm necessidade, porque fazia tempo que não abríamos inscrições, mas o ponto focal neste momento será a Semed (Secretaria Municipal de Educação), por causa do início das aulas em fevereiro, além da Secretaria de Saúde e da Secretaria de Obras”, explicou.
Nessas pastas, os trabalhadores do Primt (Programa de Inclusão ao Mercado de Trabalho) devem atuar principalmente em serviços de zeladoria, manutenção de prédios públicos, atendimento ao público e funções administrativas básicas.
Bezerra também destacou que muitos candidatos retornam ao programa por fatores práticos, não por nostalgia. Jornada sem fins de semana na maioria das secretarias, possibilidade de ficar próximo de casa, além de benefícios como vale-transporte e alimentação no local pesam na decisão. “Normalmente a gente tenta alocar perto da residência, mas isso depende da necessidade de cada prédio. No fim das contas, a escolha é da prefeitura, conforme onde a demanda for maior”, apontou.







