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Interior

Braço dilacerado por fuzil iniciou guerra do tráfico

Riad Salem Oliveira teria atirado em integrante do PCC e depois empurrou outro bandido da facção

Por Helio de Freitas, de Dourados | 30/11/2020 14:39
Policial de grupo de elite carrega arma antes de operação, hoje em Pedro Juan Caballero (Foto: Direto das Ruas)
Policial de grupo de elite carrega arma antes de operação, hoje em Pedro Juan Caballero (Foto: Direto das Ruas)

Um jovem de 19 anos desfilando armado com fuzil automático teria sido o pivô para a guerra declarada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) ao clã de Fahd Jamil, o “Fuad”, o ex-rei da fronteira procurado pela polícia de Mato Grosso do Sul acusado de integrar o grupo de extermínio de Jamil Name.

Fontes da Linha Internacional ouvidas pelo Campo Grande News no fim de semana revelam que Riad Salem Oliveira, um dos quatro mortos encontrados em cova rasa na semana passada, irritou os bandidos da facção brasileira e foi submetido ao conhecido “tribunal do crime” junto com as outras três vítimas.

Riad Salem Oliveira era neto da irmã de uma das esposas de Fahd Jamil, ou seja, sobrinho-neto do ex-rei da fronteira e primo de Flávio Correia Jamil Georges, o "Flavinho", considerado o sucessor do pai nos negócios.

Nos últimos meses, Riad e seu amigo inseparável Felipe Bueno – outro executado e enterrado na cova rasa na semana passada – teriam passado a circular com muita frequência em Pedro Juan Caballero, principalmente em festas. Sempre armado, ostentava o fato de ser “da família” de Fuad.

Braço dilacerado – A reportagem apurou que, em data e local desconhecidos, Riad atirou com fuzil em um integrante do PCC. O tiro teria dilacerado parte do braço do “soldado da facção”.

O caso ganhou repercussão e foi preciso Flavinho Jamil Georges entrar em cena para apaziguar os ânimos. Considerado bem articulado e com acesso aos comandos das outras quadrilhas instaladas na fronteira, Flavinho conseguiu contornar a situação.

Conforme as fontes, a conversa de Flavinho para salvar o primo foi diretamente com o principal coordenador atual do PCC em Pedro Juan Caballero, o paulista Giovanni Barbosa da Silva, o “Bonitão”.

“Bonitão” seria principal chefe atual do PCC na fronteira (Foto: Reprodução)
“Bonitão” seria principal chefe atual do PCC na fronteira (Foto: Reprodução)

Na internet, existem menções a um “Giovanni Barbosa da Silva” ligado ao PCC no interior paulista, mas com o apelido de “Koringa”. A reportagem não conseguiu confirmar se trata-se da mesma pessoa.

A intervenção de Flavio Jamil teria, pelo menos momentaneamente, tranquilizado os integrantes da facção brasileira que desejavam a morte de Riad pela afronta ao atirar em um membro da quadrilha.

Empurrão em festa – Mas as coisas se complicaram depois de outra “escorregada” de Riad Salem Oliveira. Na festa de aniversário do filho do dono de uma casa de câmbio de Pedro Juan Caballero, Riad teria se desentendido com outro membro do PCC por causa de uma mulher. O rapaz chegou a empurrar o bandido, segundo as fontes.

A partir desse momento, o destino de Riad foi selado. O PCC decidiu que tinha chegado a hora dele morrer. No dia 22 deste mês, um domingo, Riad e Felipe foram chamados por integrantes da facção até o cassino Guarani, no centro da cidade.

Os dois teriam sido levados ao local por outro sobrinho de Fahd Jamil, Clerio Carlos Corrêa Junior, irmão mais novo de outra vítima da chacina, Muryel Moura Correia, 37. Muryel e Clerio Junior são filhos de Clerio Carlos Correia, irmão de uma das esposas de Fahd Jamil. Ele morreu em 2019, de infarto.

A reportagem apurou que Flavinho Jamil tinha conhecimento que o PCC queria “conversar” com Riad e Felipe Bueno. Depois que deixou os dois no cassino, Clerio Junior voltou para Ponta Porã.

Segundo as fontes da fronteira, ainda no domingo dia 22, Riad e Felipe foram julgados através do chamado “tribunal do crime”. Com a participação por telefone de líderes do PCC em São Paulo, os dois foram condenados, torturados e mortos.

Riad Salem, apontado como pivô da chacina (Foto: Arquivo)
Riad Salem, apontado como pivô da chacina (Foto: Arquivo)

Na segunda-feira, dia 23, o bando de Flavinho Jamil teria entrado em contato com bandidos do PCC na fronteira para saber dos dois rapazes. Teria sido informado que os dois estavam bem e seriam libertados, mas antes a facção precisava conversar com outros dois homens ligados ao clã Jamil, Muryel Correia e o paraguaio Cristhian Gustavo Torales Alarcón, motorista do cassino.

Novamente o ponto de encontro teria sido o Cassino Guarani. A reportagem apurou que o PCC pediu a presença também de Flavinho, mas ele se recusou. A intenção da facção seria eliminá-lo também.

A versão de que todos foram sequestrados em território paraguaio rebate informação divulgada pela polícia do país vizinho na semana passada, de que Riad, Felipe e Muryel teriam sido levados de Ponta Porã.

Cova rasa – Assim como Riad e Felipe, Muryel e Gustavo foram sequestrados, julgados, condenados e mortos. Os quatro corpos foram enterrados na cova rasa em uma propriedade particular a 20 km do centro de Pedro Juan Caballero. Giovanni Barbosa da Silva, o “Bonitão”, teria sido contra a execução dos homens ligados a Flavinho Jamil, mas foi voto vencido.

Sem envolvimento com o crime organizado e temendo pela vida após a execução do irmão e do primo, Clerio Junior deixou a fronteira.

Para conhecedores do submundo na Linha Internacional, o PCC aproveitou a situação para investir contra um dos poucos grupos locais que ainda se mantêm em atividade no crime organizado na fronteira.

Após a execução de Jorge Rafaat em junho de 2016 e as prisões de outros barões do crime na Linha Internacional, Flavinho Jamil vinha se fortalecendo, recrutando homens e se armando, para tentar manter o legado do pai no tráfico de drogas e de armas.

Prisões – Ainda de acordo com as fontes da fronteira, sem poder de fogo capaz de enfrentar a facção brasileira, Flavinho Jamil apelou ao bom relacionamento que mantém no Paraguai para contra-atacar.

Na quinta-feira, mesmo dia em que os corpos foram encontrados, dois importantes membros do PCC foram presos em Pedro Juan Caballero.

Elvio Balbino Ovelar Espinoza, o “Titan”, e Fredy Osmar Sanabria Cáceres, foram presos com uma pistola 9 milímetros em caminhonete blindada. Elvio é apontado como “disciplina” do PCC, ou seja, tem a missão de fazer cumprir as normas da facção.

No sábado à tarde, outro importante integrante da facção foi preso em Pedro Juan Caballero. Flávio Arruda Guilherme, 31, estava em uma casa no Jardim Aurora e no porta-malas do Jeep Renegade dele foram encontrados um fuzil AK 47, carregadores, uma pistola Glock e munições.

Devido à importância de Flávio para os interesses da quadrilha, a polícia paraguaia o levou ainda no fim de semana para a capital Asunción. Existiam rumores de que a quadrilha poderia tentar resgatá-lo.

Até agora não há provas ligando os três presos à chacina. Nesta segunda-feira (30), grupos de elite da Polícia Nacional fazem operação contra o PCC em Pedro Juan Caballero.

Local onde corpos foram encontrados em cova rasa, na semana passada (Foto: Arquivo)
Local onde corpos foram encontrados em cova rasa, na semana passada (Foto: Arquivo)


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