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Em 62 anos, morador ilhado diz que nunca viu enchente devastadora como a última

Em comunidades quilombolas, mais de 100 famílias foram prejudicadas com o Rio Aquidauana transbordando nesta terça-feira (16)

Por Aletheya Alves e Ana Paula Chuva, de Corguinho | 17/02/2021 17:56
Carlito Ribeiro, de 62 anos, diz que nunca viu situação como a de ontem (16). (Foto: Marcos Maluf)
Carlito Ribeiro, de 62 anos, diz que nunca viu situação como a de ontem (16). (Foto: Marcos Maluf)

“Não tinha como correr”. Morando na área rural de Corguinho desde que nasceu, Carlito Ribeiro, de 62 anos, conta que nunca viu enchente tão forte como a de ontem (16) em Furnas da Boa Sorte. Na região, composta por comunidades quilombolas, mais de 100 famílias foram prejudicadas pelas águas e seis pontes foram destruídas.

Se preparando para descansar após o almoço, Carlito teve o momento interrompido pela esposa, de 52 anos, com aviso desesperado. “De repente minha esposa chega correndo e fala “a água do córrego chegou aqui”. Ela desesperou muito e eu falei olha, a gente não tem muito o que fazer, só Deus mesmo”, o morador explica.

Resquícios da enxente continuam na região. (Foto: Marcos Maluf)
Resquícios da enxente continuam na região. (Foto: Marcos Maluf)

Ao ver a água invadindo a casa, não houve muito o que fazer. Ele explica que ficaram ilhados com a irmã, de 85 anos, e sem água potável. “Invadiu a casa, estava a maior sujeito porque a água (que veio de fora) cortou a nossa também. A gente não podia sair por causa da minha irmã, ela tem problema na perna, com 85 anos, como a gente ia sair com ela?”.

Carlito relata que foram cerca de três horas pedindo aos céus para que a água diminuísse. “A água acabou era umas 15h, nesse tempo não saí para lugar nenhum. Meu pai falava, tem uns 70 anos, que passou água assim. Mas aqui ninguém conhece enchente desse jeito”, disse.

Ponte de acesso para comunidade foi destruída. (Foto: Marcos Maluf)
Ponte de acesso para comunidade foi destruída. (Foto: Marcos Maluf)

Também sem água até agora, Benedito Borges, de 35 anos, resumiu a visão de ontem como uma “enxurrada de pedra”. Ele relata que logo no começo da manhã, por volta das 6h, uma leve garoa apareceu. “Eu estava em casa, tomando café, ajeitando as coisas para trabalhar. Rapaz, de repente, foi indo. Aí achei esquisito porque a gente é acostumado a ver chuva”.

Não demorou muito para que a estranheza tomasse forma de aviso também na casa de Benedito. “Passou um pouco e minha esposa chegou falando que as vacas estavam fechadas no mangueiro. Fui soltar elas e a água já estava no joelho. Falei “vai rodar meus bezerrinhos”. O trem é assustador, a gente nunca viu isso”.

Enquanto ele, a esposa e a filha tentavam se acalmar enquanto viam a água se aproximar da porta de casa, Benedito disse que até vacas de vizinhos foram embora. “Árvore que tinha, cerca, tudo foi sendo arrancado. Eu pensei, daqui a pouco tenho que sair de casa com a família”.

Com pistas desniveladas, moradores têm utilizado tratores. (Foto: Marcos Maluf)
Com pistas desniveladas, moradores têm utilizado tratores. (Foto: Marcos Maluf)

Antigo secretário de infraestrutura de Corguinho, Antônio Lopes Santana, de 69 anos, relata que todas as saídas das comunidades foram prejudicadas, “a força da água foi tão grande que levou toda a estrutura das pontes”. Hoje, o cenário nas comunidades é de destroços. Pelo caminho, desmoronamento de morro e erosão na pista compõem o ambiente.

Pela manhã, a prefeitura de Corguinho precisou decretar situação de emergência. De acordo com a prefeita Marcela Ribeiro Lopes (PSDB), foram 135 milímetros de chuva durante os últimos dias. Por isso, o Rio Aquidauana transbordou. Em meio ao alagamento, uma criança precisou de ajuda para conseguir sair de casa. Carros ficaram submersos, mas ninguém ficou ferido.

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