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Interior

"Foi como salvar minha filha", diz homem que resgatou criança em enxurrada

Ana Beatriz ficou ilhada, em casa, após nível de rio subir e tomar conta da residência; força da água foi obstáculo vencido

Por Liniker Ribeiro e Ana Paula Chuva, de Corguinho | 17/02/2021 17:46
Adilson dos Santos Pereira resgatou menina e conversou com equipe do Campo Grande News, nesta quarta-feira (Marcos Maluf)
Adilson dos Santos Pereira resgatou menina e conversou com equipe do Campo Grande News, nesta quarta-feira (Marcos Maluf)

Foram quase duas horas de angústia, medos e incertezas. Mas, a vontade de resgatar a pequena Ana Beatriz, de 7 anos, falava mais alto. Por isso, Adilson dos Santos Pereira, de 36 anos, não desistiu e arriscou a vida ao enfrentar a força da água até chegar a residência na comunidade de Boa Sorte, em Corguinho, a 88 quilômetros da Capital, tomada pela enxurrada.

A menina estava sozinha em casa e, com a chuva, que caiu sobre a cidade entre às 6h e 14h de ontem (16), ficou “ilhada” após o nível do córrego Barreirinho subir e comprometer a estrutura do imóvel.

Nesta quarta-feira (17), a equipe do Campo Grande News esteve frente a frente com o mais novo “herói”, na cidade. Ao descrever toda a situação que enfrentou, o prestador de serviços gerais diz ter lembrado, a todo momento, da filha.

Me senti salvando a vida da minha própria filha. Tenho uma menina que está com seis anos e estou bastante orgulhoso por ter conseguido salvar a vida dela”, destaca Adilson Pereira.

Segundo ele, o trecho alagado percorrido foi de aproximadamente 25 metros. Para conseguir percorrer essa distância, foi preciso muito planejamento.

Água tomou conta de casa onde menina estava e correnteza foi forte (Foto: Reprodução/vídeo)
Água tomou conta de casa onde menina estava e correnteza foi forte (Foto: Reprodução/vídeo)

“Quando cheguei, me deparei com ‘aquela’ água toda, tomando conta da casa. Vi que sozinho eu não ia conseguir, voltei até meu companheiro de trabalho e chamei ele para ajudar. Corremos lá, tinha uma camionete com cordas, fomos andando, entramos na água e fomos amarrando as cordas em árvores para chegar próximo da casa”, conta.

A correnteza muito forte dificultava a chegada. No trajeto, tudo o que estava sendo arrastado pela água serviu de obstáculo. “Madeiras começaram a ‘rodar’, machucou um pouco minhas pernas, então voltei e, depois que foi chegando mais gente, começamos a analisar, aguardamos um pouco e a água foi baixando. Daí fomos mais para cima e conseguimos acesso”, afirma Adilson.

O trabalhador, que já morou na casa invadida pela água, onde a menina estava, diz ainda ter torcido para que a criança tivesse encontrado ponto seguro, dentro da residência. “Morei na mesma casa por 7 anos, fiquei imaginando que se ela estivesse na cozinha, estaria mais segura, mas ela não estava lá, estava no pior lugar”.

Dentro da casa, a água já havia levado duas portas e parte de uma parede. “Ela estava segurando no portal da porta, que já tinha sido levada. Ela ficava querendo sair da casa, mas se ela tivesse saído, teria sido levada. A água estava muito forte em volta e ela chorava muito. Dentro, a água estava para cima da cintura dela”, relembra Adilson.

Casal invadida pela água ficou cheia de lama; prejuízo para família de menina resgatada (Foto: Marcos Maluf)
Casal invadida pela água ficou cheia de lama; prejuízo para família de menina resgatada (Foto: Marcos Maluf)

Antes de sair, ele revela ainda ter preparado local mais seguro para que ambos pudessem aguardar a água baixar. “Tinham duas camas, coloquei uma em cima da outra, amarrei na janela com lençol e coloquei ela ali. Fui procurar tapar um pouco para a água não entrar tanto dentro da casa. Os móveis boiavam, parando na porta e eu cuidando para ver se a estrutura da casa aguentaria. Aguardamos um pouco, os meninos foram chegando, trazendo mais cordas, pedi para ela me segurar e fomos saindo”.

Todo empenho de Adilson, aliado ao apoio e reforço de pessoas da comunidade, deu certo. Depois dos momentos de tensão, o alívio ao entregar Ana Beatriz para a mãe, que acompanhava o resgate de local seguro.

“Primeira vez que eu vejo uma chuva assim. Até na minha casa atual, que fica em uma região mais alta, começou a entrar água por debaixo da porta”, finaliza Adilson.

Alex é pai de Ana Beatriz e agradeceu ato de coragem de Adilson (Foto: Marcos Maluf)
Alex é pai de Ana Beatriz e agradeceu ato de coragem de Adilson (Foto: Marcos Maluf)

Gratidão – Para a família de Ana Beatriz, Adilson foi um grande herói. “Agradeço muito a ele. Na hora, fiquei angustiado de saber como ele estava. Eu só tive calma quando ela foi levada lá para cima”, revelou o pai da menina, Alex Morel, de 31 anos.

A reportagem, ele também afirmou que tudo aconteceu muito rápido. “Amanheceu chovendo como um dia normal. Levantei, tomamos café da manhã, o pequeno [filho e irmão de Ana Beatriz] acordou e, como estava chovendo, eu falei que levaria minha esposa para o trabalho e voltaria para ficar com a ‘Nega’. O pequeno foi com a gente, ainda bem”, relembra.

Ao retornar, o pais já encontrou a região alagada. “A água estava passando em cima da ponte. No instinto de pai, pensei em passar com o carro por ali, mas nem passou pela cabeça que a água passaria pelo outro lado e, pensei que ela se assustaria ao acordar e perceber o volume da água”, destaca. “O desespero foi grande”.

Vídeo que circula nas redes sociais mostra a dificuldade do resgate, assim como o final feliz. Confira:


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