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Interior

Em menos de 24h, indígenas sepultam três vítimas de covid-19 em "covas rasas"

Durante a semana, a Aldeia Água Azul teve quatro índios Terena mortos pela doença

Por Guilherme Correia | 07/08/2020 10:09
Três vítimas foram sepultadas em menos de 24h na Aldeia Água Azul (Foto: Reprodução)
Três vítimas foram sepultadas em menos de 24h na Aldeia Água Azul (Foto: Reprodução)

Em uma "semana triste", moradores da Aldeia Água Azul, no município de Dois Irmãos do Buriti, distante 83 quilômetros de Campo Grande, sepultaram quatro vítimas de covid-19. Três delas foram enterradas em menos de 24h.

Entre as vítimas estão uma idosa, de 87 anos, que morreu na quarta-feira (5), um idoso, 87, que morreu no mesmo dia, e um homem, 66, que morreu nesta quinta-feira (6). Apesar de confirmado pelo município, o resultado do teste feito pelo Lacen (Laboratório Central) ainda não foi divulgado.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, é possível ouvir moradores lamentando a morte das três pessoas. "Realidade que via só na televisão, e hoje, infelizmente chegou na nossa população. É muito triste ver isso, a situação que nós chegamos".


Apesar de moradores confirmarem a morte dos três pela doença, os registros ainda não foram contabilizados pela SES (Secretaria Estadual de Saúde), e devem entrar na contagem hoje ou amanhã.

Única morte já contabilizada no município se deu no início da semana (dia 3). O indígena Benedito Reginaldo Filho, de 94 anos, faleceu no Hospital Regional em Campo Grande. Ele havia sentido complicações pulmonares e crise respiratória.

Ele estava sendo acompanhado há nove dias e a família estava em isolamento domiciliar. O neto de Benedito, Sandro Duarte, de 24 anos, relata que não sabe como o avô contraiu o vírus, e que ele havia ido para o Hospital Cristo Rei, em Dois Irmãos, mas teve de ser encaminhado para a Capital.

Não se sabe ao certo, provavelmente algum indígena que foi nas cidades aqui perto da aldeia foi infectado e trouxe o vírus para dentro da aldeia. Ele ficou internado no nosso município, mas o quadro clínico dele ficou pior e teve que ir às pressas para o Regional

População mais afetada - Quando descobriram que Reginaldo havia contraído coronavírus, a família entrou em choque. “Não queriam acreditar, porque antes mesmo só viam nos jornais mostrando mortes de pessoas por covid”.

Reginaldo e as outras três vítimas que deixaram suas famílias na aldeia fazem parte de estatística de mortes por covid-19.

Levantamento feito pelo Campo Grande News, com base nos dados divulgados pela SES, mostra que a doença é mais letal (2,1%) entre as populações indígenas. Até ontem (6), eram 24 mortes confirmadas dentre 1154 pessoas que já tiveram coronavírus.

Mato Grosso do Sul possui a segunda maior população aldeada em todo o Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados da Saúde incluem também os indígenas urbanos.

O cone-sul de Mato Grosso do Sul foi o primeiro a ser afetado pela doença depois dela chegar, inicialmente, em 14 de março, na capital Campo Grande. A médica infectologista Mariana Croda explica que “os casos começaram em Campo Grande, e o avanço pelo interior se deu na forma de surtos epidêmicos geralmente ligado a algum evento”.

O surto em Guia Lopes da Laguna foi ligado ao frigorífico, o surto em Brasilândia ligado a um evento social. Tivemos no sul do Estado o surto principalmente na atividade laboral, mas que rapidamente se tornou de transmissão comunitária, avançando para a Microrregião de Dourados, que hoje de alguma forma hoje se encontra ‘sobre controle'

Enquanto os números de mortes reduziram consideravelmente na região sul do Estado, cidades mais ao centro foram registrando cada vez mais óbitos. Sandro relata que diversos profissionais de frigoríficos foram contraindo covid conforme as semanas foram passando, e que muitos deles já se encontram recuperados.