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Campo Grande, Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018

25/09/2018 09:34

Por trás da obesidade, uma realidade que muitos escondem: o abuso sexual

Relatos são observados, por exemplo, em pacientes que se submetem à cirurgia bariátrica

Danielle Valentim
Daniele Paludo, que atua como psicóloga, explica que a maior parte dos pacientes revela abusos sofridos, no decorrer das sessões. (Foto: Danielle Valentim)Daniele Paludo, que atua como psicóloga, explica que a maior parte dos pacientes revela abusos sofridos, no decorrer das sessões. (Foto: Danielle Valentim)

O abuso sexual deixa marcas destrutivas que, na maioria das vezes, ficam alojadas no subconsciente da vítima e são capazes de interferir anos depois. Não importa a idade, a dor causada pelo abusador faz com que o cérebro da vítima crie “proteções” para amenizar os traumas, entre eles, o processo de engorde.

Recentemente, reportagem do Campo Grande News abordou o tema obesidade, para orientar familiares e amigos que atrapalham o emagrecimento de pacientes obesos ou com sobrepeso. Desta vez, o material a seguir buscou uma das causas mais tristes e comuns descobertas dentro dos consultórios.

Em 2005, pesquisadores dos Estados Unidos descobriram a existência de uma associação entre abuso sexual e físico na infância e adolescência com a obesidade na idade adulta. Eles se basearam no estudo Black Women's Health Study, que acompanha mulheres negras desde 1995.

Mais de 33 mil participantes forneceram informações sobre experiências na infância e adolescência que foram cruzadas com seu peso na idade adulta, considerando o Índice de Massa Corporal (IMC) e a circunferência da cintura. Na época, os resultados mostraram que a taxa de obesidade era 30% maior entre as mulheres que sofreram abuso físico e sexual.

Em 2009, artigo publicado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul também tratou do assunto. O documento “A relação entre abuso sexual e transtornos alimentares: uma revisão” detalhou como o crime se torna fator de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares nas vítimas.

Mais comum do que parece, o abuso assombra e se alastra como uma praga na saúde das vítimas sendo descoberto muitas das vezes, apenas, no divã de um profissional da psicologia ou psiquiatria. Daniele Paludo, que atua como psicóloga de uma equipe multidisciplinar de preparação para a cirurgia bariátrica, explica que a maior parte dos pacientes revela abusos sofridos, no decorrer das sessões. A equipe também acompanha os pacientes depois da operação, popularmente, conhecida como “redução de estômago”.

“Dentro do consultório e da minha experiência profissional com pacientes que vão realizar a bariátrica, já peguei casos em que o paciente sofreu um abuso sexual na infância. São pacientes mais reprimidos que sofrem com autoestima baixa e tem sentimento de inferioridade muito grande. A causa daquele sofrimento é descoberto no decorrer de entrevistas e testes psicológicos, o paciente traz a tona esse sofrimento ocasionado na infância”, explica.

Por que acompanhamento psicológico é fundamental?

No consultório a reclamação é unânime: quando a sociedade não me agride, ela me ignora. Paludo explica que os pacientes em preparação para uma bariátrica, e que durante as sessões com a equipe multidisciplinar revelam o abuso sexual sofrido na infância ou adolescência, ficam totalmente desestabilizados e precisam de acompanhamento para o fechamento dessa ferida, antes do procedimento cirúrgico.

“O paciente obeso já sofre desde a infância, muitas vezes de forma psicossocial, como não poder sentar em qualquer cadeira e até mesmo passa em uma catraca. Então, além de descobrir a causa de ter se tornado tão gordo, paciente precisa se preparar para sua nova identidade. Em um dos atendimentos, a paciente relatava estar acima do peso para se esconder, ela afirmava usar uma capa de gordura e se preocupou com o fato de que a capa iria sumir após a cirurgia. Era como se a obesidade fosse o esconderijo dela. É neste momento, que entra o trabalho do psicólogo, não tem como o paciente não se preparar para a cirurgia ou abandonar o tratamento psicológico no pós-operatório, porque é uma reeducação alimentar e mental, o paciente terá um estômago pequeno e uma mente que precisa acompanhar isso”, explica.

A psicóloga pós-graduada em terapia cognitiva comportamental e também especialista em métodos de prevenção ao suicídio, dependência química/álcool e violência de gênero, Natiele Braga, pontua que há casos em que o paciente engorda para o corpo não seja mais um objeto de desejo. Como se a culpa fosse da vítima.

“Eu já tive relatos em que a vítima engordou de propósito. Muitas vítimas que sofrem não entendem que o abusador é um doente. Dependendo da idade, não têm essa maturidade e pensam que é por conta do corpo. Na cabecinha de uma criança, engordar é uma forma de proteção e, se não tratado, o trauma a acompanhada a vida toda”, explica.



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