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Boa Imagem

O figurino da Xuxa ajudou ou atrapalhou a narrativa?

O figurino da Xuxa ajudou a contar a despedida ou desviou a atenção da história?

Por Larissa Almeida (*) | 27/07/2026 17:40



A polêmica envolvendo o nome da apresentadora Xuxa começou depois da estreia da turnê “O Último Voo da Nave”, no sábado, 25 de julho, em São Paulo. Xuxa usou um body muito cavado, com recortes que, vistos por trás, lembravam um fio-dental e deixavam grande parte da virilha à mostra.

Parte do público considerou o visual excessivamente sexualizado e distante da imagem afetiva e lúdica que esperava encontrar em um espetáculo de despedida da nave.

Como acontece rotineiramente na internet, a conversa rapidamente deixou de ser apenas sobre a roupa. Passou a envolver idade, política, comportamento, passado, incoerências, moralidade e até a relação emocional que cada pessoa mantém com a apresentadora.

Como esta coluna fala sobre imagem pessoal, vou me concentrar nessa questão.

O erro mais evidente estava na modelagem do body, uma espécie de maiô usado pela apresentadora. Figurino de palco não é roupa cotidiana. Ele precisa funcionar a distância, sob iluminação intensa, em movimento e em conjunto com telões, coreografias e adereços. Em uma fotografia aproximada ou em um frame desfavorável, um recorte pode parecer muito mais agressivo do que parecia para quem assistia ao espetáculo presencialmente.

Ainda assim, a cava do body era muito profunda e sua base, a parte que se encaixa entre as pernas, era muito estreita. Caso a cava fosse menor e a base mais larga, provavelmente seria possível evitar a impressão de que a peça estava mostrando demais uma área tão próxima à região íntima.

Um ponto importante também precisa ser considerado: o show percorreu várias fases da carreira de Xuxa, com diversas trocas de roupa e referências a personagens e estéticas diferentes, inclusive um figurino inspirado em She-Ra.

Portanto, a escolha daquela roupa não estava completamente desconectada da trajetória da apresentadora. A ideia tinha relação com sua história, mas a modelagem foi mal executada.

Quando analisamos a imagem de Xuxa, também existe uma crítica legítima relacionada à coerência entre o figurino e a mensagem do espetáculo.

Ela recebeu o título de Rainha dos Baixinhos graças às décadas dedicadas a apresentar programas de televisão, gravar músicas, fazer filmes e licenciar produtos voltados principalmente ao público infantil.

O público que comprou o ingresso não adquiriu apenas uma apresentação musical. Comprou uma experiência baseada em nostalgia, infância, nave, Paquitas e na memória afetiva da Rainha dos Baixinhos.

Quando o figurino comunica uma sensualidade muito explícita, pode surgir um ruído entre essa expectativa emocional e aquilo que aparece no palco. Não porque Xuxa não possa ser sensual, mas porque toda escolha visual cria uma narrativa.

O problema não é ela estar velha demais, muito menos o corpo dela. Considerar que uma mulher não deveria mostrar o corpo simplesmente porque envelheceu é puro preconceito. Aliás, Xuxa está belíssima. Independentemente da idade ou do corpo, ela pode usar o que quiser.

Mas toda escolha tem uma consequência na comunicação da imagem.

E isso nos leva a uma pergunta mais interessante: aquele recorte profundo contribuía para contar a história da despedida ou acabou desviando toda a atenção da história?

Quando a roupa vira o principal assunto e o espetáculo fica em segundo plano, provavelmente houve uma falha de comunicação visual, mesmo que o figurino fosse ousado, moderno e tivesse conexão com as roupas usadas por Xuxa durante sua trajetória profissional.

Isso não significa que toda a reação negativa tenha sido provocada apenas pelo body. Na vida real e nas redes sociais, raramente julgamos somente aquilo que está diante dos nossos olhos. Julgamos também tudo o que já pensamos sobre aquela pessoa e todo o contexto no qual ela está inserida.

Parte do público não estava olhando apenas para a roupa. Estava olhando para a Xuxa de hoje, para suas declarações, para seus posicionamentos políticos e para as incoerências que acredita perceber entre o discurso atual e sua trajetória. Em ano eleitoral, essa mistura se torna ainda mais intensa. Artistas deixam de ser avaliados apenas pelo trabalho e passam a ser vistos como representantes de um lado político.

Quando gostamos de alguém, tendemos a justificar suas escolhas. Quando não gostamos, qualquer erro se transforma em confirmação de tudo aquilo que já pensávamos.

Consultoria de imagem não é determinar o que alguém pode ou não vestir. É compreender o que cada escolha comunica, dentro de determinado contexto, para determinado público. Xuxa podia usar aquela roupa. Mas liberdade de escolha não elimina os efeitos da comunicação.

A roupa não define o caráter, o talento ou o valor de ninguém. Ainda assim, ela participa da mensagem, interfere na percepção e ajuda, ou atrapalha, a história que se pretende contar. Ter liberdade para vestir é um direito. Entender o que a roupa comunica é estratégia.

(*) Larissa Almeida é formada em Comunicação Social pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e pós-graduada em Influência Digital pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). Durante 14 anos, trabalhou na área de comunicação e imagem em instituições como a Caixa Econômica Federal, a Prefeitura de Campo Grande, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e o Senado Federal, além de ter coordenado a comunicação da Sanesul (Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul). É consultora de imagem formada pela RML Academy (Royal Makeup Lab Academy) e pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, além de especialista em dress code e comportamento profissional por Cláudia Matarazzo e pela RMJ TRE (RMJ Treinamento e Desenvolvimento Empresarial). Siga no Instagram @vistavoce_.