Você deixa rastro por onde passa?
Sua liberdade de usar perfume termina onde começa o direito do outro de respirar
Há algum tempo surgiu nas redes sociais uma tendência curiosa: pessoas ensinando a "tomar banho de body splash". São vídeos em que borrifam perfume nos braços, nas pernas, nas roupas, nos cabelos, repetem dezenas de vezes e ainda ensinam que o segredo é deixar um rastro por onde passar.
Mas desde quando deixar um rastro virou uma qualidade? Existe uma diferença enorme entre estar perfumado e perfumar o ambiente inteiro. Perfume foi criado para ser percebido por quem está próximo. Não para anunciar sua chegada a dez metros de distância.
A verdade é que muita gente acredita que, quanto mais forte a fragrância, mais elegante parecerá. O efeito costuma ser justamente o contrário. Elegância quase sempre mora na medida. O problema não é gostar de perfume. Eu também gosto. O problema começa quando o seu gosto invade o espaço de quem não teve escolha.
Imagine entrar em um elevador e ele estar completamente tomado por um perfume doce. Ou se sentar ao lado de alguém no cinema e passar duas horas respirando uma fragrância intensa. Ou tentar treinar na academia enquanto o cheiro da pessoa da esteira ao lado domina todo o ambiente.
Seu perfume deixou de ser seu. Virou de todo mundo. E nem todo mundo pode conviver bem com isso. Há pessoas com rinite, asma, enxaqueca, alergias respiratórias ou sensibilidade a fragrâncias. Algumas desenvolvem crises importantes apenas por permanecer alguns minutos em um ambiente excessivamente perfumado.
Ou seja, aquilo que para você representa autocuidado pode significar desconforto para outra pessoa. Etiqueta sempre foi isso: adaptar pequenos comportamentos para facilitar a convivência. É curioso perceber que somos cuidadosos com o volume da música, evitamos falar alto ao telefone em determinados lugares, controlamos o tom da voz em ambientes silenciosos, mas esquecemos que o perfume também ocupa espaço. Só que ele ocupa o espaço invisível.
Quem está ao seu lado pode perceber sua fragrância quando vocês se cumprimentam, conversam ou se aproximam. Quem entra no prédio vinte minutos depois de você não deveria conseguir identificar exatamente por onde você passou. Perfume não deveria funcionar como GPS.
Aliás, um dos maiores elogios que alguém pode receber não é "senti seu perfume do outro lado da sala". É ouvir, durante um abraço: "Que perfume gostoso. Qual é?" Percebe a diferença?
No primeiro caso, você invadiu o ambiente. No segundo, você marcou um momento. Imagem não é apenas aquilo que as pessoas veem. É também aquilo que elas precisam suportar. A sua liberdade de usar o perfume que quiser termina exatamente onde começa o direito do outro de respirar um ar que não tenha sido escolhido por você.
(*) Larissa Almeida é formada em Comunicação Social pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e pós-graduada em Influência Digital pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). Durante 14 anos, trabalhou na área de comunicação e imagem em instituições como a Caixa Econômica Federal, a Prefeitura de Campo Grande, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e o Senado Federal, além de ter coordenado a comunicação da Sanesul (Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul). É consultora de imagem formada pela RML Academy (Royal Makeup Lab Academy) e pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, além de especialista em dress code e comportamento profissional por Cláudia Matarazzo e pela RMJ TRE (RMJ Treinamento e Desenvolvimento Empresarial). Siga no Instagram @vistavoce_.

