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Em Pauta

A vasilha suja do velho que vivia isolado em uma fazenda no MS

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 25/08/2026 07:31
A vasilha suja do velho que vivia isolado em uma fazenda no MS

Não era incomum um homem idoso viver sozinho em um pequeno sítio no Mato Grosso do Sul antigo. Não conhecemos suas feições, não haviam imagens nesta região. Só as de Deus ou de santos como São José. Mesmo estas, eram raras. Gravuras vindas da Europa que pregavam nas paredes das lojas e dos lares até bem pouco tempo. Tampouco temos registros de suas dores. Dor nas costas? Dor nas pernas? Conseguiam levantar pesos, andar sem apoio? Sabemos que existiam, mas os inventários e testamentos não registram bengalas. Conseguiam caçar bichos grandes ou se limitavam a fazer armadilhas para animais pequenos? Afinal, se tudo era vontade de Deus, aceitavam a doença e a vida de ermitão.


A vasilha suja do velho que vivia isolado em uma fazenda no MS

Acordar e dormir com os pássaros.

Sabemos que, quando viviam isolados, sem médicos, livros de autoajuda ou conselhos na internet, os velhos encontravam em si mesmos e no trabalho a força para continuar vivendo. Confrontados às duras realidades, acordavam com os pássaros e dormiam com eles. Não havia o sino da igreja para marcar a passagem do tempo. Era um dia após o outro, após o outro, após…. Sem calendários. Casas rústicas, comidas simples, tinham um modo de vida espartano.


A vasilha suja do velho que vivia isolado em uma fazenda no MS

A vasilha suja do velho.

Há uma pequena passagem de um viajante que mostra a vida do velho sozinho em um sítio. Conta que um pobre velhinho o acolheu do melhor modo possível. O criado do viajante caiu doente e tiveram de ficar na casinha do velho por uma semana. “Meus camaradas cozinhavam; mas o excelente velho fez questão de que eu compartilhasse suas refeições”, começa a narrar. “Quase sempre me servia uma canjica que por sua cor mostrava a sujeira da vasilha. Mas isso era tudo que o bom velho dispunha e oferecia de bom grado”.


A vasilha suja do velho que vivia isolado em uma fazenda no MS

Cortesia e caridade acima de tudo. Vizinhos de terreiro.

Além da simplicidade no viver, as tradições de cortesia e caridade vêm de longe e eram respeitadas. Embora morando sozinhos, qualquer forma de sociabilidade era raramente ignorada. As relações entre os vizinhos de fazenda eram afáveis. Bebiam a mesma água do rio ou riacho. Criavam as vacas na mesma mata. Eram os “vizinhos de terreiro”, um termo muito comum nos documentos. Presenteavam-se em dia de caça ou pescaria farta. Trocavam raríssimas notícias. Nos domingos, visitavam-se. Era um pequeno mundo muito diferente do atual, quase irreconhecível.

 

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