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Em Pauta

Se as paredes falassem: uma casa nas antigas fazendas pantaneiras

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 24/08/2026 07:50
Se as paredes falassem: uma casa nas antigas fazendas pantaneiras

Como viviam os antepassados pantaneiros? Como eram suas casas? Surpreendam-se com a falta de privacidade dos quartos. Imagine-se “escovando” os dentes com areia ou com ossos de peixes. A vida do homem comum foi muito diferente da atual. As casas tinham apenas quatro compartimentos: um quarto, algo semelhante a uma sala, os raros banheiros eram externos, assim como as cozinhas.


Se as paredes falassem: uma casa nas antigas fazendas pantaneiras

O quarto público.

“Uns coçam o corpo e outros balbuciam, uns vomitam e outros urinam, nem um fica quieto”. Esse é um pequeno texto, brutal, pouco conhecido, que descreve o caos noturno de um quarto compartilhado em uma fazenda pantaneira. Dormir, tentar dormir, era uma atividade coletiva.


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Descanso, sexo, nascimento e morte compartilhados.

O parto, por exemplo. Hoje é uma experiência médica individual. Então era comunitária. O encontro das mulheres, as fofocas, faziam do parto um acontecimento muito sociável. Inclusive na dor. O sexo e as doenças faziam parte desse espaço compartilhado. Só há bem pouco tempo começa a isolar-se. O mesmo vale para a morte. Morriam na cama acompanhados por todos parentes e amigos.


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O banheiro como invenção cultural.

O quarto para o banho é uma invenção cultural. E uma invenção tardia. Ele não existiu nas fazendas pantaneiras até há bem pouco tempo. Nem mesmo separado do restante da casa. Quando surgiu, ficava bem distante. E era usado apenas para urinar e defecar. Os banhos, com sabão e não sabonete, ocorriam nos rios e córregos. A “escovação” dos dentes, quando ocorria, era feita com areia ou com ossos de peixes. O “papel higiênico“ eram as folhas de árvores próximas.


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As salas eram também depósitos. As cozinhas do encontro.

Imaginem uma mesa feita de uma única longa tábua sob cavaletes. Algumas acompanhadas por rústicos bancos, outras sem bancos. Arreios, sal, armas, instrumentos de trabalho… Essa era a sala. Não havia decoração e nem iluminação. A acumulação de objetos é bem recente. É uma declaração. A sala dizia quem era o fazendeiro naquela sociedade antiga e antiquada. A confraternização era eventual. Tomar café, almoçar e jantar eram facultativos nesse espaço.


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A cozinha de todos. Arrotos e flatulência.

O mais comum era que ocorressem na cozinha. Era o espaço mais complexo. A história da cozinha é também a história da segurança alimentar. Estas eram externas. Temiam o fogo. Os incêndios ocorriam à partir delas. Havia nelas raras panelas de barro. Talvez um prato, uma caneca, uma colher, um garfo e uma faca para todos. A cozinha era ainda mais estranha do que imaginamos. Era nela que todos bebiam, mastigavam, engoliam, arrotavam e peidavam. Se hoje temos nojo de arrotos e flatulências, no passado eram tidos como sinais de boa alimentação. Ainda mais chocante: sinais de boa educação.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.