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03/07/2018 07:00

Do médico mágico ao cientista desumano

Mário Sérgio Lorenzetto
Do médico mágico ao cientista desumano

Todos conhecem a história. Quando se adoentava, um paciente do século passado recebia em casa a visita do doutor. Ele chegava com uma mala, onde cabiam todos seus equipamentos, e logo colocava o ouvido no peito do paciente para auscultar seu coração. Conversava com o enfermo para entender os sintomas. Apenas sua presença por ali já era um alento. Havia um forte sentimento de magia. Eram os médicos mágicos, de "família". Conheciam até os cachorrinhos da casa. Impossível existir alguém mais respeitado que eles em uma sociedade qualquer. E, ao mesmo tempo, ganhavam fortunas.
Nem tudo era fácil, faltavam recursos básicos. Existiam poucos remédios disponíveis, assim como conhecimentos científicos para tratar as doenças. Os diagnósticos eram quase um tiro no escuro. Higiene básica em uma cirurgia? Nem pensar.
Foi apenas no século XIX que medicina e ciência se uniram para nunca mais separar. Um tabu foi quebrado quando as autópsias foram permitidas. Isso abriu o corpo humano e um mundo de conhecimento. Dali em diante, a medicina deu um salto. Equipamentos foram desenvolvidos, causas de doenças foram descobertas, medicamentos e tratamentos foram criados. Os médicos viraram cientistas e começaram a pensar como tal.

Do médico mágico ao cientista desumano

Os médicos passaram a olhar telas e a não ver os pacientes.

A medicina tornou-se cada vez mais especializada. Os olhares dos cientistas-médicos deixaram de mirar o paciente para focar as atenções em telas e papéis. Antes, precisavam apalpar a barriga, colocar o estetoscópio, era uma relação humana. Com o avanço da ciência isso arrefeceu ou desapareceu.
Outros fatores abalaram a confiança dos pacientes. Depois da Segunda Guerra Mundial, as atrocidades nazistas vieram à tona. Muitas delas contaram com a conivência e participação de médicos. Alguns deles eram os melhores profissionais em suas respectivas áreas. Os médicos perderam parte da confiança. E da autonomia. Não à toa, o "termo de consentimento" assinado por pacientes ou familiares antes de qualquer cirurgia passou a ser obrigatório. O médico perdeu o poder de resolver na sala de cirurgia se iria amputar uma perna. O paciente ganhou autonomia. Além disso, com o advento da internet, passou a existir um mundo de conhecimento disponível para os pacientes. A palavra do médico deixou de ser única e definitiva.

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A historinha do médico que não sabe o nome do paciente.

Na emergência de um hospital, o jovem médico se encarregou de acompanhar uma atendimento. Era um idoso com histórico de hipertensão. Apesar dos esforços, o paciente sucumbiu. Na sala de espera, a filha, em prantos ansiava por notícias. O médico só conseguiu dizer: "o coração parou, ele morreu". Aos gritos e desesperado, a moça devolveu: "Ele não é só ele". "É meu pai". "Tem nome...é Paulo César". O médico se deu conta que não sabia absolutamente nada sobre o paciente falecido. Muito menos o nome. Atentara-se apenas para a doença. É um técnico. Um cientista. O trato humano fica de lado. É comum escutar deles "meu paciente do câncer no intestino". Não são chamados pelo nome, e sim pela doença. Aprenderam na faculdade. Cumprirão esse roteiro até a exaustão.

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A indústria farmacêutica fideliza o médico.

Para além da formação teórica, outros fatores explicam como as relações entre médicos e pacientes estão se deteriorando. Um desses fatores é a fidelização dos médicos a determinadas indústrias farmacêuticas. A ideia é simples e razoavelmente conhecida: como exitem vários tipos de remédios para o mesmo problema, é necessário que o médico recomende o produto de uma determinada empresa. Em troca, brindes, viagens pagas... quanto mais prescrições, mais pontos os médicos acumulam - e mais benefícios ganham.
é algo tão comum que a pesquisa da Cremesp revelou que 93% dos médicos admitiram receber brindes e benefícios da indústria farmacêutica. Outros 48% admitiram que, após terem recebido representantes dessas empresas, passaram a prescrever medicamentos da marca sugerida. Pior ainda: 22% disseram conhecer histórias de colegas que indicavam medicamentos desnecessários, queriam ganhar alguma vantagem da indústria farmacêutica.

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"Estudos" bancados pela indústria farmacêutica para ludibriar pacientes.

Mas, há ainda questões mais complexas nesse relacionamento que beira a promiscuidade. Um dos estudos dessa patrocinado por essa indústria, segundo a Cremesp, foi sobre o nível de colesterol "ruim". Antes, o normal era colesterol até 250 mg/dl. Aí baixou para 200. O mundo começou a engolir Sinvastatina, por exemplo, como se fosse dropes de hortelã. Depois, estudos novos e independentes dessa indústria, mostraram que era o velho 250. Mas aí já passaram cinco anos e um monte de gente que não precisava, tomou o remédio. A indústria faturou bilhões.

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O jeito é comungar ciência com arte.

A tecnologia trouxe mais humanização aos atendimentos. Tratar com anestesia é humanizar. Cirurgias menos invasivas também. Só precisam resgatar o que deveria ser o maior valor - o interesse real e verdadeiro pelo bem do paciente. Só ciência fica incompleto. Só arte - ser bonzinho - é pior ainda. É preciso buscar um equilíbrio entre humanização e conhecimento científico.
Mas não pensem que a vida deles é bela, acima de tudo e de todos. A pressão a que são submetidos é monstruosa. Nos EUA, cerca de 400 médicos se suicidam todos os anos. No Brasil, 1,7% das causas de morte de médicos é suicídio. Há pouco, um vídeo de um médico do Espírito Santo viralizou: revoltado com a falta de estrutura do local, o profissional teve um surto de raiva, quebrou móveis e derrubou gavetas. Muitos outros apanham de pacientes....



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