Misericórdia, a Santa Casa era dos velhinhos
A nossa, é uma Santa Casa da encrenca. As más noticias pululam dos leitos e escritórios daquele que ainda é o maior hospital do Mato Grosso do Sul. Para entender seus meandros há necessidade de conhecer a história desses centros de filantropia. É nela que encontraremos a essência dos problemas. Problemas que não são atuais. A chave está na evolução da relação entre a caridade individual, a caridade institucionalizada das contratações religiosas e a ação social do Estado. Elas nasceram dentro desse laço de encrenca: a mistura da caridade com a ação estatal. E nunca encontraram uma solução.
Nascem as Misericórdias em Portugal.
As Santas Casas não são um projeto nacional. Surgiram em Portugal. Desde seu alvorecer, houve desentendimento. Surgiu em uma cerimônia que teve lugar no dia 15 de agosto de 1.498, em uma capela de Lisboa. Seu “Compromisso” afirmava que “ todos os homens eram filhos do mesmo Deus criador“. Deveria tratar dos enfermos, socorrer os pobres, amparar os órfãos e acompanhar os moribundos, dar assistência moral aos presos e garantir aos mortos um lugar de sepultura. Com tamanho espectro de ação, havia necessidade de uma imensa fortuna para praticá-los. Foi assim que privilegiaram, inicialmente, os cuidados com os idosos.
A viúva do rei e o dinheiro.
D.Leonor, viúva de D.João II, foi sua fundadora, aquela que colocava muito dinheiro na Misericórdia. Nasce, portanto, do dinheiro da viúva voltado para a caridade, misturado com o dinheiro do governo. Naquela época, a caridade tinha um lugar especial na sociedade. Só era “homem de bem” aquele que gastava muito dinheiro com caridade. Um conceito criado na Roma antiga, muito antes do cristianismo. Caridade tinha status elevado. Hoje, o que conta é o individualismo, a caridade virou fumaça. O egoísmo é a palavra que melhor define nosso tempo.
As Santas Casas brasileiras eram litorâneas.
Desde o século XVI, em quinze cidades brasileiras, os hospitais da Santa Casa de Misericórdia, quase todos modestos e em permanente estado de penúria, socorriam uma população de indigentes e moribundos. Tal modelo assistencial só se desenvolveu nas regiões litorâneas. O interior só teria Santas Casas 200 anos depois.
Cópia do modelo português.
O largo espectro de ação dessas Santas Casas iniciais era bem semelhante ao português. Forneciam comida aos famintos, vestiam os necessitados, abrigavam viajantes pobres, enterravam os mortos, mas antes de tudo isso, cuidavam dos velhinhos.
Velhos escravos abandonados.
Começaram a pipocar irmandades que se dedicavam sobretudo ao cuidado dos idosos. Os cuidados especiais eram voltados para os velhos escravos abandonados pelos senhores. O dinheiro saia dos cofres das congregações religiosas. Nelas, havia alguns que, embora sadios, encontravam nesses prédios o único lugar para viver. Volto a questionar: a situação financeira das Santas Casas brasileiras tem solução?
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