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Entre Risco e Decisão

A empresa vale milhões. A crise custa R$ 200 mil.

Por Rodrigo Gonçalves Pimentel (*) | 03/06/2026 16:40

Conheço empresários que possuem fazendas, imóveis, galpões, maquinário e participações societárias.

Patrimônios construídos ao longo de décadas.

Patrimônios que, no papel, valem dezenas de milhões de reais.

Mas que, diante de uma necessidade urgente de R$ 200 mil, entram em desespero.

Parece contraditório.

Mas não é.

É mais comum do que a maioria imagina.

Porque existe uma diferença enorme entre ter patrimônio e ter liquidez.

E muita gente só descobre isso quando a pressão chega.

Imagine a seguinte situação.

Uma ação judicial inesperada.

Um imposto vencendo.

Uma dívida que precisa ser renegociada.

Um inventário.

Ou simplesmente uma crise de mercado que exige caixa imediato.

Nessa hora, ninguém aceita hectares como pagamento.

Ninguém aceita participação societária.

Ninguém aceita uma máquina agrícola parada no barracão.

A crise cobra dinheiro.

E cobra agora.

É nesse momento que muitos empresários descobrem que são ricos no papel e vulneráveis na prática.

O problema não está no patrimônio.

O problema está na estrutura.

Durante anos, o empresário brasileiro foi ensinado a crescer.

Comprar mais terra.

Expandir a operação.

Construir novos ativos.

Reinvestir tudo.

E isso faz sentido.

O problema é quando toda a riqueza fica presa dentro dos ativos.

Porque patrimônio preso não paga imposto.

Patrimônio preso não compra tempo.

Patrimônio preso não negocia com banco quando o crédito desaparece.

Patrimônio preso não protege a família quando surge uma emergência.

Só liquidez faz isso.

E quando ela não existe, a decisão deixa de ser estratégica e passa a ser forçada.

É aí que começam os erros caros.

A terra é vendida na baixa.

O imóvel é negociado às pressas.

A participação societária é cedida por um valor inferior ao que realmente vale.

Não porque o ativo era ruim.

Mas porque o proprietário perdeu a capacidade de escolher.

Existe uma diferença brutal entre vender porque você quer e vender porque você precisa.

Quem vende porque quer negocia.

Escolhe o momento.

Escolhe o comprador.

Escolhe o preço.

Quem vende porque precisa aceita.

Aceita desconto.

Aceita prazo ruim.

Aceita perder valor.

Aceita abrir mão de anos de construção para resolver um problema imediato.

E esse talvez seja o maior risco patrimonial que existe.

Não é a falta de patrimônio.

É a falta de liberdade para decidir.

O curioso é que a iliquidez quase nunca aparece nos momentos bons.

Enquanto o faturamento cresce, o crédito flui e a operação funciona, tudo parece sob controle.

O empresário olha para o patrimônio crescendo e acredita que está protegido.

Mas patrimônio não atravessa crise sozinho.

Estrutura atravessa.

Planejamento atravessa.

Liquidez atravessa.

No fim, patrimônio forte não é o que parece maior.

É o que consegue suportar pressão sem desmontar aquilo que levou uma vida inteira para ser construído.

Porque liquidez não é luxo.

Liquidez é poder de decisão.

E poder de decisão continua sendo um dos ativos mais valiosos que um empresário pode ter.

(*) Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande.

Siga no Instagram: @rodrigogpimentell