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Ninguém acima da lei

Entre o voto e a frustração democrática atuais no Brasil

Por André Borges (*) | 02/04/2026 08:10

A frase “todo o poder emana do povo” é a base da nossa República (art. 1º da Constituição). No entanto, para muitos cidadãos, ela soa distante da realidade. Filas nos hospitais, insegurança nas ruas e dificuldades econômicas fazem parecer que essa promessa nunca se cumpre.

Para entender essa frustração, é importante enxergar a democracia como ela é: uma ferramenta humana e imperfeita. Como disse Winston Churchill, é o pior dos regimes – exceto todos os outros. Ou seja, não é perfeita, mas ainda é a melhor opção disponível.

Uma forma simples de visualizar isso é imaginar a democracia como um carro antigo. Ele faz barulho, consome muito e quebra às vezes. Mas tem algo essencial: o volante está nas mãos do povo. Abrir mão da democracia por frustração é como pular desse carro em movimento – pode até acabar com o incômodo momentâneo, mas deixa todos sem controle do caminho.

Grande parte da frustração vem de um ciclo repetido de esperança e decepção. A cada eleição, o voto é tratado como solução para todos os problemas. O eleitor deposita ali suas expectativas de uma vida melhor. Quando os resultados não vêm rapidamente, surge o desânimo.

É nesse momento que aparece o pensamento de que “todos os políticos são iguais” ou que “votar não adianta”. Mas isso é perigoso. Na política, não existe espaço vazio. Quando o cidadão se afasta, outros ocupam esse espaço – muitas vezes defendendo interesses próprios.

Outro problema está na forma como muitos enxergam seu papel. O eleitor costuma agir como um espectador: vota e depois apenas observa. Se o resultado é ruim, reclama e espera a próxima eleição.

Mas a democracia não funciona assim. Ela exige participação constante. O voto é apenas o começo. Depois dele, é preciso acompanhar, cobrar e fiscalizar. Assim como um sócio acompanha uma empresa, o cidadão precisa acompanhar o governo.

Também é importante entender que os políticos vêm da própria sociedade. Eles refletem nossos valores, qualidades e falhas. Por isso, melhorar a política depende também de melhorar a cidadania.

Nesse ponto, a educação política é fundamental. Não se trata de conhecer leis complexas, mas de entender o básico. Saber, por exemplo, o que cada cargo pode ou não fazer. Sem esse conhecimento, o eleitor fica vulnerável a promessas irreais.

Também é preciso reconhecer que mudanças na política levam tempo. Vivemos na era da rapidez, mas decisões públicas exigem diálogo e negociação. É um processo lento, mas necessário para evitar imposições e conflitos maiores.

Em vez de destruir o sistema por causa da demora, o caminho é melhorar as escolhas. Isso significa valorizar propostas concretas e metas claras, em vez de discursos vazios.

No fim das contas, o poder do povo é como uma força que precisa ser bem direcionada. Quando usada com responsabilidade, pode gerar avanços reais. Mas, sem participação ativa, se perde ou é usada por poucos.

A democracia deixa de ser frustrante quando entendemos que o voto não é o fim, mas o início do processo. Esperança não é esperar passivamente, mas agir, acompanhar e participar.

O poder é do povo – mas só funciona quando o povo decide usá-lo.

(*)André Borges, advogado e professor de direito constitucional.