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Sabor e Negócios

Em que momento eu deixei de enxergar as pessoas?

Por Michelle Pinho (*) | 20/08/2026 13:17

Há algumas semanas eu tenho vivido um processo que talvez seja um dos mais importantes da minha vida como empresária.

E, curiosamente, ele não começou quando aprendi uma nova estratégia de gestão, quando aumentei faturamento ou organizei processos.

Começou quando me fiz uma pergunta que doeu.

Em que momento eu deixei de enxergar as pessoas?

Não estou falando de educação.

Sempre procurei tratar todos com respeito.

Também não estou falando de maldade.

Nunca abri uma empresa pensando em usar pessoas.

Mas percebi que, sem perceber, comecei a enxergar primeiro as funções, os resultados, as metas, os indicadores, as contas que precisavam ser pagas.

As pessoas passaram a existir dentro de um organograma.

E isso me assustou.

Quando abri minha empresa, queria construir uma vida melhor para mim e para minha família.

Queria prosperar.

Queria ter liberdade financeira.

Queria vencer.

E não existe nada de errado nisso.

O problema é que nós, empresários, somos constantemente ensinados a medir sucesso por números.

Faturamento.

Margem.

Produtividade.

Crescimento.

Tudo isso é importante.

Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece nas planilhas:

Quem são as pessoas que estão construindo esse resultado comigo?

Quais são os sonhos delas?

O que elas desejam para a própria vida?

O que as faz levantar da cama todas as manhãs?

Percebi que eu sabia quanto cada colaborador produzia.

Mas, muitas vezes, não sabia qual era o sonho daquela pessoa.

E isso me fez pensar.

Quantas vezes cobramos comprometimento sem conhecer a história de quem está do outro lado?

Quantas vezes falamos sobre cultura, mas nunca perguntamos onde aquela pessoa deseja chegar?

Talvez, sem perceber, a gente acabe sufocando sonhos simplesmente porque nunca fez questão de conhecê-los.

Foi então que outra pergunta me atravessou.

Que tipo de empresária eu me tornei?

Mais do que isso...

Que tipo de cristã eu estava sendo dentro da minha própria empresa?

Sempre gostei de dizer que empreender era um chamado.

Mas percebi que, na correria do dia a dia, eu estava vivendo muito mais o Evangelho dos resultados do que o Evangelho de Cristo.

Jesus nunca olhou primeiro para a função das pessoas.

Ele olhava para elas.

Via pescadores antes de enxergar discípulos.

Via cobradores de impostos antes de enxergar apóstolos.

Via histórias antes de enxergar talentos.

Via filhos antes de enxergar trabalhadores.

Talvez seja justamente isso que eu esteja reaprendendo.

Empresas precisam de metas.

Precisam de processos.

Precisam de lucro.

Mas nenhuma delas deveria nos fazer esquecer que cada colaborador é um ser humano inteiro, carregando medos, sonhos, dores e uma dignidade que não depende do cargo que ocupa.

Hoje, escrever sobre empreendedorismo na gastronomia tem feito algo que eu não esperava.

Tem me trazido de volta.

De volta ao motivo pelo qual escolhi liderar.

De volta ao entendimento de que uma empresa não é construída apenas por produtos ou estratégias.

Ela é construída por pessoas.

E, para mim, como empresária cristã, isso ganhou um significado ainda mais profundo.

Porque amar o próximo como a si mesmo não começa quando saio da empresa.

Começa quando entro nela.

Durante muito tempo achei que Deus tinha me confiado um negócio para cuidar. Hoje começo a entender que Ele me confiou pessoas. E talvez essa seja a maior responsabilidade — e o maior privilégio — de quem escolhe liderar.

Michelle Pinho — CEO Padoca do Enaldo e sócia da Solutri Soluções. Colunista da Sabor e Negócios, escreve sobre gestão, propósito e os bastidores reais da gastronomia com alma. 📩 negocioscomsabor@gmail.com — para quem cansou de empreender sozinho.