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Sabor e Negócios

Da cozinha de casa às gôndolas, kombucha de Bonito fermenta inovação com frutos

Entre pesquisas, fermentações e persistência, empresa de Bonito cria bebidas artesanais

Por José Cândido | 31/07/2026 13:47
Da cozinha de casa às gôndolas, kombucha de Bonito fermenta inovação com frutos
Mirian Lúcia Queiroz e Ronaldo Caires criaram a Guavira Alimentos, marca de kombuchas artesanais que valoriza os frutos nativos do Cerrado e a identidade regional. Créditos: Silva Fotógrafo

O que nasceu da curiosidade de experimentar uma bebida fermentada virou um exemplo de como a biodiversidade de Mato Grosso do Sul pode se transformar em inovação, renda e identidade regional. Em Bonito, Mirian Lúcia Queiroz e Ronaldo Caires transformaram uma produção doméstica de kombucha em um negócio artesanal que tem como principal ingrediente os frutos do Cerrado e do Pantanal.

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O casal Mirian e Ronaldo, de Bonito (MS), transformou a curiosidade pela kombucha em negócio artesanal com frutos do Cerrado e Pantanal. À frente da Guavira Alimentos, lançaram a kombucha de butiá, registrada no Ministério da Agricultura. Com apoio do Sebrae e Senac, a empresa está em 21 pontos de venda no Estado e une biodiversidade, cultura indígena Kadiwéu e renda para pequenos coletores regionais.

À frente da Guavira Alimentos, o casal acaba de iniciar uma nova etapa da empresa com o lançamento da kombucha de butiá, produto registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com rotulagem regularizada e pronto para chegar às gôndolas. O Santos Supermercado, em Bonito, será o primeiro ponto de venda da novidade.

A trajetória, porém, está longe de ter sido simples. Antes da regularização e do reconhecimento comercial, houve muitos testes, erros, estudos e até madrugadas interrompidas pelo estouro de garrafas provocado pela pressão da fermentação.

Tudo começou quando Mirian conheceu a kombucha na casa de uma amiga. Encantada com a bebida, levou a novidade para Ronaldo, que já trabalhava com gastronomia e decidiu mergulhar no universo da fermentação. Com uma cultura de bactérias e leveduras, conhecida como scoby, passaram a produzir a bebida apenas para consumo da família.

A cozinha de casa rapidamente virou um laboratório de experiências. Em recipientes de vidro reaproveitados, surgiam receitas com frutas, ervas e especiarias, enquanto Ronaldo estudava formas de controlar acidez, gaseificação e estabilidade da bebida.

Os desafios eram constantes. Algumas receitas apresentavam resíduos, outras fermentavam além do esperado. Em uma experiência utilizando guavira, a fermentação foi tão intensa que diversas garrafas explodiram durante a madrugada.

O episódio, em vez de desanimar o casal, serviu como incentivo para buscar conhecimento técnico. Ronaldo participou de cursos sobre fermentação artesanal, padronização e produção em escala, aperfeiçoando cada etapa do processo até alcançar um padrão de qualidade capaz de chegar ao mercado.

O sabor da identidade regional

Quando decidiram comercializar a bebida, Mirian e Ronaldo tinham uma certeza: não queriam produzir apenas mais uma kombucha.

Enquanto o mercado oferecia sabores tradicionais, eles enxergaram nos frutos nativos do Cerrado uma oportunidade de criar um produto com identidade sul-mato-grossense.

A primeira aposta foi a guavira, fruta símbolo da região e presente na memória afetiva de Ronaldo desde a infância. Foram cerca de 18 meses de pesquisas até encontrar a combinação ideal entre polpa, filtragem e fermentação.

A escolha também representava um compromisso com quem vive da coleta desses frutos.

Mais do que valorizar ingredientes regionais, o empreendimento fortalece uma cadeia econômica formada por pequenos coletores e famílias que encontram na biodiversidade uma importante fonte de renda.

Essa ligação com o território também inspirou a identidade visual da empresa. Os rótulos utilizam grafismos do povo indígena Kadiwéu, reforçando a conexão entre cultura, natureza e gastronomia.

Quando a legislação muda os planos

O sucesso inicial sofreu um duro revés.

Mesmo conquistando consumidores em Bonito, Campo Grande, Sidrolândia e Maracaju, a kombucha de guavira precisou ser retirada do mercado porque o fruto não estava incluído na lista de ingredientes autorizados pela legislação para esse tipo de bebida.

A decisão interrompeu o processo de regularização da fábrica e praticamente paralisou a produção durante um ano e meio.

Foi um período de incertezas, no qual o casal manteve apenas pequenas produções para preservar as culturas de fermentação enquanto buscava alternativas legais para continuar o negócio.

Com apoio técnico especializado, conseguiu adequar o empreendimento às exigências sanitárias, desenvolver novos sabores autorizados e concluir o registro dos produtos.

Hoje, a Guavira Alimentos está presente em 21 pontos de venda distribuídos por Bonito, Campo Grande e outros municípios do Estado.

O butiá abre um novo caminho

Sem abandonar a proposta de valorizar a biodiversidade regional, Ronaldo encontrou no butiá um novo protagonista.

Depois de quatro meses de desenvolvimento, nasceu a kombucha de butiá, cujo sabor combina acidez inicial, notas adocicadas que lembram coco e um leve toque cítrico.

Além de ampliar o portfólio da empresa, o novo produto pode incentivar outra cadeia produtiva regional, criando mercado para coletores que atuam durante a safra do fruto.

Mais do que lançar uma nova bebida, o casal pretende mostrar que os sabores do Cerrado ainda têm enorme potencial para conquistar consumidores dentro e fora de Mato Grosso do Sul.

Conhecimento que gera desenvolvimento

Ao longo da caminhada, a Guavira Alimentos contou com consultorias, capacitações e apoio técnico do Sebrae/MS e do Senac para estruturar o processo produtivo, adequar rótulos e concluir o registro dos produtos.

A empresa também participou do programa Inova Cerrado, voltado ao fortalecimento de pequenos negócios ligados à biodiversidade brasileira.

O suporte permitiu reduzir custos de regularização, profissionalizar a gestão e preparar a marca para crescer sem perder sua essência.

Hoje, a história da Guavira Alimentos mostra que inovação nem sempre nasce em grandes laboratórios ou indústrias. Às vezes, começa em uma cozinha de casa, impulsionada pela curiosidade, pelo conhecimento e pela disposição de transformar um fruto típico do Cerrado em um produto capaz de representar a riqueza natural e cultural de Mato Grosso do Sul.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.