Da cozinha de casa às gôndolas, kombucha de Bonito fermenta inovação com frutos
Entre pesquisas, fermentações e persistência, empresa de Bonito cria bebidas artesanais

O que nasceu da curiosidade de experimentar uma bebida fermentada virou um exemplo de como a biodiversidade de Mato Grosso do Sul pode se transformar em inovação, renda e identidade regional. Em Bonito, Mirian Lúcia Queiroz e Ronaldo Caires transformaram uma produção doméstica de kombucha em um negócio artesanal que tem como principal ingrediente os frutos do Cerrado e do Pantanal.
RESUMO
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À frente da Guavira Alimentos, o casal acaba de iniciar uma nova etapa da empresa com o lançamento da kombucha de butiá, produto registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com rotulagem regularizada e pronto para chegar às gôndolas. O Santos Supermercado, em Bonito, será o primeiro ponto de venda da novidade.
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A trajetória, porém, está longe de ter sido simples. Antes da regularização e do reconhecimento comercial, houve muitos testes, erros, estudos e até madrugadas interrompidas pelo estouro de garrafas provocado pela pressão da fermentação.
Tudo começou quando Mirian conheceu a kombucha na casa de uma amiga. Encantada com a bebida, levou a novidade para Ronaldo, que já trabalhava com gastronomia e decidiu mergulhar no universo da fermentação. Com uma cultura de bactérias e leveduras, conhecida como scoby, passaram a produzir a bebida apenas para consumo da família.
A cozinha de casa rapidamente virou um laboratório de experiências. Em recipientes de vidro reaproveitados, surgiam receitas com frutas, ervas e especiarias, enquanto Ronaldo estudava formas de controlar acidez, gaseificação e estabilidade da bebida.
Os desafios eram constantes. Algumas receitas apresentavam resíduos, outras fermentavam além do esperado. Em uma experiência utilizando guavira, a fermentação foi tão intensa que diversas garrafas explodiram durante a madrugada.
O episódio, em vez de desanimar o casal, serviu como incentivo para buscar conhecimento técnico. Ronaldo participou de cursos sobre fermentação artesanal, padronização e produção em escala, aperfeiçoando cada etapa do processo até alcançar um padrão de qualidade capaz de chegar ao mercado.
O sabor da identidade regional
Quando decidiram comercializar a bebida, Mirian e Ronaldo tinham uma certeza: não queriam produzir apenas mais uma kombucha.
Enquanto o mercado oferecia sabores tradicionais, eles enxergaram nos frutos nativos do Cerrado uma oportunidade de criar um produto com identidade sul-mato-grossense.
A primeira aposta foi a guavira, fruta símbolo da região e presente na memória afetiva de Ronaldo desde a infância. Foram cerca de 18 meses de pesquisas até encontrar a combinação ideal entre polpa, filtragem e fermentação.
A escolha também representava um compromisso com quem vive da coleta desses frutos.
Mais do que valorizar ingredientes regionais, o empreendimento fortalece uma cadeia econômica formada por pequenos coletores e famílias que encontram na biodiversidade uma importante fonte de renda.
Essa ligação com o território também inspirou a identidade visual da empresa. Os rótulos utilizam grafismos do povo indígena Kadiwéu, reforçando a conexão entre cultura, natureza e gastronomia.
Quando a legislação muda os planos
O sucesso inicial sofreu um duro revés.
Mesmo conquistando consumidores em Bonito, Campo Grande, Sidrolândia e Maracaju, a kombucha de guavira precisou ser retirada do mercado porque o fruto não estava incluído na lista de ingredientes autorizados pela legislação para esse tipo de bebida.
A decisão interrompeu o processo de regularização da fábrica e praticamente paralisou a produção durante um ano e meio.
Foi um período de incertezas, no qual o casal manteve apenas pequenas produções para preservar as culturas de fermentação enquanto buscava alternativas legais para continuar o negócio.
Com apoio técnico especializado, conseguiu adequar o empreendimento às exigências sanitárias, desenvolver novos sabores autorizados e concluir o registro dos produtos.
Hoje, a Guavira Alimentos está presente em 21 pontos de venda distribuídos por Bonito, Campo Grande e outros municípios do Estado.
O butiá abre um novo caminho
Sem abandonar a proposta de valorizar a biodiversidade regional, Ronaldo encontrou no butiá um novo protagonista.
Depois de quatro meses de desenvolvimento, nasceu a kombucha de butiá, cujo sabor combina acidez inicial, notas adocicadas que lembram coco e um leve toque cítrico.
Além de ampliar o portfólio da empresa, o novo produto pode incentivar outra cadeia produtiva regional, criando mercado para coletores que atuam durante a safra do fruto.
Mais do que lançar uma nova bebida, o casal pretende mostrar que os sabores do Cerrado ainda têm enorme potencial para conquistar consumidores dentro e fora de Mato Grosso do Sul.
Conhecimento que gera desenvolvimento
Ao longo da caminhada, a Guavira Alimentos contou com consultorias, capacitações e apoio técnico do Sebrae/MS e do Senac para estruturar o processo produtivo, adequar rótulos e concluir o registro dos produtos.
A empresa também participou do programa Inova Cerrado, voltado ao fortalecimento de pequenos negócios ligados à biodiversidade brasileira.
O suporte permitiu reduzir custos de regularização, profissionalizar a gestão e preparar a marca para crescer sem perder sua essência.
Hoje, a história da Guavira Alimentos mostra que inovação nem sempre nasce em grandes laboratórios ou indústrias. Às vezes, começa em uma cozinha de casa, impulsionada pela curiosidade, pelo conhecimento e pela disposição de transformar um fruto típico do Cerrado em um produto capaz de representar a riqueza natural e cultural de Mato Grosso do Sul.
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