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Economia

Margem de lucro dos postos sobe e compromete medidas contra alta do combustível

Preços de gasolina e diesel aumentaram mais de 30%, mesmo com medidas adotadas para aliviar consumidor

Por Viviane Monteiro, de Brasília | 27/03/2026 14:58
Margem de lucro dos postos sobe e compromete medidas contra alta do combustível
Caminhões parados em posto de combustíveis em Campo Grande (Foto: Paulo Francis)

Mesmo após uma série de medidas do governo federal para conter a alta dos combustíveis, distribuidoras e postos do Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul, ampliaram suas margens de lucro, pressionando ainda mais o consumidor e reduzindo o efeito das ações oficiais.

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Postos de combustíveis e distribuidoras do Centro-Oeste aumentaram suas margens de lucro após o início da guerra no Oriente Médio, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais. A margem de distribuição e revenda da gasolina na região subiu de R$ 1,11 para R$ 1,32, enquanto o diesel S-500 saltou de R$ 0,91 para R$ 2,37. O aumento ocorre apesar das medidas do governo federal para conter a alta dos preços, como isenção de tributos e subsídios. Especialistas apontam que a privatização de empresas estratégicas do setor e a política de Preço de Paridade de Importação contribuíram para o cenário atual.

Levantamento do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais) aponta que a margem de distribuição e revenda da gasolina na região subiu de R$ 1,11 para R$ 1,32 desde o início da guerra no Oriente Médio, em 28 de fevereiro. No caso do diesel S-500 – utilizado principalmente por veículos mais antigos – o salto foi ainda mais expressivo, de R$ 0,91 para R$ 2,37 no mesmo período. Já o diesel S-10, utilizado por veículos mais novos, foi a exceção e registrou queda na margem, de R$ 1,07 para R$ 0,94.

O recorte regional foi elaborado a pedido do Campo Grande News pelo economista Eric Gil Dantas, coordenador do instituto. O estudo não detalha dados por estado.

Os patamares, contudo, ficaram abaixo da média nacional. Em todo o país, a margem média de lucro de distribuidoras e postos cresceu mais de 30%, segundo os dados mais atuais do Ibeps. No diesel S-10, a alta foi de 7,5%, enquanto o diesel S-500 disparou 72%. Já a gasolina acumulou aumento de 32% nas margens desde o início da guerra.

Os percentuais se referem exclusivamente à parcela do preço final apropriada por distribuidoras e postos – e não ao valor total pago pelo consumidor.

“Diferentemente da média nacional, no Centro-Oeste as altas ficaram concentradas na gasolina (19%) e no diesel S-500 (37%), que atende uma parcela relevante do transporte de cargas. Esse último é utilizado por caminhões montados até 2011, e que é responsável por 30% do total de diesel consumido na região”, explicou Dantas, doutor em Ciência Política pela UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Mesmo que a escalada do petróleo no mercado internacional seja frequentemente usada como justificativa para o aumento dos preços, os dados indicam que o avanço das margens vai além desse fator e se mantém como tendência estrutural. Em março de 2021, a margem da gasolina na região do Centro-Oeste era de R$ 0,54 (ou R$ 0,72 em valores corrigidos pelo IPCA), praticamente metade do preço atual (R$ 1,32). Ou seja, os valores cresceram 144% desde 2021, quatro vezes acima da inflação acumulada nesse período, na ordem de 30% a 35%.

O aumento abusivo dos preços dos combustíveis ocorre apesar de medidas recentes do governo federal, como a isenção de tributos sobre o diesel, aumento da taxação sobre exportações de petróleo, subsídios a produtores e importadores e promessas de intensificação da fiscalização. Na prática, parte desses esforços tem sido absorvida ao longo da cadeia, sem chegar integralmente ao consumidor final.

Margem de lucro dos postos sobe e compromete medidas contra alta do combustível

Efeitos da privatização sobre os preços 

Para Dantas, o avanço das margens está ligado a fatores estruturais do mercado. O primeiro decorre do ciclo de alta entre 2021 e 2022, quando os combustíveis atingiram os maiores patamares de preços reais da história do país. Ele lembra que naquela ocasião, a política de Preço de Paridade de Importação (PPI), adotada pela Petrobras, ampliou a volatilidade e abriu espaço para reajustes frequentes.

O segundo fator, segundo o economista, deve-se à privatização de empresas estratégicas do setor, como BR Distribuidora e Liquigás, que atuavam como moderadoras de margem em um mercado altamente concentrado. Ou seja, “com a saída dessas empresas do controle estatal, perdeu-se um instrumento importante” de regulação indireta. “Isso contribuiu para margens mais elevadas ao longo do tempo”, avalia.

Estados tentam reagir, mas efeito é incerto

Diante do avanço dos preços, 21 estados – incluindo Mato Grosso do Sul – aderiram à proposta do governo federal de intensificar a fiscalização sobre possíveis abusos.

O acordo, aprovado em 18 de março pelo Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária), prevê o compartilhamento em tempo real de notas fiscais de comercialização de combustíveis, inclusive no varejo, com aval da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

A iniciativa faz parte de um pacote emergencial anunciado em meio à escalada das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã. Ainda assim, especialistas apontam que, sem mudanças estruturais no mercado, o impacto dessas medidas tende a ser limitado diante da capacidade do setor de preservar – e até ampliar suas margens.