Movimento nos aeroportos de MS oscila antes de corte nacional de voos
Companhias aéreas já cortam operações no país pela alta do combustível
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A crise da aviação nacional encontra Mato Grosso do Sul em situação desigual. Dados da Anac até março mostram ritmos opostos nos aeroportos do Estado: Campo Grande perdeu passageiros, Ponta Porã encolheu 27,3% no RPK, Bonito cresceu 55,8%, Corumbá oscilou e Dourados avançou. O principal risco regional é a dependência de uma única companhia em cidades do interior, fator agravado pelos cortes de oferta das aéreas devido à alta do querosene de aviação.
A crise diante da alta do querosene de aviação que levou companhias aéreas a cortar voos no Brasil ainda não aparece por completo em Mato Grosso do Sul, mas os dados locais já mostram um alerta: fora de Campo Grande, vários aeroportos dependem de poucas empresas, em alguns casos de apenas uma companhia.
- Leia Também
- Frio de 15°C muda rotina e faz campo-grandense tirar casaco do armário
- Padre influenciador critica pregação em voo e diz que fé exige "lugar adequado”
Levantamento feito pelo Campo Grande News, nesta segunda-feira (18), no Relatório de Demanda e Oferta da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), mostra que os aeroportos do Estado chegaram a março em situações diferentes. Campo Grande perdeu fôlego, Ponta Porã encolheu, Bonito cresceu, Corumbá oscilou e Dourados avançou.
O problema é que esse retrato ainda mostra mais o ponto de partida do Estado diante da crise do que o impacto real dos cortes anunciados pelas empresas. Isso porque os dados disponíveis da Anac vão até março, enquanto a redução de voos provocada pela alta do QAV (querosene de aviação) deve aparecer com mais força nos meses seguintes.
Reportagem do Valor Econômico mostrou que a disparada do combustível, puxada pela alta do petróleo após o início da guerra no Oriente Médio, levou as aéreas a reverem a oferta de voos no País. Segundo o jornal, consulta ao SIROS (Sistema de Registro de Operações) da Anac indicava, em 2 de abril, previsão de 2.193 voos por dia em maio no mercado brasileiro. Em nova consulta, feita em 12 de maio, a oferta diária havia caído em 93 voos, redução de 4,3%, com cerca de 14 mil assentos a menos por dia.
Na prática, isso significa que as companhias começaram a cortar capacidade, aumentar tarifas e priorizar rotas mais rentáveis. Para Mato Grosso do Sul, o risco está justamente aí: aeroportos menores, com menor volume de passageiros e dependentes de uma única empresa, tendem a ficar mais expostos quando as empresas apertam a malha.
Na Capital, principal mercado aéreo do Estado, o Aeroporto Internacional de Campo Grande fechou março com 59,3 mil passageiros, 73,2 mil assentos ofertados e taxa de aproveitamento de 81%. Em janeiro, eram 62 mil passageiros, 73,4 mil assentos e ocupação de 84,3%.
Ou seja, a quantidade de assentos praticamente não mudou, mas menos pessoas viajaram. O aeroporto não teve corte forte de oferta até março, mas perdeu ocupação.
O mesmo movimento aparece no RPK, indicador que mede passageiros transportados por quilômetro voado. Em março, Campo Grande somou 52,5 milhões de RPK, queda de 9,8% em relação ao mesmo mês de 2025. O desempenho, porém, variou entre as empresas. A Latam cresceu 3,1%, enquanto a Gol caiu 11,2% e a Azul recuou 36,7%. No acumulado de abril de 2025 a março de 2026, o aeroporto registrou 670 milhões de RPK, queda de 1,2% ante o período anterior.
Em Ponta Porã, o sinal é mais preocupante. O aeroporto teve 1.009 passageiros em março, 1.714 assentos e taxa de aproveitamento de 58,9%. O RPK caiu 27,3% na comparação com março de 2025. No acumulado de 12 meses, a queda foi de 21,8%.
Além da retração, há outro fator de risco: no recorte analisado, o painel da Anac mostra a Azul com 100% da participação de mercado no aeroporto. Isso significa que qualquer ajuste feito pela companhia pode atingir diretamente a cidade.
Bonito aparece como exceção positiva. O aeroporto registrou 3.679 passageiros, 4.864 assentos e ocupação de 75,6% em março. No RPK, houve alta de 55,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No acumulado de 12 meses, o avanço foi de 12,7%.
Mesmo assim, o dado exige cautela. Em janeiro, Bonito tinha 4.563 passageiros, 5.518 assentos e ocupação de 82,7%. Portanto, o aeroporto cresceu no comparativo anual, mas perdeu força no curto prazo.
Corumbá mostra um quadro irregular. O aeroporto aparece sem movimento registrado em janeiro no painel da Anac, mas fechou março com 1.736 passageiros, 2.312 assentos e taxa de aproveitamento de 75,1%. No RPK, houve queda de 4,9% ante março de 2025.
No acumulado de 12 meses, porém, o crescimento foi de 78,7%. Esse avanço pode indicar retomada de operação, mas também pode ser efeito de uma base anterior muito baixa. Assim como Ponta Porã, Corumbá aparece com operação concentrada na Azul.
Dourados teve avanço entre janeiro e março. O aeroporto passou de 1.561 passageiros para 3.121 no período. A oferta também subiu, de 2.176 para 4.476 assentos. Apesar disso, a taxa de aproveitamento caiu de 71,7% para 69,7%.
No RPK, Dourados registrou 2,7 milhões em março e 10,6 milhões no acumulado de abril de 2025 a março de 2026. No recorte analisado, o painel da Anac mostra a Latam com 100% da participação de mercado no aeroporto.
Esse é o ponto central do levantamento: Mato Grosso do Sul não chegou a março com queda generalizada na aviação, mas também não está blindado. O mercado local tem aeroportos em ritmos diferentes e cidades do interior muito dependentes da decisão de uma única empresa.
No cenário nacional, essa dependência pesa ainda mais. Segundo o Valor, a Azul informou corte de 5% na oferta de assentos prevista para maio e junho, por causa da alta do QAV. O presidente da companhia, Abhi Shah, afirmou que a empresa tem feito ajuste de capacidade, aumento de tarifas e priorização de rotas mais rentáveis.
A Latam também cancelou projeções de crescimento de assentos para 2026 e reduziu em cerca de 3% a oferta prevista para junho. Já a Gol, conforme fontes ouvidas pelo jornal, teria cortado cerca de 6% da oferta prevista de assentos em maio e junho.
Com dados locais ainda limitados a março, a conclusão possível é cautelosa: a crise aérea nacional ainda não derrubou o mercado de Mato Grosso do Sul de forma ampla, mas encontra o Estado com fragilidades claras, principalmente no interior. Se os cortes avançarem, os aeroportos mais dependentes de uma única companhia devem ser os primeiros a sentir.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.


