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Educação e Tecnologia

Fies pode ser "luz no fim do túnel", mas traz dívida e desemprego como barreiras

Encurraladas por competição ou movidas pela urgência de ascender socialmente, classes baixas recorrem à opção

Por Cassia Modena | 14/02/2024 11:58
Depois de desistir da carreira de atleta, Rodrigo se deu bem financiando o curso de Medicina Veterinária (Foto: Arquivo pessoal)
Depois de desistir da carreira de atleta, Rodrigo se deu bem financiando o curso de Medicina Veterinária (Foto: Arquivo pessoal)

Fazer faculdade não era um sonho do nioaquense Rodrigo Nogueira, que cresceu no interior de Mato Grosso do Sul e foi ser jogador de futebol profissional em times da Capital e até de outros países. Mas a frustração atravessou os planos no esporte e o levou a encarar o mercado de trabalho formal aos 26 anos: na carteira teve registro de despachante, vigilante em uma pizzaria e da ralação da carga e descarga de mercadorias.

A insatisfação veio outra vez. Decidiu ouvir o conselho de uma tia e recorrer ao Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) para se formar em um curso superior e trabalhar com o que gosta. "Naquela fase da vida, não dava para estudar e passar anos tentando entrar em universidade gratuita. Não tinha tempo e precisava trabalhar", lembra.

Fez o financiamento em universidade particular de Campo Grande para entrar no curso de Agronomia há sete anos e depois mudou para Medicina Veterinária. "Cresci no sítio, então era o que eu gostava", fala. Financiou 100% do valor das mensalidades e começou a pagar a dívida depois de formado. Já saiu da faculdade empregado e hoje é um dos sócios de uma empresa que presta serviço em fazendas.

"Luz no fim do túnel" - Programa federal criado em 1999, durante o governo Henrique Fernando Cardoso, o Fies virou alternativa para pessoas de classe baixa que não podem pagar cursos universitários. Passou a ter juro zero em 2018 e, hoje, pode ser contratado por estudantes que comprovem ter renda familiar de até três salários mínimos.

As desvantagens na competição com jovens de classe alta, mais preparados por cursinhos caros para disputar vagas nas universidades públicas por meio do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou vestibulares, e a urgência de ascender socialmente com a ajuda do ensino superior são motivos que transformam o Fies na última esperança, explica o advogado Thiago Araújo, de Campo Grande.

Pátia de universidade particular da Capital lotado, em dia de aplicação de Enem (Foto: Arquivo/Paulo Francis)
Pátia de universidade particular da Capital lotado, em dia de aplicação de Enem (Foto: Arquivo/Paulo Francis)

"Tem sido a luz no fim do túnel para uma pessoas de condição social inferior, que não estudam em escola particular em toda a sua vida e tendem a não ter nota suficiente no Enem para ser aprovado em universidade pública ou conseguir bolsa pelo Prouni (Programa Universidade para Todos)", avalia.

Endividados - Mas renegociar contratos do Fies e conseguir descontos na dívida virou uma das causas que mais chegam ao escritório de advocacia onde Thiago trabalha.

Ele explica que os mais atendidos são os estudantes que financiam o curso de Medicina e buscam a revisão dos acordos por não conseguirem pagar prestações durante a residência, ou que pedem abate nos valores devidos por trabalharem ou terem trabalhado no SUS (Sistema Único de Saúde).

O advogado recomenda analisar com atenção os termos antes de entrar nos financiamentos da área da educação, pois as instituições particulares podem estar superfaturando o valor total do curso. "Essa é uma prática abusiva que já verificamos principalmente nos mais antigos, mas ainda que ainda pode acontecer", afirma.

Dados: MEC/Arte: Bárbara Campiteli
Dados: MEC/Arte: Bárbara Campiteli

Coordenadora há 15 anos do curso pré-vestibular do Instituto Luther King, em Campo Grande, Renillda Ferreira dos Santos afirma que a universidade pública é sempre defendida como a primeira opção para os alunos da Classe D e E que o local atende com exclusividade. A meta do instituto é a de ajudá-los a acessar a educação pública, justamente por causa das origens.

Começar a vida profissional endividado por ter feito o financiamento é algo que não se recomenda por lá, segundo Renilda. "Se não conseguiu passar num ano, a gente incentiva muito a tentar novamente e focar no Enem e vestibulares, ou buscar uma bolsa de estudos", comenta.

É o caso da agente de atendimento Thalita Souza, 27, de Campo Grande. Ela diz que financiou o curso de Direito "por desespero e pressão de escolher alguma coisa" e hoje deve montante que nem sabe o tamanho. Não cumpriu os estágios obrigatórios do curso e o abandonou, por ter se encontrado em outra área.

Hoje faz um curso técnico em gestão financeira. "Estou gostando e quase terminando. Consigo pagar e é valorizado no mercado de trabalho", conta. Diz que vai renegociar a dívida do Fies. "É minha esperança agora, porque o que devo me impede de financiar uma casa própria", afirma.

O que poderia mudar - Coordenador do Fórum Estadual de Educação de Mato Grosso do Sul e professor do Ensino Médio na rede estadual de ensino há 20 anos, Onivan de Lima Correa, avalia que houve avanço na estrutura e no número de vagas ofertadas pelas universidades públicas brasileiras, mas que é preciso melhorar.

Ele acredita que, à medida que isso acontecer, o Fies pode deixar de ser causador de tantos endividamentos. Vai atrair mais quem quer fazer um curso não disponível em universidades públicas ou quem quer estudar em uma certa instituição particular, que é referência na formação que se quer atuar.

Problema principal do Fies hoje, na opinião do educador, é não ter um projeto de encaminhamento ao mercado de trabalho após o fim do curso. "Ok o programa facilitar o ingresso na universidade, mas e o que fazer com o canudo e com uma dívida enorme? Falta o governo ajudar a entrar no mercado de trabalho, para completar o ciclo", sugere.

Quanto à qualidade do ensino das instituições que oferecem o Fies, Onivan explica que é preciso se atentar aos critérios mínimos. "Não é porque é particular que não é uma boa universidade. Não podem entrar as que oferecem formação precária, e só estão lá pelos financiamentos", diz.

Outra questão que o professor levanta é a necessidade de haver mais vagas para cursos técnicos gratuitos, como outra alternativa para o plano de vida da juventude. "Nem sempre o estudante quer terminar o Ensino Médio e começar um curso superior, não existe só esse caminho. Muitas vezes, um curso técnico oferecido num Instituto Federal, por exemplo, supre o que aquela pessoa almeja", fala. E acrescenta: "o que também se precisa é aumentar o leque de opções e não só ficar na área de tecnologia. Um curso de barbeiro gratuito, por exemplo, iria ser interessante", finaliza.

Novo edital e Desenrola - O MEC (Ministério da Educação) anunciou este ano que o Fies terá mudanças em relação aos anos anteriores. Elas serão conhecidas em março, quando a pasta prevê publicar novo edital para financiamentos em 2024.

Estudante da Capital mostra dívida com o Fies (Foto: Arquivo/Marcos Maluf)
Estudante da Capital mostra dívida com o Fies (Foto: Arquivo/Marcos Maluf)

Já aqueles que possuem contratos firmados a partir de 2017 e estão inadimplentes poderão participar da campanha nacional Desenrola Fies até 31 de maio deste ano, para obter descontos superiores a 90% no débito consolidado e de 100% nos juros e multas. Interessados podem procurar agências bancárias do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal ou renegociar via aplicativo.

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