Imagens antigas revivem a Copa em que Campo Grande sonhou alto antes do 7 a 1
Imagens cedidas pelo SBT MS mostram ruas pintadas, comércio aquecido e torcida confiante em 2014
Antes do silêncio constrangedor do 7 a 1, Campo Grande viveu uma Copa de entusiasmo quase ingênuo. Em 2014, quando o Brasil sediou o Mundial, a cidade não recebeu jogos, ficou fora das subsedes, mas decidiu entrar em campo mesmo assim. Ruas foram pintadas, monumentos ganharam verde e amarelo, comerciantes venderam camisetas aos montes e a Vila Brasil, nos altos da Avenida Afonso Pena, virou ponto de encontro de torcedores.
RESUMO
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Em 2014, Campo Grande viveu a Copa do Mundo com grande entusiasmo, mesmo sem sediar jogos. Ruas foram pintadas, monumentos decorados e a Vila Brasil reuniu milhares de torcedores. O comércio ambulante lucrou com vendas de camisetas e artigos temáticos, enquanto moradores como Dona Maria mobilizavam vizinhos para decorar as ruas desde 1994. A festa durou até a semifinal contra a Alemanha, que terminou com a histórica derrota por 7 a 1.
Arquivos cedidos pelo SBT MS ao Campo Grande News mostram como era o clima na Capital naquele ano. A empolgação aparecia nos cruzamentos, nas lojas, nos postos de combustíveis, nas casas decoradas e até no comércio ambulante, que aproveitava cada jogo da Seleção Brasileira para faturar.
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Em uma das reportagens, o vendedor Benedito contava que trabalhava com roupas, mas desde a Copa de 1994 investia nos produtos verde-amarelos. Em 2014, começou as vendas um mês antes do torneio e, até aquele momento, já tinha vendido mais de mil camisetas. O uniforme adulto custava R$ 35, enquanto o infantil completo saía por R$ 25.
Nas esquinas, a Copa também virou renda extra. César, feirante, colocou a família inteira para trabalhar. “Meu pai, meu irmão, todo mundo tá trabalhando”, disse na época. O faturamento, segundo ele, chegava a quadruplicar. Em outro ponto da cidade, o motorista Osvaldo comprou 150 camisetas para revender e, antes das quartas de final contra a Colômbia, já tinha vendido quase tudo.
A expectativa era de que, se o Brasil avançasse, as vendas aumentassem ainda mais. E avançou. O que ninguém sabia era que o próximo capítulo seria justamente a semifinal contra a Alemanha, em Belo Horizonte, uma das derrotas mais marcantes da história do futebol brasileiro.
Naquele dia, Campo Grande acordou com tempo fechado. A reportagem do SBT MS registrou que o verde e amarelo das ruas dividia espaço com os agasalhos. Mesmo assim, o comércio estava cheio de perucas, óculos, chapéus, cornetas, gravatas e até guarda-chuvas temáticos. Tinha produto de R$ 1,50 a R$ 39, para todos os bolsos e níveis de superstição.
A cabeleireira Sueli era uma das torcedoras confiantes. Ela planejava reunir cerca de 40 pessoas entre familiares e amigos para assistir ao jogo. A festa teria até um casamento caipira. “Nós vamos levar bandeirinhas, gravata para o noivo, então a gente vai fazer uma festa bem brasileira”, contou.
A ausência de Neymar, machucado no jogo anterior, preocupava parte da torcida, mas não tirava a esperança. “Não é porque tá sem ele que elas vão pensar: ‘Ai, o Brasil não vai ganhar’. Muito ao contrário. Neymar é um jogador ótimo, mas os outros jogadores jogam dentro de campo”, disse uma torcedora ouvida na época.
Confiança também aparecia nas ruas decoradas. Na Rua Manajó, a tradição vinha de longe. Dona Maria foi quem começou a mobilizar os vizinhos para pintar o bairro. A primeira vez foi em 1994, ano do tetracampeonato. Já era a sexta Copa seguida em que a rua mudava de cor.
Dona Maria contou que, em 1990, esperava a irmã vir de Nova Andradina para assistir ao jogo, mas ela morreu em um acidente de ônibus. “Aí em 94 surgiu a ideia de eu pintar essa rua”, relembrou. Desde então, vizinhos, crianças e até moradores de outros bairros ajudavam na decoração.
Ela também deixava um recado para quem ainda não tinha entrado no clima: “Vamos animar, vamos colocar bandeira nas casas, pinta sua rua, pelo menos meio-fio de verde e amarelo”.
A cidade inteira parecia ter aceitado a missão. O viaduto senador Itacílio Coelho, na Rua Ceará, ganhou pintura verde e amarela. O Paço Municipal, o Obelisco, a Pensão Pimentel e outros pontos também receberam decoração. A Capital não era sede da Copa, mas fazia questão de parecer parte da festa.
Nas empresas, o uniforme tradicional deu lugar às cores da Seleção. Um posto de combustíveis instalou mais de 300 bandeiras e colocou os 30 funcionários no clima. Em uma loja de utilidades domésticas no Centro, os vendedores trabalhavam fantasiados e os clientes saíam com apitos de brinde.
“Funcionário fica mais produtivo, gosta da ideia, participa junto com a empresa e junto com os clientes”, dizia um empresário na reportagem. Uma consumidora resumiu o efeito da festa com simplicidade: “Eu me sinto até feliz, sabe? Me incentiva até eu sair por aí fantasiada para torcer pelo nosso Brasilzão”.
O fotógrafo Cleber Gellio, que fez a cobertura do Mundial pelo Campo Grande News, conta que, pelas imagens, é possível ver o quanto os campo-grandenses estavam confiantes naquela edição.
"Naquela edição, além da camisa, as caracterizações e os adereços estavam mais presentes. Hoje não temos o mesmo entusiasmo dos torcedores pelas ruas ou quando se reúnem", disse. "Acredito que a Copa de 2014 colocou uma pedra na relação entre o torcedor e a seleção. E não é pra menos, é o maior vexame da história do Brasil nos mundiais e, ainda por cima, em casa (7x1). A partir de então, há uma ruptura ainda mais acentuada e falta de identificação com a seleção", completou.

A Vila Brasil era o principal palco da torcida. Para um dos jogos, a expectativa era receber cerca de 3 mil pessoas, mil a mais que na abertura da Copa. A programação tinha sertanejo universitário antes da partida, sorteio de brindes no intervalo e samba e pagode depois do apito final. Tudo de graça.
A segurança também foi reforçada. Segundo a organização informava na época, cerca de 120 a 140 homens atuariam no local, com apoio da Polícia Militar, agentes de trânsito e segurança privada.
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